ANETTE OLZON

ANETTE OLZON @ LAV – Lisboa Ao Vivo | 29.08.2026 [reportagem]

No passado Sábado, dia 29 de Agosto, ANETTE OLZON devolveu a Lisboa os seus tempos como vocalista dos NIGHTWISH.

Depois da actuação dos CRUSADE Of BARDS, a luz desceu no LAV – Lisboa ao Vivo e a sala, totalmenre rendida, soltou um aplauso que antecipava mais do que um simples concerto. Ali estava Anette Olzon, pela primeira vez em Portugal, prestes a revisitar um capítulo da sua carreira que, para muitos dos fãs presentes na sala, continua a ser injustamente tratado apenas como uma nota de rodapé na história dos NIGHTWISH. Entre os anos de 2007 e 2012, cantora a sueca assinou dois álbuns — «Dark Passion Play» e «Imaginarium» — que dividiram opiniões junto dos puristas do metal sinfónico, mas que conquistaram uma legião de fãs fiéis.

Foi essa legião que, no Sábado à noite, encheu a sala lisboeta para constatar que a voz que outrora defendeu aqueles discos ainda permanece intacta. Bastaram, de resto, os primeiros acordes de «7 Days To The Wolves» para que qualquer dúvida sobre o estado vocal de Anette Olzon se dissipasse por completo. A escolha do tema de abertura não podia ter sido mais acertada: é uma canção que exige respiração, técnica e presença cénica desde o primeiro segundo, e que a sueca entregou sem qualquer sinal de hesitação.

A banda que a acompanha nesta rota europeia revelou-se desde logo um alicerce de precisão notável. Não houve momentos de desequilíbrio nem de instabilidade instrumental — apenas um som encorpado, capaz de sustentar tanto a fúria orquestral como os arranjos mais despidos que a noite viria a exigir mais tarde. Sem margem para a plateia recuperar fôlego, seguiu-se um bloco de temas mais directos e imediatos. «Storytime», «Ghost River» e «Bye Bye Beautiful» trouxeram refrões que a sala inteira cantou a plenos pulmões, numa cumplicidade que só a familiaridade com estas canções permite construir.

Foi, no entanto, em «Amaranthe» e na vertiginosa «Scaretale» que o espectáculo acabou por atingiu o seu registo mais teatral. A guitarra ganhou um peso incisivo e encorpado, e Anette Olzon mostrou a versatilidade que sempre a distinguiu — a capacidade de alternar entre a delicadeza melódica e uma teatralidade quase operática, sem que a transição soasse forçada.

Verdade seja dita, um concerto de metal sinfónico mede-se também pela forma como gere os seus contrastes, e foi nos momentos mais intimistas que a noite ganhou uma dimensão distinta. «Turn Loose The Mermaids» e a comovente «Meadows Of Heaven» reduziram a intensidade instrumental para dar espaço à voz — e foi precisamente aí que Anette Olzon revelou a sua forma mais pura e expressiva, límpida sem qualquer artificialismo. E estes foram dois momentos em que a sala pareceu conter a respiração em uníssono, como se cada espectador quisesse preservar o instante o máximo de tempo possível.

Para o desfecho, ficou reservado o que de mais épico a passagem de Anette pela banda finlandesa produziu. «The Poet And The Pendulum» foi, sem margem para discussão, um dos pontos altos da noite — uma composição longa, complexa, emocionalmente exigente, e que a vocalista conduziu com um controlo dramático impressionante, gerindo tensão e libertação com mestria de quem já viveu este tema centenas de vezes em palco. De seguida, o espectáculo encerrou com «Last Ride Of The Day», e a mudança de registo foi imediata: a sala, momentos antes suspensa num silêncio quase reverente, transformou-se numa celebração colectiva e, a espaços, contagiante.

Se há uma conclusão inevitável a retirar da noite de Sábado, é esta: Anette Olzon continua a ser uma força vocal que o género trata, ainda hoje, com uma condescendência que os factos não sustentam. A sua passagem pelos NIGHTWISH foi, para muitos puristas, sempre vista como um parêntesis — mas o concerto em Lisboa serviu como lembrete de que esse parêntesis produziu dois álbuns de assinalável qualidade, e que a intérprete que os defendeu em estúdio continua, quinze anos depois, a fazê-lo com uma entrega notável em palco.

Equilibrado entre a nostalgia e a excelência técnica, o espectáculo confirmou que há capítulos da história do heavy metal sinfónico que merecem ser revisitados sem quaisquer preconceitos — e que, sem dramatismos nem qualquer discurso de justificação, a Sra. Olzon se limita a deixar a voz falar por si.