Dez anos de TOXIKULL! Um novo disco feito sob pressão, gravado em tensão, lançado com a consciência de que algo tem de mudar. Na passada sexta-feira, no RCA Club, a turbulência soou exactamente como devia.
Há uma tensão constitutiva na identidade dos TOXIKULL que, em conversa com a LOUD! antes da edição de «Turbulence», o vocalista/guitarrista Lex Thunder já tinha articulado com uma clareza rara: são uma banda portuguesa de heavy metal a tentar afirmar-se num mercado europeu que os trata, por definição, como outsiders. A actual editora da banda de Cascais é germânica — a Dying Victims Productions, uma casa de referência no underground mais tradicional —, fazem digressões lá fora, as reviews de publicações internacionais têm-se acumulado durante as últimas semanas. E, ainda assim, a origem continua a contar. “Nesses mercados, aparecemos sempre como outsiders, como pessoas que vêm de fora. Isso torna tudo mais difícil.”
Cá dentro, o panorama tem as suas próprias idiossincrasias. Lex reconhece que parte do público luso apreciador de metal clássico continua ligado ao material mais antigo do grupo, enquanto ele e o seu irmão, o guitarrista Michael Blade, avançaram para territórios diferentes entretanto. “O pessoal vem falar comigo e menciona quase sempre o «Cursed And Punished». E eu, às vezes fico, a pensar que já lançámos álbuns que, na minha opinião, são muito bem melhores, mas a verdade é que a malta ainda está ali presa.” É uma frustração legítima, desabafada sem rancor, mas com uma impaciência contida que diz muito sobre onde os TOXIKULL querem estar em 2026.
«Turbulence», que foi editado no passado dia 24 de Abril em CD e LP, reforçando a ligação desta gente ao formato físico num momento em que o streaming domina os hábitos de consumo — é também uma declaração sobre o tipo de circuito em que os TOXIKULL continuam a mover-se: não o das playlists algorítmicas e dos números de streams acumulados, mas o dos fãs que compram discos, que vão aos espectáculos, que leem as notas dos encartes. Na noite da passada sexta-feira, à porta do RCA Club, em Lisboa, havia uma enorme fila de fãs na rua para provar esse ponto.
Quando conseguimos entrar finalmente na sala, os AFFÄIRE já tocavam lá dentro, dando boa conta do seu hard rock com laivos sleazy frente a uma plateia ainda algo despida. E isto não é só um detalhe menor — significa que muita gente perdeu a primeira metade do set de abertura, e que o RCA Club, quando começou a encher, já tinha uma temperatura própria.
Em palco, os roqueiros lisboetas apresentaram-se com confiança e garra. Com um alinhamento que tentou — e conseguiu — focar os seus mais conhecidos, esbanjaram de classe hard rock, provando uma vez mais que ainda há fãs do género em Portugal — o que falta são oportunidades mais frequentes para se fazerem ouvir.











A seguir, os XEQUE-MATE trouxeram uma energia diferente à sala: hard rock/proto-heavy cantado em português, com a presença e o peso de quem já percorreu muita, muita estrada. Apesar de um changeover algo demorado e com algum atraso em relação aos horários anunciados, os veteranos do Porto mostraram-se em boa forma e abriram com «Corre, Corre», seguida de «Entrudo» — com um toque de gaita-de-foles que desarma qualquer expectativa mais convencional — e da velhinha «Ritual».
Num alinhamento bem escolhido, houve ainda tempo para «Rastejantes» e «Escrava da Noite», proibida pela Rádio Renascença nos anos 80 e apresentada como uma daquelas que, hoje em dia, não prescindem de tocar ao vivo. A plateia explodiu com o hino «Filhos do Metal» e, no final, aquilo a que asistimos foi a um concerto que cumpriu e foi mais além: deixou a sala aquecida e de bom humor para o que viria a seguir.
Desta vez, os TOXIKULL não entraram em palco. Aterraram. Antes de se ouvir qualquer nota, uma voz pré-gravada — ao estilo de piloto de um avião em modo de aviso formal — cortou o silêncio da sala: “na próxima hora vamos atravessar um período de turbulência.” Estava dado o arranque, com uma eficácia quase teatral, para a entrada do quarteto em palco.
A plateia sabia o que vinha aí. E veio. O tema-título do novo álbum abriu o concerto com uma clareza de intenções que dispensou explicações, com «Turbulence» a revelar-se ainda mais urgente ao vivo do que na gravação de estúdio — mais física, imediata, com a bateria do Tommy 666 a impor ao tema um peso extra que a versão original apenas antecipava.
Ponto assente: os TOXIKULL revelaram-se bem coesos desde o primeiro compasso. “Casa cheia! Sold Out! Obrigado por estarem todos aqui passados dez anos”, disse Lex, em pose triunfante, logo a seguir ao primeiro tema do alinhamento. A tirada foi recebida com aplausos em uníssono, ainda que nos tenha parecido que o RCA Club não estava tão cheio como no concerto de apresentação de «Under The Southern Light». Na verdade, uma década é tempo suficiente para construir um percurso, mas também para começar a sentir o peso daquilo que ainda não aconteceu.
O álbum anterior, lançado em 2024, foi um marco real da carreira do grupo: contrato com a Dying Victims, slots de abertura para bandas intrenacionais, a Sala Tejo da enorme MEO Arena, as tours pela Europa. Dentro do seu quintal, um sucesso. Mas o quintal tem paredes, e Lex sabe-o melhor que ninguém. “Chega a um ponto que as coisas têm mesmo de explodir um bocadinho mais”, disse-nos ele na semana que antecedeu o concerto. Esta noite era, em parte, sobre isso também.







«Turbulence» não nasceu num ambiente de tranquilidade criativa. O disco marcou a primeira vez que os TOXIKULL trabalharam com um produtor de renome, e a experiência não foi indolor. Aliás, para uma banda habituada a ter a mão em tudo, foi uma prova de fogo. Houve tensão. A crise foi superada, mas deixou marcas produtivas: expôs as partes mais débeis e obrigou o grupo a olhar para dentro com uma honestidade que o conforto do método habitual não permitiria.
O resultado é um disco que Lex descreveu como “rock’n’roll” — não no sentido de género, mas no sentido de processo. Imperfeito em sítios calculados, humano onde podia ser asséptico. Ao vivo, essa humanidade tornou-se ainda mais evidente. Lex na guitarra/voz, Michael na guitarra e Tommy na bateria a honrarem o trabalho que o disco exigiu deles, Infernando no baixo a segurar tudo — a coesão que se ouviu no RCA Club não foi acidente. Foi uma consequência directa de tudo o que correu menos bem em Outubro do ano passado, quando estavam a gravar no Porto.
E, provando que os TOXIKULL sabem exactamente o que estão a fazer, o que se seguiu ao tema de abertura foi um set construído com a lógica de quem já conhece muito bem a diferença entre um alinhamento e uma mera lista de temas. «Strike Again» e «Will Rock Again» empurraram desde logo a intensidade para cima, estabelecendo o tom de um concerto que não pretendia dar tréguas. «Metal Defender», em versão curta, funcionou como cápsula do tempo — um lembrete de onde a banda veio, sem nostalgia desnecessária.
«Night Shadows» levou-nos de volta a 2024, «Killer Night» invocou o muito adorado «Cursed And Punished» e «Dragon Magic» aprofundou a visita aos territórios do novo álbum, dando ao público que o tinha ouvido pela primeira vez esta manhã a oportunidade de o encontrar ao vivo poucas horas depois — uma experiência rara e até algo vertiginosa. «Hard To Break», mais uma das novas, e a orelhuda «Around The World» mantiveram o nível antes de «Under The Southern Light», com a sequência a funcionar, neste contexto, como um ponto de inflexão entre dois capítulos da banda.






O concerto não ficou preso aí, no entanto. «Cursed And Punished» e «Midnight Fire» — uma das mais melódicas de «Turbulence» — prepararam o terreno para o desfecho. «Stand Up And Shout» fechou o set com a força que se pretende de um tema concebido precisamente para momentos como esse: o último, o mais alto, o que fica.
Durante a tal conversa que tivemos recentemente, houve uma ideia que Lex repetiu repetiu com variações: a de que as coisas têm inevitavelmente de explodir para a banda. Não sabe quando, não sabe se «Turbulence» é o disco que despoleta essa explosão ou apenas a preparação para ela. Mas a consciência está lá, nítida e sem drama, como quem conhece a previsão meteorológica e decide sair à rua na mesma.
Esta noite no RCA Club não foi uma explosão. Foi algo ainda mais interessante e mostrou-nos uma banda com dez anos de carreira a provar, tema a tema, que ainda tem razões genuínas para aqui estar. Que a tensão acumulada — em estúdio, no mercado, na cabeça de quem faz isto há uma década sem atingir o patamar que sente merecer — pode ser transformada em combustível em vez de ressentimento. Que largar parte do controlo, como Lex aprendeu a fazer no Porto com o Jaime Gomez Arellano, não é uma derrota. É, muitas vezes, o único caminho para chegar a outro lado.



