Numa arena repleta e em êxtase total, os brasileiros SEPULTURA despediram-se dos fãs europeus com quase duas horas de repertório, convidados especiais e um adeus servido ao som de Philip Bailey.
Há concertos que se contam pela duração. Há outros que se contam pelo peso simbólico de cada acorde. O que os SEPULTURA ofereceram no passado dia 9 de Agosto na 3Arena, em Dublin, pertence claramente à segunda categoria: foi a despedida da banda brasileira dos palcos europeus, o fecho de um ciclo que atravessa mais de quatro décadas de thrash, groove metal e uma identidade sonora que ajudou a colocar o Brasil no mapa da música pesada mundial.
A digressão Celebrating Life Through Death chegou assim ao seu momento mais pesado em solo europeu — não pela intensidade sonora, que foi, como seria de esperar, brutal, mas pelo significado de ver os SEPULTURA, uma das bandas mais influentes da história do género a fechar as portas deste lado do Atlântico.
O dia começou muito antes das luzes do recinto se apagarem. Durante a tarde, na The Sound House, junto ao rio Liffey, mesmo no centro de Dublin, os SEPULTURA estiveram numa sessão de autógrafos que juntou uma fila considerável de fãs, complementada por uma loja pop-up onde o merchandise da banda esgotava aos poucos. De certa forma, foi um momento único de proximidade e, propositadamente ou não, contrastou com a escala do espectáculo que se seguiria algumas horas depois.







Já no recinto, se houve um elemento que distinguiu esta noite de tantas outras digressões de despedida, foi o cuidado colocado no alinhamento de abertura. Em vez do habitual desfile de bandas de circunstância, a organização apostou em quatro nomes grandes que, isoladamente, já justificariam o preço bilhete.
As brasileiras CRYPTA abriram os trabalhos com a precisão técnica e a agressividade que têm vindo a consolidar o seu lugar no death metal contemporâneo, aquecendo os primeiros fãs a entrar no recinto. Seguiram os norte-americanos SACRED REICH, que trouxeram a garra inconfundível do thrash de Phoenix. Com Phil Rind em boa forma e a banda tecnicamente afiada, temas como «One Nation», «Death Squad» e «Surf Nicaragua» levaram o público ao rubro, confirmando que o thrash clássico continua a ter plena vitalidade em palco.
Os suecos BLOODBATH trouxeram talvez a maior surpresa da tarde: subiram ao palco sem a habitual maquilhagem e sangue cenográfico que sempre definiram a sua estética, numa aparente reformulação de imagem que colocou toda a atenção no peso cru do seu death metal old school. Apesar de soarem ligeiramente deslocados num cartaz mais voltado para o thrash e para o groove, a prestação de Nick Holmes e companhia foi sólida, com «Mock The Cross» e «Eaten» a agradarem aos fãs mais puristas do género.
Por fim, os BIOHAZARD, fiéis à reputação que construíram ao longo de mais de três décadas, transformaram a 3Arena num autêntico caos . A banda de Brooklyn prestou tributo aos recentemente falecidos Lou Koller e Glen Hansard, um momento de recolhimento antes de devolver o recinto à fúria com «Fuck System», que uniu o público num gesto colectivo de dedo do meio no ar. «Wrong Side Of The Tracks» e «Five Blocks To The Subway» mantiveram o nível, e os mosh pits massivos, com corpos a voar por cima da barreira de segurança, deixaram o terreno muito bem preparado — em ponto de rebuçado, dir-se-ia — para os SEPULTURA. O encerramento, com «We’re All Gonna Die» e «Punishment» foi a machadada final antes do intervalo.










Com «War Pigs», dos Black Sabbath, e «Polícia», dos Titãs, a ecoarem no PA como introdução, os SEPULTURA entraram em palco pelas 21:10 para interpretarem um alinhamento avassalador de cerca de uma hora e quarenta e cinco minutos — um percurso que atravessou praticamente toda a discografia da banda de Belo Horizonte, dos clássicos incontornáveis dos anos 80 e 90 aos LPs mais recentes.
O concerto abriu em força com «Inner Self», «All Souls Rising» e «Desperate Cry», estabelecendo desde os primeiros minutos um ritmo implacável que não daria tréguas ao público nas quase duas horas seguintes. Uma das inclusões mais celebradas da noite foi «Phantom Self», retirada do álbum «Machine Messiah», de 2017 — uma escolha que fugiu ao óbvio e recompensou os fãs de longa data. Do EP mais recente da banda, ouviram-se ainda «Beyond The Dream» e «The Place», duas óptimas provas de que os SEPULTURA continuam a produzir material relevante mesmo na recta final da sua carreira.
Ainda assim, a parte final do alinhamento principal foi um autêntico desfile de hinos: «Refuse/Resist» e «Arise» encadearam-se sem qualquer margem para respirar, consolidando o estatuto destas canções como pilares absolutos do repertório da banda. E, se houve um elemento que tornou esta noite verdadeiramente irrepetível, foi a série de participações especiais que transformaram o alinhamento numa celebração colectiva entre bandas que partilham décadas de estrada e influência mútua.
«Kaiowas», um dos momentos mais percussivos e tribais do repertório dos SEPULTURA, contou com a presença de Phil Rind, dos SACRED REICH, e de outros músicos convidados, criando uma atmosfera de comunhão pouco habitual num concerto de metal desta escala. Em «Slave New World», clássico do álbum «Chaos A.D.», subiu ao palco Evan Seinfeld, dos BIOHAZARD, injectando a energia característica que sempre trouxe aos seus próprios concertos. Já em «Territory», foi Tainá Bergamaschi, das CRYPTA, quem se juntou aos SEPULTURA, um gesto simbólico que reforçou a ligação entre gerações do metal brasileiro num palco irlandês.
Depois de um solo de bateria demolidor de Greyson Nekrutman, os SEPULTURA regressaram para o encore com uma versão reduzida de «Ratamahatta», seguida da inevitável «Roots Bloody Roots», que fez a 3Arena inteira erguer-se num último coro colectivo — provavelmente o momento mais visceral de toda a noite. A despedida definitiva das salas europeias fez-se, no entanto, num tom inesperadamente suave: «Easy Lover», de Philip Bailey, a soar através d sistema de som, enquanto Andreas Kisser e Derrick Green permaneciam em palco, visivelmente emocionados, perante um público que percebia estar a assistir ao fecho de um capítulo que não voltará a repetir-se da mesma forma.
O que este concerto em Dublin representou vai, na verdade, muito além de uma simples data de digressão. Ao longo de mais de 40 anos, os SEPULTURA foram um dos poucos colectivos sul-americanos a conquistar um lugar permanente no panteão da música pedada mundial, abrindo caminho para gerações de bandas brasileiras — das quais as CRYPTA, presentes nesta noite, são um dos exemplos directos mais modernos.
Encerrar a presença europeia com um cartaz que reuniu thrash, death metal e NYHC, ainda mais com participações que uniram três continentes em palco, foi talvez a forma mais coerente de assinalar o fim deste capítulo: não como um adeus solitário, mas como uma celebração colectiva de uma cena que os SEPULTURA ajudaram a construir. Resta agora saber o que a banda reserva para o resto do mundo — mas na Europa, pelo menos, a história ficou contada com dignidade e com a companhia certa.












