AMORPHIS

AMORPHIS: «ELEGY», o LP em que os finlandeses transformam a traição em obra-prima

Quando uma banda abandona o que a tornou grande, costuma perder-se. Os AMORPHIS encontraram-se.

Havia algo de inevitável no que os AMORPHIS fizeram em 1996. Quem tivesse ouvido com atenção os últimos minutos do incontornável «Tales From The Thousand Lakes» — aquele esmorecimento gradual, quase contemplativo, que encerra o disco — talvez tivesse pressentido que o passo seguinte não seria uma reafirmação das trevas, mas uma partida em direcção a um horizonte ainda por definir. O «Elegy» não caiu do céu. Foi construído lentamente, tijolo a tijolo, no silêncio entre os acordes finais do disco que o antecedeu.

Mas isso pouco importou a quem esperava a continuação lógica de dois dos registos mais impecáveis que o death metal alguma vez produziu naqueles anos. Tomi Koivusaari — cujos growls conferiam às gravações anteriores a densidade de granito molhado — cedeu o microfone a Pasi Koskinen, um cantor de abordagem completamente diferente, limpa, melódica, quase solar. A folk. O psicadelismo. O rock experimental. Tudo isso começou a entranhar-se no som dos AMORPHIS. Para muitos, era demasiado.

Havia um contexto, no entanto. A primeira metade dos 90s foi um campo minado de apostas arriscadas. Bandas que tinham construído reputações à custa de som brutal decidiam, uma após outra, dobrar em direcção a territórios mais acessíveis. Os CELESTIAL SEASON, os PYOGENESIS, os XYSMA — todos eles experimentaram variações sobre o mesmo tema, com resultados desiguais. E o público estava a chegar ao limite da paciência: já tinha engolido o «Wolverine Blues», já tinha suportado o «Heartwork», e até já tinha assistido a demasiadas transformações que lhes pareceram capitulações.

Nesse clima de desconfiança generalizada, o «Elegy» foi recebido com a frieza reservada aos suspeitos de traição. Era uma atitude injusta, mas compreensível à época. Era o reflexo de uma geração de ouvintes que confundia fidelidade artística com imobilidade criativa. Felizmente, passado o choque inicial — que durou, para quem soube escutar, não muito mais que dois dias —, o LP acabaria por revelar-se como algo extraordinariamente difícil de encaixar numa gaveta, e extraordinariamente fácil de amar por isso mesmo.

«The Orphan» é talvez o exemplo mais expressivo desta ambiguidade calculada. A canção arranca como uma balada daqueles para cantar à fogueira, com a cadência lenta e saturada que os ZZ TOP cultivaram nos seus momentos mais drogados e contemplativos. De repente, sem aviso, emerge um death/doom de densidade quase equiparável ao que AMORPHIS já tinham feito no «Tales From The Thousand Lakes». E antes de fechar, o tema ancora numa mistura das duas metades, com heavy metal clássico a surgir como um convidado inesperado que ninguém manda embora porque está, afinal, perfeitamente à vontade.

Este tipo de ruptura e reconciliação percorre o disco inteiro. O teclado Moog é tratado como foi nos seus primeiros anos de vida — não como ornamento, mas como linguagem — e dialoga com o que restava de uma arquitectura de sintetizadores grandiosa que os AMORPHIS não voltariam a explorar desta forma durante vários anos. À medida que o álbum avança, a direcção fica clara.

O tema-título, por exemplo, soa mais a uma canção perdida dos KANSAS do que a qualquer coisa que a primeira metade do disco poderia antecipar. Mas funciona. Funciona precisamente porque os AMORPHIS sempre souberam construir melodias que ficam, que habitam, que não pedem licença para regressar.

Convehamos, há qualquer coisa que atravessa todas as fases dos AMORPHIS — da brutalidade inicial ao progressivo, do folk ao metal contemporâneo — e que resiste a qualquer classificação de género. É uma voz própria, uma assinatura sonora que permanece reconhecível independentemente do envelope em que é entregue. Nesse sentido, o «Elegy» é, muito provavelmente, o disco que melhor demonstra essa elasticidade, justamente porque é o que mais se afasta do ponto de partida sem perder o fio condutor.

Chamar-lhe “metal progressivo” seria uma simplificação que não presta serviço a ninguém. Este álbum é folk, é psicadélico, é doom, é rock, é metal clássico — e é tudo isto ao mesmo tempo, não por indecisão, mas por uma generosidade estética que recusa a estreiteza das categorias.

E sim, é verdade que há discos que envelhecem mal porque foram corajosos na altura errada. No entanto, o «Elegy» pertence à categoria oposta: envelheceu de forma tão digna que é hoje mais fácil de defender do que foi em 1996. O que então parecia uma concessão ao mercado revela-se, com distância, como uma das apostas mais calculadas e bem-sucedidas da discografia dos AMORPHIS — um disco que não pediu permissão para existir tal como é, e que continua a não precisar de a pedir.