TRIVIUM

TRIVIUM + BULLET FOR MY VALENTINE + ORBIT CULTURE @ Campo Pequeno, Lisboa | 26.02.2025 [reportagem]

Naquele que foi o primeiro grande concerto de metal de 2025, o Campo Pequeno rendeu-se à fúria nostálgica dos TRIVIUM e dos BULLET FOR MY VALENTINE na celebração de dois álbuns icónicos. Os suecos ORBIT CULTURE e o convidado especial TOY ajudaram a fazer a festa.

Convenhamos não é preciso fazer grandes contas de cabeça para perceber que a muito aguardada The Poisoned Ascendancy Tour é a primeira digressão de metal verdadeiramente significativa deste ano. No entanto, no final de 2025, é bem possível que ainda andemos a referir-nos a ela como “a digressão mais significativa do ano no que à música pesada diz respeito”. O que, por si só, é um enorme elogio; sobretudo se tivermos em conta que Fevereiro ainda nem sequer chegou ao fim. No entanto, a verdade é que não há mesmo como negar o apelo deste cartaz, que representa o que foi indiscutivelmente o marco zero para a direção que o metal tomou nestas últimas duas décadas.

De um lado, os TRIVIUM, que lideraram a vaga de peso norte-americano que produziu verdadeiros luminares do estilo (incluindo os próprios, é claro). Do outro, os BULLET FOR MY VALENTINE, que… Bem, o rótulo “a maior banda de metal britânica desde os Iron Maiden” fala por si próprio, não fala? Como se isso não bastasse, o facto de tanto o «Ascendancy» como o «The Poison» ainda se manterem fantasticamente bem, mesmo 20 anos depois de terem sido originalmente lançados, também joga como uma enorme vantagem.

A nostalgia, e o gosto pessoal, acabará por decidir quem são os “melhores” – e isso notou-se na plateia –, mas o facto do impacto de ambos ainda prevalecer hoje em dia é enormemente especial. Segundo Matt Heafy, uma digressão como esta já devia ter acontecido há muito tempo, mas, com o Campo Pequeno esgotado (ou muito perto disso), percebeu-se rapidamente que não há melhor altura que agora.

Por esta altura tanto os BULLET FOR MY VALENTINE como os TRIVIUM são venerados com fervor pelas suas bases de fãs e, apesar de alguns deslizes ao longo dos anos (mais de uns que de outros, para sermos justos), conseguem fazer tours em grande escala com relativa facilidade. No entanto, juntos, no mesmo cartaz, a tocarem dois álbuns incontornáveis e com encerramento rotativo a cada noite em reconhecimento às magnitudes quase iguais dos seus legados gémeos, estes dois grupos conseguiram transformar o que poderia ser “apenas” um concerto especial num verdadeiro acontecimento com apelo multigeracional.

Não estranhamente, basta olharmos para a banda de abertura e o impacto que estas duas bandas tiveram no universo da música pesada torna-se, de imediato, evidente. Apesar de se posicionarem mais perto dos TRIVIUM em termos de som, é difícil negar a dívida que os suecos ORBIT CULTURE têm para com toda aquela tendência de meados dos anos 2000, e o quão bem conseguem destilar essas referências. Aliás, uma banda como esta jamais poderia ser vista como mero “suporte” em qualquer outra circunstância – o som enorme, o visual, a vibração; está tudo lá.

Testemunho de como uma banda cheia de balanço e peso se mantém surpreendentemente bem dentro do Campo Pequeno, o colectivo oriundo de Eksjö fez muito mais do que apenas “aquecer” o público. Primeiro, trouxeram para o palco um som robusto e imponente, claramente influenciado pelo metal que os cabeças de cartaz ajudaram a definir. Mas não se limitaram à mera homenagem; elevaram a fasquia com um groove pesado e complexo, com texturas electrónicas, mostrando que têm identidade própria.

A actuação começou com «Descent», tema poderoso que revelou logo a habilidade esmagadora do baterista Christopher Wallerstedt. O impacto do seu pedal duplo em «Vultures Of North» foi avassalador, ressoando nas paredes do Campo Pequeno como trovões num céu de tempestade. A voz de Niklas Karlsson, embora por vezes perdida na mistura, denotou um peso emocional que arrebatou a audiência e os riffs fizeram tudo o resto, inspirando os primeiros circle pits da noite. No final, pese a actuação demasiado curta, os ORBIT CULTURE demonstraram uma maturidade musical que os distanciou de simples “suporte de luxo” e colocou como sérios candidatos a liderar a próxima geração do metal pesado.

ALINHAMENTO ORBIT CULTURE:
01. Descent | 02. North Star Of Nija | 03. From the Inside | 04. While We Serve | 05. Vultures Of North

Quando os BULLET FOR MY VALENTINE subiram ao palco, o recinto foi de imediato tomado de assalto por uma energia nostálgica pouco comum. Um vídeo introdutório transportou a audiência para 2004, ano em que a banda fez a sua estreia no Download Festival, momento que catapultou os galeses para a ribalta do metal britânico. Hoje, mais de duas décadas depois, continuam a ser mestres na arte de dominar arenas e, desde o primeiro momento, Matt Tuck assumiu o papel de líder carismático, com uma confiança inabalável que só se ganha após anos de estrada.

A execução de «The Poison» na íntegra trouxe de volta uma fúria crua que muitos temiam estar perdida. «Hit The Floor», tocada ao vivo nesta digressão pela primeira vez desde 2016, mostrou a precisão técnica da banda, enquanto Michael Paget elevou a fasquia com solos que cortaram o ar como lâminas afiadas. De resto, a energia era palpável, mas o profissionalismo quase maquinal da banda deixou pouco espaço para grande espontaneidade. Jamie Mathias, agora responsável pela maioria das vocalizações mais agressivas, mostrou-se à altura do desafio, garantindo uma transição impecável na sonoridade da banda.

Ainda assim, foram os clássicos que incendiaram o Campo Pequeno. «Tears Don’t Fall», logo como terceiro tema do alinhamento, ecoou em uníssono numa comunhão emotiva entre a banda e o público. «4 Words (To Choke Upon)» e «Suffocating Under Words Of Sorrow» trouxeram de volta uma ferocidade reminiscente dos tempos em que o metalcore ainda era só um movimento emergente e, mesmo com um encore onde “fintaram” a promessa de tocarem só o «The Poison» completo ao incluirem a «Waking The Demon», ninguém pareceu incomodado. Afinal, é na força dos seus hinos que os BULLET FOR MY VALENTINE continuam a cimentar o seu lugar na história do metal.

ALINHAMENTO BULLET FOR MY VALENTINE
The Poison Intro | 01. Her Voice Resides | 02. 4 Words (To Choke Upon) | 03. Tears Don’t Fall | 04. Suffocating Under Words Of Sorrow (What Can I Do) | 05. Hit The Floor | 06. All These Things I Hate (Revolve Around Me) | 07. Hand Of Blood | 08. Room 409 | 09. The Poison | 10. 10 Years Today | 11. Cries In Vain | 12. The End | 13. Knives | 14. Waking The Demon

Se a actuação dos BULLET FOR MY VALENTINE foi uma aula de profissionalismo, a dos TRIVIUM foi um verdadeiro espectáculo de grandiosidade e de paixão. Com um cenário envolto em mitologia asiática e duas estátuas a guardarem o palco, a banda liderada por Matt Heafy fez questão de transformar o Campo Pequeno num templo do metal moderno. A surpresa da noite veio com uma gigantesca recriação inflável da criatura da capa de «Ascendancy», que emergiu majestosa durante o solo de bateria, arrancando gritos de espanto da multidão. No entanto, ainda antes disso, logo de início, ficou claro que o quarteto não estava ali para apenas para tocar um álbum clássico; estava ali para dominar.

A precisão de Alex Bent na bateria em «Rain» e «Pull Harder On The Strings Of Your Martyr» foi tão avassaladora que parecia comandar os batimentos cardíacos do público. Paolo Gregoletto mostrou o porquê de ser um dos baixistas mais respeitados da sua geração, com linhas de baixo que se entrelaçam na perfeição com os riffs complexos de Heafy e Corey Beaulieu. A química entre os dois guitarristas atingiu o auge em «Drowned And Torn Asunder», com solos harmonizados que desafiam as leis da física.

Enquanto os ORBIT CULTURE e os BULLET FOR MY VALENTINE seguiram à risca exactamente os mesmos alinhamentos que têm andado a tocar ao longo de toda a digressão, sem qualquer variação digna de registo, coube aos TRIVIUM quebrarem o protocolo em Lisboa. Tal como já tinha feito na MEO Arena, a banda voltou a mostrar orgulhosamente a forte ligação que mantém com o público português, proporcionando um daqueles momentos para mais tarde recordar.

Para surpresa de alguns, os TRIVIUM convidaram o cantor popular TOY a juntar-se a eles em palco, reforçando a amizade que partilham com o músico português. Iniciado com um dueto em «Dying In Your Arms», o momento não se limitou apenas à execução de um tema. Num improviso ousado e irreverente, o Campo Pequeno ecoou em uníssono a boa e velhinha expressão “Pó caralho!” apoiada nuns riffs bem pesados, para visível gáudio do público e dos membros da banda. Entre risos e olhares cúmplices, ficou claro que aquele era um momento especial, fruto de uma espontaneidade demasiado rara em concertos desta dimensão.

Mas a inusitada colaboração não ficou por aí. A tão comentada “versão metal” de «O Amor Não Tem Idade (Vou Beijar)» voltou a soar nos amplificadores, numa interpretação que oscilou entre o inexplicável e o bizarro, mas que, precisamente por isso, conquistou o público. O Campo Pequeno rendeu-se ao carisma dos TRIVIUM e à sua capacidade de, mais uma vez, proporcionarem uma experiência memorável e singular. Resultado, num espetáculo marcado por momentos de pura energia e comunhão, este episódio destacou-se como um dos pontos altos da noite, reafirmando a relação especial que a banda mantém com Portugal.

Feitas as contas, a abordagem dos TRIVIUM a este concerto revelou-se magistral na forma como equilibraram intensidade brutal com uma atitude descontraída. Matt Heafy brincou com o público, comunixou em português bastante aceitável e provou que continua a ser um dos frontman mais carismáticos (e simpáticos) do metal moderno. Em termos de performance, a banda norte-americana revelou-se num patamar superior, mostrando que o seu apogeu criativo não é apenas uma memória nostálgica, mas uma realidade presente.

No final da noite, enquanto os ecos de «In Waves», a única canção extra «Ascendancy» que se ouviu nesta ocasião, ainda reverberavam nas paredes do Campo Pequeno, ficou claro que a The Poisoned Ascendancy Tour é muito mais do que uma celebração de nostalgia. É a prova viva de que tanto os TRIVIUM com os BULLET FOR MY VALENTINE continuam a moldar o futuro do metal, não apenas a viverem do passado. Para os fãs em Lisboa, esta noite ficará certamente gravada na memória como um testemunho de poder e paixão, onde duas lendas do metal moderno provaram porque continuam a ser gigantes.

ALINHAMENTO TRIVIUM:
01. The End Of Everything | 02. Rain | 03. Pull Harder On The Strings Of Your Martyr | 04. Drowned And Torn Asunder | 05. Ascendancy | 06. A Gunshot To The Head Of Trepidation | 07. Like Light To The Flies | 08. Dying In Your Arms | 09. Coração Não Tem Idade (Vou Beijar) | 10. The Deceived | 11. Suffocating Sight | 12. Departure | 13. Declaration | 14. In Waves