Num recanto do Minho que todos os anos se transforma num dos territórios mais extremos da Europa, há momentos em que a música deixa de ser entretenimento e passa a ser algo de difícil catalogação. Uma espécie de ritual de submissão ao ruído. A actuação dos REVENGE no SWR 26 foi exactamente isso.
Fundados no Canadá em 2000, os REVENGE representam uma forma de pensamento musical que rejeita quase tudo o que a indústria considera apetecível. Não há melodias para memorizar, não há refrões para cantar, não há concessões ao espectáculo como convenção. Desde os seus primeiros trabalhos álbuns — «Triumph.Genocide.Antichrist» e «Victory.Intolerance.Mastery» — a banda construiu a sua identidade sobre um bloco de betão: black metal bestial cruzado com death metal caótico e impulsos de grind, tudo orientado para uma única finalidade, a confrontação directa com quem ouve.
Ao longo de mais de duas décadas, essa visão só se radicalizou. Discos como «Behold.Total.Rejection» e o mais recente «Violation.Strife.Abominate» são documentos inegáveis de uma estética que se recusa a envelhecer para a corrente principal. Sim, os REVENGE não evoluíram no sentido convencional do termo — aprofundaram-se. Tornaram-se mais intransigentes, mais focados, ainda mais eles próprios. Chegar a Barroselas com esse historial é chegar com uma reputação que precede qualquer apresentação ao vivo, e que coloca expectativas tão altas quanto específicas.
Sem surpresas, os músicos subiram a palco ao som de uma intro gravada que preencheu o espaço antes de qualquer nota ser tocada ao vivo. Uma estratégia deliberada: construir pressão antes de a libertar. E, claro, não houve apresentações, não houve palavras dirigidas ao público, não houve pausa para respirar. «Swine Tumult» simplesmente começou — e com ela, o mundo exterior ficou suspenso.
O que se seguiu foi, provavelmente, um dos momentos mais intensos do primeiro dia do festival. O metal enegrecido que os REVENGE praticam tem uma característica bem paradoxal: parece absolutamente fora de controlo e, ao mesmo tempo, obedece a uma lógica interna rigorosa. O tempo estava deslocado em relação a qualquer referência convencional de compasso — e isso era precisamente o ponto. Como tende a acontecer em casos como estes, quem conhecia a banda percebeu imediatamente o método por detrás da aparente loucura; quem chegou sem essa bagagem teve provavelmente uns minutos de desorientação antes de se render ao caudal sonoro.
De «Traitor Crucifixion» a «Mass Death Mass», uma composição terminava e a seguinte começava com a inevitabilidade de uma avalanche demolidora. Esta recusa ao comentário e ao gesto performativo foi, ela própria, uma declaração: a música é suficiente, a música é tudo, o resto é ruído de outro tipo.
Se há um elemento que ancora toda a desestruturação dos REVENGE num plano de exigência técnica inegável, esse elemento tem nome: J. Read. O baterista canadiano foi, nesta noite em Barroselas, a figura que mais claramente revelou a diferença entre o caos como preguiça e o caos como disciplina. O homem toca como quem tem contas a ajustar com o instrumento. Há uma agressividade física na sua forma de percutir que vai além da intensidade estilística — é a convicção de alguém capaz de empurrar todo o seu equipamento até ao limite se a ocasião o exigisse.
E ainda assim, por entre a torrente de golpes sucessicos, surgiam momentos de exposição rítmica quase a solo, breves clareiras em que a bateria deixava de ser fundo e passava a ser a figura principal neste filme grotesco. Nesses instantes, tornava-se evidente uma musicalidade que transcende o género: a de um percussionista com vocabulário próprio, capaz de habitar simultaneamente o caos e a estrutura.
Aproximá-lo de referências do rock progressivo pode parecer provocação, mas há qualquer coisa na sua precisão dentro de toda aquela brutalidade que justifica a comparação — transportada, evidentemente, para uma estética completamente oposta em termos de produção e intenção. É essa tensão entre técnica e destruição que faz de J. Read o eixo em torno do qual toda a actuação dos REVENGE girou.
No entanto, por debaixo da aparente anarquia, há outras raízes técnicas que se deixam entrever além da bateria. Os REVENGE têm formação no death metal, e isso nota-se — não no sentido de exibição virtuosa convencional, mas num domínio do instrumento que permite levar a desestruturação até aos limites sem que tudo colapse definitivamente. As guitarras alternaram entre passagens de black de matriz norsk — que qualquer ouvinte mais habituado reconheceu como herança directa da segunda vaga — e explosões de brutalidade mais próximas do death metal norte-americano.
Em «Altar Of Triumph» e «Banner Degradation (Exile Or Death)», esse contraste tornou-se nítido, com as guitarras a oscilarem entre a velocidade cortante do tremolo e riffs de uma densidade quase física. E, claro, a dualidade de vozes foi outro dos elementos mais marcantes da noite. Os dois registos de growl, em vez de se anularem mutuamente, criaram uma textura própria: caótica na aparência, ordenada na execução. «Oath Violator» e «Excommunication», a meio do alinhamento, representaram provavelmente o pico dessa dinâmica: dois temas que pareciam competir entre si em densidade e velocidade, sem que nenhum cedesse um milímetro.
Importa enquadrar este momento no contexto do SWR – Barroselas Metalfest, que ao longo de mais de duas décadas de existência se tornou uma das referências do metal mais extremo e mais experimental. O festival tem uma identidade editorial clara, que privilegia o underground bruto e genuíno em detrimento da visibilidade comercial, e essa escolha reflecte-se na qualidade e coerência dos cartazes que apresenta. Que os irmãos Veiga tenham trazido os REVENGE a Barroselas não foi um acaso — foi uma declaração de intenções que o público do festival soube reconhecer e recompensar.
Num festival onde a exigência do público é inversamente proporcional à tolerância para o mediocre, a actuação dos REVENGE foi recebida com a atenção concentrada que merecia. Sim, não é música para multidões distraídas. É música que exige entrega, que não deixa espaço mental para divagações, que só funciona quase como um exercício de meditação violenta — com o pensamento ordinário a suspender-se porque simplesmente não cabe no espaço que o som ocupa.
«Blood Of My Blood», o tema que fechou a noite, soou menos como despedida e mais como sentença — um último golpe deliberado antes do silêncio forçado. Para quem estava presente e receptivo, este acabou por ser, muito provavelmente, o momento de maior impacto da noite — não pelo espectáculo visual, não pela interacção com o público, mas pela intensidade singular de uma banda que existe para provar que a música extrema, quando praticada sem compromissos, tem uma grandeza própria. O caos, aqui, foi o método. E o método resultou.
Recordem a actuação dos REVENGE, através do bootleg oficial do SWR 26, a partir da marca 5:51:00, sensivelmente. A foto que ilustra o artigo é de NecrosHorns.




