Sem falhas de energia e com um cartaz ainda mais denso, o segundo dia de TONS OF ROCK confirmou que Oslo escolheu bem quando decidiu sentar o festival no coração da cidade.
Ao segundo dia, o sol voltou ao Tons Of Rock. A multidão também. E, desta vez, nenhuma falha técnica veio interromper o fluxo de um dia que, de palco em palco, foi construindo um argumento bastante sólido a favor da diversidade de um cartaz que soube exactamnete como equilibrar veteranos e novos nomes, hard rock e metal extremo, teatro e “pancadaria”. O concerto apresentado pelos AUDREY HORNE, por exemplo, incendiu o recinto logo pela manhã, antes sequer do sol ter chegado ao pico.
A banda norueguesa de entrou num dos palcos sexundários com a entrega de quem não tem ansolutamente nada a poupar e tudo a ganhar. Torkjell “Toschie” Rød liderou a banda com uma autoridade vocal e presença de palco difíceis de ignorar, enquanto os guitarristas Arve “Ice Dale” Isdal e Thomas Tofthagen se revezaram em solos que arrancaram aplausos merecidos.
«This Is War» deu o mote para uma actuação sólida, «Pretty Little Sunshine» confirmou a direcção, e o novo single «Insanity» mostrou que este super grupo não vive apenas do que construiu. Depois, «Waiting For The Night» e «Redemption Blues» fecharam uma actuação que ficará entre as melhores do festival — não apenas deste segundo dia.










A abrir o palco principal, os finlandeses APOCALYPTICA escolheram um caminho bastante directo para o coração do público do Tons Of Rock: um alinhamento centrado nas suas versões de temas dos METALLICA. Ouviram-se «Ride The Lightning» e «Enter Sandman» logo a abrir, «Nothing Else Matters» a fazer o que sempre faz mas ao som de violoncelo — que é emocionar mesmo quem jura que não se deixa emocionar —, e «Master Of Puppets» e «Seek & Destroy» a encerrar com chave de ouro.
O resultado foi um recinto a cantar temas que (quase) toda a gente conhece, mediados por um instrumento que lhes empresta uma solenidade inesperada. Não é subversivo, mas funciona. E no contexto de um festival de metal, funciona muito bem.
Do palco principal ao Vampire Stage: os suecos IMMINENCE têm uma qualidade rara, que é a de conseguirem fazer coexistir o violino e o metalcore sem que nenhum dos dois soe a intruso. Eddie Berg, vocalista e violinista, e o guitarrista Harald Barrett — cuja presença em palco tem um magnetismo difícil de descrever mas impossível de ignorar — lideraram uma actuação centrada sobretudo em «The Black», o álbum de 2024, com espaço ainda para «The Sword That Never Bends», novo tema que antecipa o próximo capítulo de uma banda que a Sumerian Records teve o bom senso de contratar. O público saiu impressionado. Com razão.
De regresso ao palco principal, os dinamarqueses D-A-D fizeram o que fazem melhor: não desperdiçar um minuto dos cinquenta que tinham disponíveis. «Bad Craziness» e «Sleeping My Day Away» marcaram presença num alinhamento construído como se de uma antologia se tratasse — o melhor da carreira, sem ornamentos desnecessários. Depois, no Moonlight Stage, os britânicos YONAKA trouxeram rock alternativo com voltagem suficiente para convencer os presentes na tenda.













Após mais uma até ao Vampire Stage aguardava-nos a loucura habitual dos SUICIDAL TENDENCIES — e quem já os viu em Portugal sabe exactamente o que isso significa. Xavier Ware na bateria serviu também de mestre de cerimónias para a entrada da banda em palco. Ben Weinman continuou o seu ritual de guitarrista em perpétuo desequilíbrio, a baloiçar o instrumento e a saltitar como se o palco tivesse molas.
Tye Trujillo assegurou o baixo com a solidez que já lhe conhecemos, Dean Pleasants manteve-se firme na outra guitarra, e Mike Muir foi, como sempre, Mike Muir — inclassificável, inimitável, inevitável. Da poderosa «You Can’t Bring Me Down» até «Pledge Your Allegiance», não houve um minuto de descanso. E, para os seguranças, menos ainda.
As espanholas THE WARNING encantaram no seu palco com um rock moderno que sabe onde quer chegar — mas tiveram a má fortuna de actuar com os ANTHRAX a subirem ao palco principal uns escassos minutos depois. Em festivais desta dimensão, já se sabe que a sobreposição de horários é uma crueldade necessária e, por isso, quem ficou nos dois sítios, não ficou em nenhum a tempo inteiro.










Convenhamos, os ANTHRAX não são uma banda de surpresas. O alinhamento na Noruega confirmou-o: «Among The Living» a abrir, seguido da versão de «Got The Time» — que a esta altura já é mais dos ANTHRAX do que de Joe Jackson —, «Caught In A Mosh», «Madhouse», «Antisocial» e «I Am The Law» a fechar. A única novidade foi mesmo «It’s For The Kids», o tema novo inserido num alinhamento que, de resto, seguiu a ordem do costume.
Na bateria esteve Darby Todd, a substituir Charlie Benante, comprometido com os PANTERA e em recuperação de uma lesão na mão. Joey Belladonna percorreu o palco de um lado ao outro, a puxar pelo público com a energia de sempre. O resto da banda nova-iorquina correspondeu. Não houve revelações — mas também não havia necessidade delas.
A noite pertenceu, no Vampire Stage, a Alice Cooper. Aos 76 anos, o homem continua a fazer daquilo que devia ser apenas mais um concerto de rock’n’roll uma experiência teatral de pleno direito — com guilhotinas, mudanças de figurino e uma capacidade de comando de palco que poucos conseguem replicar, mesmo com metade da idade.










«Who Do You Think We Are» e «Spark In The Dark» deram início às hostilidades. «No More Mr. Nice Guy» foi o primeiro momento em que o recinto cantou em uníssono. Glen Sobel na bateria, Ryan Roxie, Tommy Henriksen e Anna Cara — que está a substituir temporariamente Nita Strauss, ainda em licença de paternidade — nas guitarras, e Chuck Garric no baixo completaram uma banda que soa coesa e bem oleada.
«I’m Eighteen» e «Feed My Frankenstein» foram dois dos pontos altos, «Hey Stoopid» e «Poison» puseram todo o público a cantar, e «Only Women Bleed» trouxe ao recinto um silêncio emocional que contrastou com o estrondo do resto desta noite de Tons Of Rock. Em «Going Home», Alice Cooper foi conduzido à guilhotina e “decapitado” com a solenidade que o ritual exige. Regressou vestido de branco para «School’s Out», encaixada em «Another Brick in the Wall, Part 2», dos PINK FLOYD.
O fecho ficou a cargo de «Smells Like Teen Spirit», dos NIRVANA — uma versão que a banda tem tocado nesta digressão e que soa sempre um pouco estranha, um pouco irreverente, e talvez seja precisamente isso o que se pretende.
Oslo ficou de pé. O Tons Of Rock também. Mais ainda faltavam dois dias de concertos.


