TYPE O NEGATIVE

TYPE O NEGATIVE: «BLOODY KISSES», o beijo mortal que reinventou o metal gótico

Trinta e três anos depois, o «Bloody Kisses», dos TYPE O NEGATIVE, continua a ser o momento em que o metal gótico deixou de ter medo de se rir de si próprio.

Há discos que se ouvem. Há outros que se habitam. O «Bloody Kisses», editado a 17 de Agosto de 1993, pertence claramente à segunda categoria — um mausoléu de sintetizadores, guitarras pesadas como lápides e uma voz que parece emergir de um caixão entreaberto algures em Brooklyn. Passadas mais de três décadas, o álbum que consagrou os TYPE O NEGATIVE continua a ser um dos objetos mais estranhos e fascinantes que o metal alguma vez produziu: um disco fúnebre que, no fundo, está sempre a rir-se de nós.

Depois de um início de carreira marcado pela agressividade quase punk do «Slow, Deep And Hard» e pela controvérsia do «The Origin Of The Feces», o «Bloody Kisses» surgiu como uma mutação. As estruturas longas e repetitivas que já definiam a banda mantêm-se, mas algo mudou profundamente na escrita: os sintetizadores ganharam espessura atmosférica, as melodias tornaram-se inesperadamente pop — quase Beatlescas, na sua construção — e o Sr. Peter Steele descobriu que a subtileza podia ser quase tão devastadora quanto o excesso.

Este foi, sem exagero, o salto qualitativo que redefiniu a identidade dos TYPE O NEGATIVE. Não se tratou apenas de um disco mais bem produzido ou mais ambicioso: foi o momento em que a banda descobriu uma voz de autor coerente, capaz de equilibrar o peso monolítico das guitarras com uma sensibilidade melódica que nenhum outro grupo na encruzilhada entre o gótico e o metal tinha ainda arriscado com tanta convicção.

À superfície, o «Bloody Kisses» é um catálogo de desolação: solidão, corações partidos, desejo e morte cruzam-se em temas bem longos e melodramáticos, cantados por Steele num tom vampírico que parece saído das profundezas de uma cripta centenária. Mas basta escutar isto tudo com um pouco mais de atenção para perceber que, por baixo dessa gravidade teatral, existe um humor negro afiadíssimo. Pois é, o bom do Peter não estava só a expor as suas próprias tempestades emocionais — estava também a satirizá-las, e a satirizar todo o imaginário do rock gótico.

Sexo, morte, cristianismo, vampiros, mais sexo, mais morte: os clichés do género são convocados com um prazer quase cúmplice, como alguém que conhece as regras do jogo tão bem que já pode gozar com elas sem lhes perder o respeito. Essa dualidade atinge o expoente máximo em dois momentos incontornáveis do álbum. A versão quase fúnebre de «Summer Breeze», originalmente um sucesso soft rock dos Seals & Crofts, que ganha aqui uma ironia hilariante quando filtrada pela voz de Steele — num contraste tão absurdo que se torna genial.

Já a «Black No. 1», retracto caricatural da rapariga gótica de subúrbio, funciona como uma paródia afectuosa, e quase carinhosa, dirigida a toda uma subcultura — incluindo a da própria banda. E sim, é verdade que poucas das canções incluídas neste «Bloody Kisses» precisariam de durar tanto tempo quanto duram. No entanto, é precisamente todo esse excesso — essa recusa em respeitar a economia convencional da canção rock tradicional — que constitui parte essencial do charme do LP. Os TYPE O NEGATIVE compreenderam algo que muitas bandas góticas levaram anos a assimilar: a pompa pode ser, ao mesmo tempo, sincera e irónica, sem que uma coisa anule a outra.

Essa é, aliás, a grande proeza do «Bloody Kisses» — soar como um funeral e, ainda assim, transbordar vida. A leveza melódica que atravessa o álbum, associada a essa ironia tipicamente noventista, injectou sangue novo numa cena de metal gótico que, em 1993, dava sinais de esgotamento criativo.

Se hoje o cruzamento entre estética gótica e metal alternativo parece um território familiar, isso deve-se, em larga medida, a discos como este — mesmo que a sua influência raramente seja devidamente reconhecida. O álbum antecipou, com uma inteligência que só o tempo permitiu compreender, a forma como o metal alternativo viria a apropriar-se, de modo pontual, da estética gótica: as texturas de sintetizador, o romantismo sombrio, a teatralidade contida.

E, trinta e três anos depois, o «Bloody Kisses» continua a resistir a qualquer tentativa de arrumação fácil. Não é apenas um LP de metal gótico — é uma reflexão irónica e melancólica sobre o próprio género, escrita por gente que amava aquilo com que troçava. E é precisamente essa ambiguidade, essa recusa em escolher entre o sério e o absurdo, que continua a tornar o álbum tão vivo — ou tão gloriosamente morto-vivo — como no dia em que foi editado.