O novo tema chega a 29 de Agosto e antecipa o próximo álbum dos FEAR FACTORY, com Dino Cazares a prometer uma abordagem ainda mais sombria sobre inteligência artificial, extinção e o futuro da humanidade.
Há máquinas que não precisam de ser ligadas para continuarem em movimento. No universo dos FEAR FACTORY, essa ideia ganhou uma dimensão quase profética há mais de três décadas e, agora, volta a assumir uma forma particularmente pertinente. O novo single da banda norte-americana, intitulado «Roboticist», chega no próximo dia 29 de Agosto, e marca oficialmente a estreia discográfica de Milo Silvestro e Pete Webber na formação. Depois de cerca de três anos e meio integrados na actividade ao vivo do grupo, o vocalista e o baterista passam finalmente a deixar a sua impressão num novo capítulo da história da banda liderada por Dino Cazares.
«Roboticist» será disponibilizado precisamente no dia em que os FEAR FACTORY arrancam com a Cybernetic Domination European Tour, numa espécie de coincidência conceptual perfeita para uma banda que desde o início da carreira transformou a relação entre homem, tecnologia e máquina numa das suas principais linhas temáticas. A rota começa em Poznan, na Polónia, e prolonga-se até 10 de Outubro, com passagem por várias cidades europeias ao lado dos CRYSTAL LAKE, dos HATE e THE NOCTURNAL AFFAIR.
Mais do que apresentar uma nova canção, «Roboticist» representa, portanto, um primeiro olhar concreto sobre a próxima fase dos FEAR FACTORY. O tema deverá integrar o muito aguardado sucessor de «Aggression Continuum», de 2021, e surge depois de uma longa espera marcada por alterações profundas na formação do colectivo, mudanças criativas e a saída de um dos elementos mais associados à identidade histórica do grupo.
Curiosamente, a composição de «Roboticist» não é propriamente nova. Uma primeira versão instrumental do tema foi lançada em 2023, no âmbito da promoção do Toneforge Disruptor, um plugin de guitarra e aplicação autónoma desenvolvidos para modelação de equipamento. Essa versão permitia já perceber algumas das estruturas que estavam a ser trabalhadas por Dino Cazares, mas o tema entretanto sofreu alterações significativas antes de chegar à sua forma definitiva.
Em Março deste ano, Dino Cazares explicou à New Breed TV que a composição tinha sido reorganizada para a nova gravação. Segundo o guitarrista e principal compositor dos FEAR FACTORY, uma das partes que originalmente surgia no final da versão instrumental passou a ocupar uma posição central na estrutura da canção. A alteração, garantia na altura Cazares, acabou por beneficiar consideravelmente o resultado final.
Como mencionado, a expectativa em torno de «Roboticist» é ainda maior porque será o primeiro lançamento oficial dos FEAR FACTORY com Milo Silvestro atrás do microfone. O cantor italiano foi anunciado como novo vocalista da banda em Fevereiro de 2023, assumindo uma posição particularmente exigente: suceder a Burton C. Bell, cuja voz se tornou uma das características mais reconhecíveis do metal industrial produzido pelos norte-americanos desde os anos 90.
Silvestro, no entanto, não chegou ao grupo como um simples substituto vocal. Segundo Dino Cazares, a colaboração com o novo vocalista revelou-se igualmente importante no processo criativo do próximo álbum do grupo. O músico, que além de cantar toca vários instrumentos — incluindo teclados, bateria, guitarra e baixo — participou na escrita das letras e partilhou com Cazares a construção de grande parte do conteúdo lírico do disco. Para o guitarrista, essa capacidade multifacetada acabou por facilitar a integração de Silvestro numa banda cuja música depende precisamente da conjugação entre diferentes linguagens.
É precisamente esse equilíbrio entre continuidade e renovação que poderá tornar o próximo álbum particularmente interessante. Milo Silvestro parece ter entrado nos FEAR FACTORY conhecendo aquilo que torna a banda imediatamente reconhecível, mas trazendo também características próprias. «Roboticist» será a primeira oportunidade para perceber até que ponto essa combinação funciona em estúdio.
E, a avaliar pelas declarações de Cazares, a temática do novo LP mantém os FEAR FACTORY firmemente ligados ao imaginário tecnológico que os acompanha desde os primeiros passos. O guitarrista revelou recentemente que as novas canções irão abordar directamente a rápida evolução da inteligência artificial e as consequências que essa transformação poderá ter para a humanidade.
A ideia, porém, não representa uma mudança radical de direcção. Pelo contrário: trata-se da continuação lógica de uma narrativa que os FEAR FACTORY têm desenvolvido desde «Soul Of A New Machine», o disco de estreia lançado em 1992. Desde então, a banda foi construindo uma visão cada vez mais pessimista da relação entre seres humanos e tecnologia, explorando conceitos de automatização, obsolescência, controlo e substituição da humanidade pelas suas próprias criações.
No próximo álbum, essa história parece avançar para um cenário ainda mais extremo. De acordo com Cazares, a humanidade já terá chegado ao ponto da obsolescência e o que resta dela são só fragmentos. A luta deixa de ser simplesmente contra as máquinas ou contra o avanço tecnológico: passa a ser uma batalha pela própria sobrevivência da espécie, pela chamada “de-extinction”, ou seja, pelo esforço de impedir que a humanidade desapareça completamente.
Trata-se de um conceito particularmente adequado ao momento actual, numa altura em que a inteligência artificial deixou de pertencer exclusivamente ao domínio da ficção científica e passou a ocupar um espaço cada vez mais central na vida quotidiana. Os FEAR FACTORY, que durante décadas imaginaram futuros dominados pela tecnologia, encontram assim território temático que se tornou assustadoramente próximo da realidade.
A saída de Burton C. Bell, anunciada oficialmente em Setembro de 2020, marcou o fim de uma das parcerias mais duradouras do metal industrial. O vocalista afirmou na altura que já não conseguia alinhar-se com alguém em quem não confiava ou respeitava, numa referência aparentemente dirigida a Dino Cazares. Mais tarde, numa entrevista à Kerrang!, Bell explicou que a separação vinha a ser preparada há bastante tempo e que as disputas judiciais relacionadas com os direitos sobre o nome FEAR FACTORY, juntamente com conflitos de egos e questões financeiras, tinham contribuído para destruir a sua ligação emocional à banda.
O álbum mais recente do grupo, «Aggression Continuum», acabou por funcionar como uma espécie de capítulo de transição na já longa história da banda californiana. Editado em Junho de 2021 pela Nuclear Blast Records, o longa-duração contou ainda com a formação composta por Cazares, Mike Heller e Bell, embora tenha sido gravado essencialmente em 2017. Quando chegou por fim às lojas, já a relação entre os principais intervenientes estava profundamente deteriorada.
Com Silvestro e Webber, os FEAR FACTORY entraram numa nova etapa. Os dois músicos fizeram o primeiro concerto como membros da formação de palco em 5 de Maio de 2023, no Whisky A Go Go, em West Hollywood, Califórnia. Desde então, têm acompanhado Cazares na estrada, construindo gradualmente uma identidade enquanto formação ao vivo antes de se estrearem oficialmente em disco. «Roboticist» será, finalmente, o momento em que essa nova configuração passa do palco para o estúdio.



