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AC/DC @ PASSEIO MARÍTIMO DE ALGÉS: O rock’n’roll ainda estava vivo e de boa saúde

Dúvidas restassem, no primeiro espectáculo da ‘Rock or Bust Tour’ a contar com Axl Rose na voz, os AC/DC provaram que, pese as peripécias que os tinham rodeado por aqueles dias, continuavam a ser a mesma máquina demolidora.

Convenhamos, por aquela altura, depois de terem perdido um baterista, um guitarrista e um vocalista, as probabilidades de vermos os AC/DC ao vivo e a cores deviam ser remotas – qualquer outra banda, por muito resiliente que fosse teria arrumado as botas. E ninguém lhe apontaria o dedo por isso. Mas não, apesar de todas as contrariedades, Angus Young e companhia continuam prontos para as curvas, mesmo face à vaga de descontentamento generalizado com que a notícia da substituição do vocalista Brian Johnson por Axl Rose, o controverso frontman dos Guns N’ Roses, foi recebida pela sua vasta legião de fãs.

E mesmo com a banda a autorizar a devolução do valor dos bilhetes a todos aqueles que recusaram dar uma oportunidade a esta formação recauchutada, o Passeio Marítimo de Algés encheu para mais uma demonstração de rock’n’roll feito como mandam as regras e, no final, não se ouviu uma única voz de desagrado entre os milhares que acorreram ao evento.

A meio da tarde temeu-se o pior; isto porque, chegado o muito esperado dia do embate com o rock’n’roll train, nem S. Pedro poupou a veterana banda australiana. Como se de um sinal dos deuses se tratasse, Lisboa viu-se fustigada por um temporal medonho, que por breves instantes parecia ameaçar a realização do espectáculo Percebeu-se rapidamente que não seriam também as condições climatéricas adversas a pôr um travão na digressão Rock or Bust, que prosseguiu como planeado.

Outra coisa não seria de esperar, de resto. Num momento decisivo como era aquele para a carreira dos AC/DC, e com o concerto de Lisboa, a servir de ponto de comparação para os que ainda estavam para vir até ao final da campanha em andamento, os músicos não tinham outra opção se não dar o seu melhor. Foi precisamente o que fizeram, mas já lá vamos.

19:40. Debaixo de chuva e vento forte, Tyler Bryant & The Shakedown sobem ao palco instalado no Passeio Marítimo de Algés perante um recinto já bem composto. Ao segundo tema do alinhamento, o jovem músico de Honey Grove, no Texas, um autêntico prodígio das seis cordas com apenas 26 anos, atira para o microfone um “the rain won’t stop us” e, mesmo que naquele momento ninguém acreditasse que o céu ficaria limpo de nuvens negras, é recebido com um urro de aprovação por parte da plateia.

«I Got My Mojo Workin’», uma versão de Muddy Waters, reflete bem o balanço bluesy que faz os temas do quarteto — veem-se os primeiros braços no ar aqui e ali, e evitar bater o pé torna-se difícil. Com os ponteiros do relógio a bater nas 20:00 o sol ergue-se, entre as nuvens, por trás do palco — o rock’n’roll tinha, uma vez mais, parado a chuva.

Entre o rock com travo sulista e os blues, Bryant deu continuidade à actuação com garra assinalável e, mesmo que se percebesse que grande parte dos presentes estavam pouco interessados no que se passava em palco, retirou-se de cena sob aplausos, tendo certamente conquistado fãs nesta estreia em Portugal.

Poucos minutos passaram até os roadies começarem a preparar o palco, ladeado por duas gigantescas torres de luz e som, adornado no topo pelo emblemático logótipo da banda e pelos devil horns que são a sua imagem de marca, para o início da actuação dos cabeças-de-cartaz. A mera visão da parede de amps que ocupa grande parte do cenário, inspira um “não há-de o outro ter ficado surdo” e uma risada colectiva mesmo ali ao lado.

Verdade seja dita, enquanto o P.A. solta clássicos dos Rolling Stones, o público mantém-se invulgarmente tranquilo, visivelmente entusiasmado nas obrigatórias selfies ou absorto num misto de frio e curiosidade, que faz levantar um mar de telemóveis frente ao palco a cada quebra na música ambiente.

Passavam 16 minutos das 21:00, quando a «Jumpin’ Jackflash» é interrompida sem cerimónias pela imponente introdução que dá início ao momento mais esperado da noite. Veem-se astronautas a depositar uma bandeira australiana na lua, ouvem-se sinos e o riff inicial da «Back In Black»; a contagem decrescente antecipa o embate do cometa AC/DC na Terra.

Angus Young surge, como por magia, na boca de palco — o músico enverga o seu habitual fato de colégio, resplandecente no seu vermelho vivo. Axl Rose, sentado num “trono” devido a uma lesão no pé, solta um “Yeah! Até you ready?!” e «Rock or Bust» dá o tiro de partida para um show que se desenrola a alta velocidade, sem paragens desnecessárias.

«Shoot to Thrill», o segundo tema do alinhamento, põe o público aos saltos e, ainda antes de soarem os primeiros acordes de «Hell Ain’t A Bad Place To Be», o vocalista volta a dirigir-se ao público — “It turned into a beautiful sunny day… Alright! Nice to meet you”, revelando a boa onda que o tem caracterizado nas últimas aparições ao vivo. Os êxitos sucedem-se, sempre acompanhados por tiradas curtas, mas certeiras, por parte da voz dos GUNS N’ ROSES«Black In Black», «Got Some Rock & Roll Thunder», «Dirty Deeds Done Dirt Cheap» e «Rock’n’Roll Damnation», um tema que já não era tocado há mais de uma década.

Vestido de preto da cabeça aos pés, chapéu na cabeça e duas cruzes gigantes ao pescoço, Axl assume sem pudor a sua posição de vocalista convidado e fã dos AC/DC, incentivando a plateia a gritar por Angus e mantendo-se tão fiel quanto possível ao registo que sempre dominou uma das suas principais influências. Muito aplaudido, o início da «Thunderstuck» acaba por ser o momento mais tremido de toda a actuação, mas Axl redime-se depressa, puxando pelo registo mais agudo, que se adequa na perfeição ao tema.

É já com Angus em mangas de camisa que atacam «High Voltage», seguida de mais uma canção recente, «Rock’n’roll Train», «Hells Bells» (com um sino gigante em palco), «Given The Dog a Bone» e «Sin City», durante a qual Angus fustiga o braço da guitarra com a sua gravata. Axl introduz «Shook Me All Night Long» com um irónico “Somebody might know this one… Maybe… I’m pretty sure you do!” e o acorde inicial provoca mais uma reacção efusiva por parte dos presentes.

Por esta altura está tudo “colado” ao palco, enquanto o quinteto debita uma selecção irrepreensível de clássicos, que vão de «Shot Down In Flames» a «Whole Lotta Rosie», com uma Rosie gigante em palco, passando por «Have A Drink On Me» e «TNT». A primeira parte do espetáculo termina com «Let There Be Rock», durante a qual Angus sola numa plataforma que se ergue frente ao palco, para depois colapsar e espernear, enquanto chovem confettis sob a audiência.

O músico levanta-se sem falhar uma nota e termina o tema em palco como um maratonista a cortar a meta, já depois de ter subido a uma plataforma por trás dos amplificadores e da bateria, onde faz o seu solo, interagindo com o público que grita a cada oportunidade em jeito de aprovação.

O encore tem início com o palco em tons de vermelho e Angus, com um par de devil horns na testa, erguido do chão, para dar início à «Highway To Hell», sendo que a banda ainda reservava um truque na manga, a «Riff Raff», antes de se despedir ao som de «For Those About To Rock», ao longo da qual não faltaram salvos de canhão e fogo de artifício no final.

Resultado, pelas melhores ou pelas piores razões, este era um concerto que tinha tudo para ser épico e memorável — e foi, pelas melhores razões. Os AC/DC estão mais que habituados a contrariar as piores expectativas. Fizeram-no em 1980, quando se viram privados de Bon Scott e, nesta ocasião, conseguiram fazê-lo de novo.

Talvez não da forma mais diplomática ou cordial, é certo, mas pela amostra no Passeio Marítimo de Algés, a escolha de Axl Rose acabou por resultar muito melhor do que seria expectável à partida, com o timbre do músico a assentar como uma luva na música da banda. Acima de tudo o resto, ficou uma vez mais provado que enquanto Angus Young estiver na banda, os AC/DC nunca vão deixar de ser os AC/DC.

Dê lá por onde der.