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SPOTIFY e UNIVERSAL MUSIC GROUP fecham acordo para versões e remisturas feitas com IA

A maior editora do mundo e o SPOTIFY chegaram a acordo para licenciar versões e remisturadas geradas por Inteligência Artificial — uma ferramenta paga, que promete partilha de receitas com os artistas, mas que levanta questões sobre o futuro da criação musical.

Chegou a hora do fã se tornar produtor. Ou, pelo menos, é essa a promessa implícita no acordo histórico anunciado no passado dia 21 de Maio entre o Spotify e o Universal Music Group (UMG), que abre agora o caminho para a utilização de uma ferramenta de Inteligência Artificial capaz de gerar versões e remisturas de músicas do catálogo da maior editora do mundo. A tecnologia estará disponível como extra pago para utilizadores Premium da plataforma, e os artistas terão a possibilidade de escolher se participam ou não.

O acordo envolve o licenciamentos tanto de gravações como de publicação musical, com o objectivo de permitir ao Spotify lançar a nova ferramenta que possibilite aos fãs criar covers e remixes do seus temas preferidos dos artistas e compositores participantes. É uma ferramenta de IA generativa que introduz um modelo de criação em que artistas e compositores podem partilhar directamente o valor gerado através de versões e remisturas licenciadas na plataforma.

Este anúncio não surge do nada. Em Fevereiro deste ano, Gustav Söderström, co-CEO do Spotify, revelou aos analistas, na apresentação de resultados do quarto trimestre de 2025, que a tecnologia para permitir aos fãs criar remisturas e covers com IA estava “pronta” — mas que “a ausência de um enquadramento de direitos” travava o avanço. Agora, este acordo com o UMG representa precisamente esse enquadramento que faltava.

Além disso, o negócio enquadra-se numa parceria mais ampla entre o Spotify e o UMG, construída sobre um acordo de licenciamento plurianual assinado em Janeiro de 2025, e sucede à colaboração de Outubro de 2025 entre o Spotify e todas as principais editoras — incluindo a Sony, a Warner, a Merlin e a Believe — para desenvolver produtos de IA musicais centrados nos artistas.

Importa notar aqui que a linguagem oficial do anúncio assenta num triplo eixo: consentimento, crédito e compensação. Apenas os artistas e compositores que consintam terão os seus catálogos disponíveis para ser usados pelos fãs. Os detentores de direitos participantes partilham depois todas as receitas geradas por estas versões, para além dos royalties de streaming habituais. E a funcionalidade não é gratuita — é uma função “superfã” monetizada, adicionada à subscrição existente.

O co-CEO do Spotify, Alex Norström, sublinha o que considera ser a essência do novo projecto: “Resolver problemas difíceis para a música é o que o Spotify faz, e as versões e remisturas feitas por fãs são o próximo passo. O que estamos a construir assenta no consentimento, no crédito e na compensação para os artistas e compositores que participam.”

Lucian Grainge, presidente e CEO da UMG, enquadrou o acordo como uma extensão natural da relação entre artistas e públicos: “As inovações mais valiosas na indústria musical aproximam sempre artistas e fãs. Este princípio está no coração desta iniciativa pioneira, concebida para apoiar a criatividade humana, para aprofundar a relação com os fãs e criar oportunidades de receita adicionais para artistas e compositores.”

Verdade seja dita, a questão central aqui não é tecnológica, mas económica e filosófica. O acordo resolve o problema que durante anos paralisou este tipo de iniciativas: licenciar os “derivados da IA” directamente ao nível da plataforma, para que a editora, o artista, o compositor e o Spotify participem todos no mesmo modelo em vez de litigarem depois entre eles. É, nesse sentido, um passo estrutural mais que um simples lançamento de produto.

Ainda assim, a ausência de datas e preços concretos deixa perguntas fundamentais sem resposta: quanto receberão efectivamente os artistas? Que mecanismos garantem a atribuição correcta? E, acima de tudo, como reagirão os artistas independentes — que não têm o UMG como parceiro nestas negociações?

Há quem veja neste acordo uma cedência histórica da indústria à inevitabilidade tecnológica; há quem o leia como uma forma inteligente de recuperar controlo sobre um território que, sem qualquer regulação, seria explorado de qualquer forma. A verdade é que ambas as leituras coexistem. Não se enganem, no entanto. O que está em jogo não é apenas a criatividade dos fãs, mas sim a definição do que conta como autoria na era da Inteligência artificial.

Quando uma ferramenta transforma um riff de guitarra numa nova canção, quem é o artista? A resposta do Spotify e da UMG parece ser: “quem pagar a subscrição certa e, claro, quem tiver assinado o contrato certo“.