FEAR FACTORY

«DIGIMORTAL»: A morte que os FEAR FACTORY anteciparam há mais de três décadas

Há vinte e cinco anos, os FEAR FACTORY lançavam o álbum mais controverso da primeira fase sua carreira — e, paradoxalmente, o mais profético. Uma obra que vale a pena revisitar sem os preconceitos da época.

Existe uma espécie de crueldade na forma como a história trata certos discos. Há uns que chegam cedo demais, ainda antes do mundo ter vocabulário suficiente para os compreender; e há outros que chegam demasiado tarde, quando o género ou a tendência que habitam começou a deteriorar-se na percepção pública. O «Digimortal», quarto LP dos FEAR FACTORY, lançado a 24 de Abril de 2001 pela Roadrunner Records, teve a infelicidade de ser ambas as coisas em simultâneo.

Vinte e cinco anos depois, com o disco a regressar este mês numa edição comemorativa para o Record Store Day numa edição limitada com quatro faixas bónus nunca antes disponíveis nesse formato, está mais que na altura de o revisitar sem os ressentimentos que o envolveram aquando do seu lançamento original e sem a nostalgia acrítica que por vezes os aniversários convocam.

Ora bem, para compreender o «Digimortal» é necessário recuar à Los Angeles do início dos anos 90, a cidade onde Dino Cazares e o baterista Raymond Herrera criaram o que viria a ser uma das formações mais influentes do metal industrial. Os FEAR FACTORY assinaram com a Roadrunner Records em 1991 e lançaram o álbum de estreia, «Soul Of A New Machine», logo no ano seguinte, tornando-se um êxito underground e conquistando seguidores através de digressões intensas.

A formação clássica — com Burton C. Bell na voz e Christian Olde Wolbers no baixo — consolidou-se em 1994 e deu origem a dois dos álbuns mais celebrados do metal da última década do século XX. O «Demanufacture», lançado em 1995, é geralmente considerado a obra definidora da banda. Afasta-se desde logo do death metal em direcção a um som dominado por um groove muito mais desenvolvido, caracterizado por riffs de guitarra sincopados e industriais, padrões de bateria extremamente precisos e linhas vocais que alternavam entre a agressividade e o melodismo.

O «Obsolete», de 1998, seguiu-se com ambições conceptuais ainda maiores. Tornou-se o álbum de maior sucesso comercial dos FEAR FACTORY, atingindo o #77 na Billboard 200 e os primeiros trinta lugares das tabelas de vendas em vários países, tendo ainda obtido certificação de ouro pela RIAA. Neste contexto, o «Digimortal» chegaria inevitavelmente carregado de expectativas difíceis de satisfazer. O álbum é a parte final de uma trilogia conceptual que se iniciou com o «Demanufacture» e prosseguiu com «Obsolete». A pressão era considerável — e a Roadrunner, bem ciente do potencial comercial do grupo, fez questão de torná-la ainda mais palpável.

O processo criativo do «Digimortal» foi, em parte, uma resposta deliberada ao que, na altura, os FEAR FACTORY sentiram ser uma armadilha do seu próprio virtuosismo. O grupo queria evoluir o seu som e, para isso, lembrava-se constantemente da palavra “simplificação” na busca pela progressão. Resultado disso, o álbum acabaria por adoptar uma abordagem mais melódica, tanto musical como vocalmente, do que os registos anteriores, mantendo ainda o peso característico dos FEAR FACTORY.

O próprio Buton C. Bell descreveria o resultado como algo tão intenso quanto o «Demanufacture», com o groove do «Obsolete» e muito mais melodia. Era uma declaração de intenções bem clara — e também, como a história demonstraria, o início de uma fractura interna que acabaria por partir a banda ao meio.

O disco foi gravado nos Ocean Studios em Burbank, na Califórnia, entre 30 de Setembro e 4 de Novembro de 2000, e misturado nos Sol 7 Studios em Sherman Oaks, também na Califórnia, entre 11 de Novembro e 6 de Dezembro de 2000. A produção ficou a cargo de Rhys Fulber, colaborador de longa data da banda, que aqui assumiu também as teclas e a programação electrónica, dando ao resultado final uma textura mais digital e mecânica do que qualquer trabalho anterior dos FEAR FACTORY.

«Linchpin» foi o single escolhido para representar o álbum perante o grande público, e a escolha faz sentido: é a faixa que melhor sintetiza o que os FEAR FACTORY tentaram alcançar no «Digimortal». A pulsação electrónica de Fulber entrelaça-se com o riff percussivo de Cazares numa progressão que tem algo de hipnótico. Bell oscila entre o rosnado e o lirismo limpo com a precisão de sempre, enquanto os versos pintam um quadro de urgência social que ainda ressoa: “we will never see the end / we will never breathe again“.

Ainda assim, é impossível discutir o «Digimortal» sem abordar o clima cultural que o rodeou. Em 2001, o nu-metal era a força dominante nas rádios e nos canais de música. Em 2001, o fenómeno ainda estava em pleno efeito, dominava as estações de rádio e os programas de televisão com uma versão do metal que, independentemente de se gostar ou não, teve um impacto inequívoco na comunidade metaleira.

A Roadrunner Records, ao querer capitalizar no sucesso de «Obsolete» e do single «Cars», pressionou os FEAR FACTORY a gravarem material mais acessível para o álbum seguinte. O resultado foi um disco que ficou entre dois mundos: demasiado pesado e conceptual para o público mainstream, demasiado polido e simplificado para os fãs mais comprometidos com a brutalidade do «Demanufacture». Claro que, no final, os números reflectiram esse posicionamento incerto.

O «Digimortal» alcançou o Top 40 nos Estados Unidos, entrou no Top 20 no Canadá e chegou ao Top 10 da tabela de vendas australiana. No entanto, apesar de «Linchpin» ter conseguido chegar às tabelas, o álbum havia vendido apenas cerca de 152.000 cópias até Março de 2002: um resultado comercialmente decepcionante quando comparado com o álbum anterior. As críticas foram, na sua maioria, positivas mas cautelosas.

E, infelizmente, a história do «Digimortal» também não se conta sem o seu epílogo. A direcção do álbum, aliada a diferenças pessoais entre membros da banda, criou uma fractura que escalou ao ponto em que Bell anunciou a sua saída dos FEAR FACTORY em Março de 2002. A banda dissolveu-se de imediato. Era o fim da formação clássica — a que tinha gravado o «Demanufacture», o «Obsolete» e o «Digimortal», e que, com esses três discos, tinha escrito um capítulo fundamental na história do metal industrial.

O «Digimortal» foi o último álbum gravado pela formação clássica dos FEAR FACTORY; facto que acaba por conferir-lhe uma carga adicional que a escuta retrospectiva não consegue ignorar: há em muitas das suas faixas uma qualidade de despedida que talvez não fosse intencional, mas que o tempo acabou por tornar audível. A máquina estava a desligar-se — e nem os póprios músicos ainda sabiam disso.