Frank Beard, o baterista que durante mais de cinco décadas ajudou a definir o som e a identidade dos ZZ TOP, faleceu na segunda-feira, dia 17 de Agosto, aos 77 anos. O músico encontrava-se sob cuidados paliativos e faleceu no seu rancho em Richmond, no Texas, rodeado pela família.
Frank Beard, o inimitável baterista dos ZZ TOP, faleceu. A notícia encerra um dos capítulos mais longos e consistentes de toda a história do rock norte-americano, uma vez que o músico esteve ligado aos ZZ TOP durante cerca de 56 anos e foi mesmo o único baterista que a banda conheceu desde a sua formação, contribuindo para todos os discos de estúdio lançados pelo trio logo desde o histórico «ZZ Top’s First Album», editado em 1971.
A sua morte acontece poucos dias depois de Beard ter abandonado temporariamente a actual digressão dos ZZ TOP, apelidada como The Big One! Tour, devido a problemas de saúde. O músico já vinha a enfrentar dificuldades físicas há algum tempo e, no início de Agosto, deixou de participar nos concertos. Billy Gibbons e Elwood Francis decidiram, ainda assim, manter a rota em andamento, recorrendo ao baterista Michael Monahan para ocupar o lugar de Beard em palco.
Na sequência da morte do músico, os ZZ TOP anunciaram o cancelamento dos espectáculos previstos para 18 e 19 de Agosto, em Salt Lake City e Colorado Springs. A digressão deverá ser retomada já a 22 e 23 de Agosto, no ACL Live at The Moody Theater de Austin, no Texas, uma sala particularmente querida por Beard e numa cidade que, ao longo dos anos, se tornou praticamente uma segunda casa para o baterista.
Billy Gibbons reagiu à morte do companheiro de banda com palavras que deixam clara a dimensão da perda, não apenas para os ZZ TOP, mas também para a comunidade musical texana. “Hoje, o Elwood e eu perdemos um grande amigo e colaborador, e o mundo perdeu um dos bateristas mais naturalmente inovadores e um grande e verdadeiro filho do Texas”, afirmou o St. Gibbons. O guitarrista acrescentou que o “backbeat” característico de Beard foi fundamental para manter os ZZ TOP no topo e garantiu que a banda continuará a sua actividade, respeitando aquela que, segundo ele, seria a vontade do próprio baterista.
A relação de Frank Beard com os ZZ TOP começou praticamente no momento em que a banda encontrou a sua formação clássica. O grupo tinha sido fundado por Gibbons em 1969 e, em 1970, Beard e o baixista Dusty Hill juntaram-se ao guitarrista, formando o trio que viria a tornar-se numa das instituições mais reconhecíveis da história do rock.
Durante décadas, Gibbons, Hill e Beard apresentaram-se como uma unidade praticamente inseparável. O contraste visual entre os dois homens de longas barbas e Beard — que, ironicamente, era precisamente o único membro dos ZZ TOP que não usava uma grande barba — tornou-se uma das imagens mais famosas do rock. Beard era normalmente visto com um simples bigode e, apesar de ter experimentado uma barba curta e cuidadosamente aparada durante parte da década de 90, nunca adoptou o visual exuberante que se tornou sinónimo dos seus companheiros. A ironia do apelido da banda nunca passou despercebida, sendo uma das muitas particularidades que contribuíram para o carácter único dos ZZ TOP.
Antes de assumir definitivamente o seu nome artístico, Frank Beard chegou a ser conhecido pelo apelido “Rube”. É assim que surge creditado no primeiro álbum dos ZZ TOP e também em «Tres Hombres, de 1973. No segundo LP, «Rio Grande Mud», já aparece creditado com o seu nome verdadeiro. Depois de «Tres Hombres», passou definitivamente a figurar nos créditos como Frank Beard. No entanto, mais importante do que as particularidades do nome ou da imagem, porém, foi o papel desempenhado pelo baterista na construção da sonoridade dos ZZ TOP.
O seu estilo combinava precisão, economia e um sentido de groove particularmente forte, criando uma base rítmica aparentemente simples, mas fundamental para o impacto das guitarras de Gibbons e do baixo de Hill. Foi essa abordagem que permitiu aos ZZ TOP desenvolver uma linguagem musical própria, algures entre o blues, o boogie, o hard rock e o southern rock, com uma enorme capacidade de chegar ao grande público sem perder a sua identidade. Beard nunca precisou de recorrer ao virtuosismo ostensivo para se afirmar: a sua força estava na consistência, no balanço e na capacidade de saber exactamente quando tocar e, sobretudo, quando não tocar.
Ao longo de mais de cinco décadas, o músico esteve atrás da bateria em discos que se tornaram fundamentais para a história do rock. Depois do álbum de estreia, a banda construiu progressivamente a sua reputação, antes de atingir a dimensão internacional gigantesca durante os anos 80. A chegada de «Eliminator», em 1983, transformou os ZZ TOP numa verdadeira potência global. A combinação entre riffs bluesy, sintetizadores, produção moderna e uma imagem visual cuidadosamente trabalhada colocou temas como «Gimme All Your Lovin’», «Sharp Dressed Man» e «Legs» nas rádios e na MTV, levando o trio muito além do circuito tradicional do rock.
Por detrás de todo esse sucesso estava Beard, responsável por uma componente rítmica que ajudava a equilibrar o som da banda e, mesmo quando os ZZ TOP introduziram elementos electrónicos e uma produção mais sofisticada, a sua bateria continuou sempre a fornecer a espinha dorsal humana da música.
O baterista também atravessou períodos particularmente difíceis. Em 2002, foi obrigado a abandonar temporariamentea banda depois de sofrer uma apendicite aguda que exigiu uma intervenção cirúrgica de emergência. Na altura, John Douglas assumiu a bateria durante os concertos, ocupando uma função que viria a desempenhar novamente muitos anos depois. Há cerca de ano e meio, Beard voltou a afastar-se temporariamente da estrada devido a um problema de saúde que nunca chegou a ser especificado publicamente. Mais uma vez, John Douglas foi chamado para o substituir. A banda continuou a actuar, mas a ausência do baterista original tornava evidente que a sua presença continuava a ser uma peça essencial da identidade do grupo.
A morte de Beard surge também cinco anos depois da perda de Dusty Hill, o baixista que, juntamente com Gibbons e Beard, formou o lendário trio durante décadas. Hill morreu em julho de 2021, aos 72 anos, deixando Gibbons e Beard como os dois membros sobreviventes da formação clássica. Elwood Francis, que tinha trabalhado durante muitos anos com a banda, assumiu posteriormente o baixo. Com a morte de Beard, desaparece agora o último elemento da formação clássica responsável por atravessar praticamente toda a história dos ZZ TOP desde os primeiros anos até à actualidade.
Apesar da dimensão da perda, tudo indica que a banda pretende continuar. A própria declaração pública de Billy Gibbons aponta nesse sentido, ao recordar que Frank Beard gostaria que os ZZ TOP continuassem “em frente”. A verdade é que não se tratará, contudo, de uma simples substituição de músicos: com a morte do batreista, termina uma ligação pessoal e artística que atravessou seis décadas. Durante mais de 55 anos, Beard tocou em todos os álbuns dos ZZ TOP, acompanhando a evolução de uma pequena banda texana de blues até uma das formações de rock mais reconhecidas do planeta.
O músico assistiu a mudanças profundas na indústria, à passagem do vinil para o CD e depois para o digital, à explosão da MTV, ao desaparecimento de tendências e ao regresso constante do blues e do rock. Agora, deixou para trás uma carreira rara pela sua longevidade e consistência. Mais do que simplesmente o baterista dos ZZ TOP, foi parte integrante da fórmula que tornou o grupo único. O seu nome ficará inevitavelmente ligado à imagem de três músicos texanos que conseguiram transformar riffs de blues, um groove dos diabos e uma atitude irreverente numa linguagem universal.
E sim, os ZZ TOP podem efectivamente continuar em frente, mas aquela formação que, durante mais de cinco décadas, definiu a banda nunca mais voltará a ser a mesma. Frank Beard tinha 77 anos. O seu último compasso fica gravado na história do rock.


