Dez anos de carreira, um novo álbum gravado numa semana, e um vocalista que fala de síndrome de impostor, irmandade criativa e da iminência de uma explosão. «Turbulence», editado hoje, é o disco mais ambicioso e honesto que os TOXIKULL alguma vez fizeram.
São semanas de promoção intensa, entrevistas em série para publicações de todo o mundo, e a iminência de uma digressão europeia que começa quase a seguir ao lançamento do novo álbum. Lex Thunder, vocalista dos TOXIKULL, admite a exaustão sem drama — “estou, tipo, de rastos” — mas há na sua voz uma lucidez que raramente se encontra em quem está no centro do furacão. Não é o entusiasmo calculado de quem ensaiou as respostas. É a clareza de alguém que conhece bem o terreno onde pisa, incluindo as suas irregularidades.
É precisamente essa lucidez — áspera, sem quaisquer ornamentos, refratária ao entusiasmo fácil — que torna a conversa com o Sr. Lex tão reveladora. E que torna «Turbulence», o novo álbum dos TOXIKULL, editado hoje, 24 de Abril, pela editora alemã Dying Victims Productions, algo mais do que um simples registo fonográfico. É um documento de uma banda que olhou para dentro de si mesma, encontrou algumas rachas, e decidiu transformá-las em material de construção.
Por esta altura, os TOXIKULL existem já há uma década. E dez anos são tempo suficiente para uma banda construir um percurso coerente, mas também para começar a sentir o peso do que ainda não aconteceu. Lex é o primeiro a admiti-lo, com uma franqueza que desarmaria o mais incauto. “Nós temos a banda há dez anos, são muitos anos em que continuamos quase… Estás a ver aquela definição do Einstein de loucura? Ele diz que loucura é continuar a fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes. E, às vezes, isso é o que começa a acontecer connosco.”
Não é uma declaração de derrota. É antes o reconhecimento lúcido de que o modelo de crescimento sustentado — lançar álbum, fazer promoção, sair em digressão, repetir — tem os seus limites. O álbum anterior, «Under The Southern Light», foi, nas suas próprias palavras, um marco: conseguiram encher o RCA Club, abriram para bandas maiores, tocaram na MEO Arena, fizeram datas europeias. Dentro do seu quintal, como ele próprio ressalva, foi um sucesso. Mas o quintal tem paredes, e Lex sabe-o.
“É um processo, claro que sim, acho que a banda tem feito as coisas certas, mas chega a um ponto em que as coisas têm mesmo de explodir um bocadinho mais.” A palavra “explodir” regressa várias vezes ao longo da conversa. Não no sentido de uma mudança radical de direcção — os TOXIKULL não estão a pensar tornar-se uma banda pop para conquistar mercados —, mas no sentido de uma inevitabilidade que se vai acumulando. A pressão existe. A consciência dela também. O que fazer com ela é, portanto, a questão a que «Turbulence», talvez não por acaso, tenta responder.
Conceptualmente, o novo álbum dos TOXIKULL organiza-se em torno de sensações de claustrofobia, desespero, sobrevivência e aceitação perante um processo de mudança interna contínua. A turbulência surge como metáfora de um percurso de transformação vivido sob pressão, com controlo limitado e a necessidade de atravessar o momento para aceitar a mudança. A capa, criada pelo artista Mario López, traduz visualmente este universo: uma figura central que não se impõe como inimigo explícito, mas como presença constante e observadora, rodeada por um mundo exterior envolto em vento, tempestade e movimento.
No plano sonoro, o disco foi gravado nos Arda Recorders, no Porto, e contou com a produção de Jaime Gomez Arellano — nome que dispensa apresentações no circuito do metal europeu, com créditos que incluem GHOST, PRIMORDIAL, MAYHEM, OPETH, MOONSPELL ou ANGEL WITCH. No entanto, esta foi a primeira vez que os TOXIKULL trabalham com um produtor de renome desta dimensão, e o facto não passa despercebido na conversa.
No entanto, ainda antes de chegar aí, Lex faz uma observação que define muito do espírito do disco: “É um álbum também um bocadinho mais melódico que os outros, pelo menos eu sinto isso.” Uma afirmação que imediatamente relativiza — os singles lançados até agora são, paradoxalmente, os temas mais melódicos do alinhamento —, mas que revela uma evolução genuína, não calculada, no ADN sonoro da banda.
Há aqui uma maturidade que Lex associa directamente à idade e ao percurso. A irreverência do speed metal dos vinte anos — “quase uma medição de pichas”, diz ele, com o humor que o caracteriza — foi cedendo lugar a algo mais contido, mais trabalhado, mais atento ao espaço entre as notas. Isso não significa suavização. Significa refinamento. Os dez temas que compõem «Turbulence» afirmam-se pela coerência e pela profundidade, sem recorrer a excessos ou artifícios, consolidando uma identidade artística cada vez mais definida.
O processo criativo dos TOXIKULL é, em muitos aspectos, uma história de dois irmãos. Lex Thunder e o guitarrista Miguel Blade são os compositores da banda — dividem os direitos das músicas em partes iguais e funcionam como um núcleo criativo que, por vezes, debate, discute e empurra o outro para além dos seus limites. “Já tivemos grandes discussões. Mas é aquela cena de irmão que, por um lado, é uma vantagem de ter na banda. Tu até podes chatear-te, mas é o teu irmão”, refere Lex. No caso de «Turbulence», o processo foi particularmente concentrado. Partiram de projectos antigos guardados no computador, ideias que dormiam à espera de contexto, e em dois meses tinham o disco composto.
Sobre a ideia romântica de uma banda compor na sala de ensaios, Lex acaba por revelar-se pragmaticamente céptico: “Às vezes penso que é perda de tempo quando as coisas estão tão facilitadas para compor em casa. E também chegas depois à pré-produção e percebes que há coisas que estão realmente uma merda”, diz entre risos antes de ir mais longe ainda, desmontando o mito das grandes bandas.
“Se formos pensar nas grandes bandas mundiais de rock havia sempre um ou dois compositores principais. Nunca é aquela cena de estão todos a olhar uns para os outros e de repente…”. A frase fica suspensa, mas a conclusão é mais ou menosóbvia. O Jimmy Page ou o John Paul Jones já chegavam aos ensaios dos LED ZEPPELIN com as ideias feitas. O Steve Harris, nos IRON MAIDEN, idem. Resultado: a criação colectiva é, muitas vezes, apenas um mito conveniente.
No caso dos TOXIKULL, os irmãos escreveram os temas e, depois de uma pré-produção com uma bateria programada para aferir a sonoridade, uma semana no Arda Recorders e o disco estava gravado. Quanto a como foram parar ao Porto e gravar com o Jaime Gomez Arellano, a explicação revela a naturalidade improvável das boas histórias. Lex explica que tudo começou durante a pandemia, num bar em Cascais, onde se cruzou com o produtor sem saber quem ele era. Foram apresentados, falaram de música, de estúdios, de bandas. Jaime mencionou ter produzido os MOONSPELL e os ANGEL WITCH. A conversa ganhou outra dimensão.
Ao longo dos anos seguintes, ambos foram-se cruzando ocasionalmente e, na edição de 2024 do SWR – Barroselas Metalfest, Arellano viu a actuação dos TOXIKULL e foi directo ao assunto: “Quero gravar-vos!”. Por uma vez, a frase não foi apenas uma gentileza de circunstância, mas sim uma declaração de intenção de alguém que tinha visto o potencial da banda em palco e queria contribuir para o que viria a seguir. No Vagos Metal Fest, Lex abordou-o novamente. Combinaram a gravação. Fecharam o acordo.
A experiência no estúdio foi, nas palavras de Lex, “uma das mais profissionais que tivemos” — e isso, paradoxalmente, gerou o que descreve como síndrome de impostor. “O estúdio é super profissional. E as pessoas que estão lá também são muito profissionais. E nós até nos sentimos um bocado rascas.” Há uma honestidade desarmante nesta confissão, e também um humor genuíno: as barras de chocolate desapareceram, o café foi consumido até ao fim, a casa de banho “sofreu muito” com a presença dos TOXIKULL durante uma semana.
No entanto, por baixo da anedota está uma realidade mais substantiva: trabalhar com Jaime Gomez Arellano foi uma prova de fogo real. O produtor é exigente — a palavra surge várias vezes na conversa — e não cede face a resultados que possam estar melhores. Não intervém na composição — “em termos de composição, o Gomez não teve influência nenhuma”, esclarece Lex — mas intervém na estética, nos timbres, nas ambiências, na forma como cada instrumento ocupa espaço na mistura.
Nesse sentido, há um tema que atravessa toda a conversa com Lex e que, de certa forma, é o verdadeiro fio condutor de «Turbulence»: a dificuldade, e a necessidade, de abrir mão do controlo. Os TOXIKULL são uma banda habituada a controlar o seu próprio processo. Nos discos anteriores, mesmo quando havia um engenheiro de som ou um produtor nominalmente envolvido, eram o Lex e Miguel a dirigir quase todos os procedimentos. Com Jaime Gomez Arellano, isso mudou. E a mudança não foi indolor para todos.
“Pessoalmente, não me custou abrir mão desse controlo, até porque acho que me habituei a ser bastante estoico nesse aspecto. É o que é… e, às vezes, até me meto em problemas por causa disso porque a minha abordagem é muito tipo ‘que se lixe, vamos lá’.» O Miguel, conta Lex, teve mais dificuldade. É mais meticuloso, mais exigente consigo próprio, menos confortável com a imprevisibilidade. E foi essa tensão — entre a exigência do produtor, o perfeccionismo do guitarrista e o estoicismo pragmático do vocalista — que deu ao disco uma energia que Lex descreve como “rock’n’roll”.
“O «Turbulence» é um álbum muito rock’n’roll. E eu acho que isso se sente um bocado até no som, porque aquela energia meio turbulenta refletiu-se também nas gravações.” É neste registo — humano, imperfeito, atravessado por tensão real — que Lex encontra o valor maior do novo registo. “Há coisas que eu agora ouço que não estão perfeitas, mas acho que é isso que também torna o álbum mais especial, porque, às vezes, sentes coisas que são humanas.”
Convenientemente, «Turbulence» não sai em silêncio. A banda apresenta o disco ao vivo esta noite no RCA Club, em Lisboa, e amanhã no WoodStock69, no Porto — dois concertos que funcionam como ritual de passagem para este novo capítulo. Depois, os TOXIKULL embarcam na sua terceira digressão europeia, o que diz muito sobre a consistência do seu método, mesmo quando Lex questiona o que pode (ou não) vir a acontecer.
“Espero que seja um disco que permita fazer as coisas que temos vindo a fazer — tocar muito lá fora, tomar os passos certos, abrir para bandas maiores, continuar a tocar em festivais”, atira ele. As expectativas são medidas, mas não modestas. Até agora, as reacções ao novo LP têm sido quase todas de 9/10 — algo que, nas suas palavras, nunca tinha acontecido com qualquer um dos lançamentos anteriores. No entanto, talvez a expectativa mais significativa seja a que Lex formula quase como uma hipótese: que este lançamento — com o seu misto de produção de referência, honestidade formal e turbulência interna transformada em material sonoro — seja o passo que precede o salto.
“Chega a um ponto que as coisas têm mesmo de explodir um bocadinho mais.” Ele não sabe quando. Não sabe se «Turbulence» é esse momento ou se é a preparação para ele. Mas a consciência está lá, nítida, como uma pressão de cabine que sobe sem aviso. Sim, porque, afinal de contas, a turbulência não é o fim. É o estado que precede a mudança. E os TOXIKULL, dez anos depois de terem dado os primeiros passos, parecem finalmente preparados para a atravessar.
«Turbulence», o novo álbum dos TOXIKULL, já está disponível nas plataformas de streaming e via Dying Victims Productions, em CD e LP. A banda toca esta noite em Lisboa e, amanhã, no Porto.





