SKILLET

SKILLET @ Sala Tejo, Meo Arena, Lisboa | 23.05.2026 [reportagem]

Vinte anos de espera. Vinte anos de concertos que não aconteceram, de datas que nunca chegaram à Península Ibérica, de mensagens a perguntar “quando é a vossa vez?”. Na Sala Tejo da MEO Arena, a resposta foi finalmente dada — os SKILLET estrearam-se em Portugal com um concerto histórico.

A moldura humana que preencheu por completo a Sala Tejo foi a prova mais evidente de que o público português ansiava por esta estreia dos SKILLET em solo nacional há muito tempo. A digressão europeia do quarteto de Memphis estava originalmente prevista para cinco semanas — sem qualquer data na Península Ibérica. Foi o carismático vocalista e baixista John Cooper quem impôs a mudança: exigiu ao seu manager a inclusão de Portugal e Espanha n arota, ignorando os alertas sobre o desgaste acrescido do périplo. “Não quero saber, marquem as datas!“, terá alegadamente dito.

A julgar pela recepção em Lisboa, a teimosia foi plenamente justificada. Em palco, Cooper confessou mesmo ter enviado uma mensagem ao manager com uma indicação clara para o futuro: a próxima digressão europeia dos SKILLET terá obrigatoriamente de arrancar em Portugal e Espanha.

O único senão da noite — e há sempre algum — foi o horário, mais de “matiné” do que o habitual: os SKILLET subiram ao palco às 20:15, num timing que não é propriamente o que os fãs de rock esperam num sábado à noite. Ainda assim, o espectáculo ficou marcado por momentos de forte carga emocional. Antes de arrancar com a antémica «Hero» — que Cooper dedicou a Jesus Cristo —, o frontman dirigiu-se directamente ao público com um apelo sincero:

“Nunca desistam da vida, para quem sofrer de depressão e tendências suicidas.” Na plateia, proliferavam cartazes de fãs a agradecer à banda por lhes ter salvado a vida ou por terem estado presentes nos seus momentos mais difíceis. Não foi apenas retórica de palco, portanto — foi uma conversa.

A interpretação de «Hero» trouxe ainda uma das maiores surpresas da noite: a baterista Jen Ledger abandonou as baquetas para assumir as vozes principais ao lado de John Cooper na frente de palco, entregando a bateria a um dos roadies dos SKILLET, que cumpriu a tarefa com distinção assinalável.

Verdade seja dita, o som não foi uniforme em toda a sala — há zonas na Tejo onde as condições acústicas são melhores do que noutras —, mas a força das canções sobrepôs-se a qualquer limitação técnica, mas o concerto avançou em ritmo de celebração constante, com o contagiante «Psycho In My Head» a servir de rastilho — o riff pesado e o pulso industrial do tema transformaram a Sala Tejo num mar de energia.

Depois, canções como «Rise», «Monster» e «The Resistance» sublinharam a consistência de um catálogo construído ao longo de mais de duas décadas, alternando o músculo do metal de inspiração cristã com o compêndio de refrões pensados para unir multidões. Ainda assim, com cerca de 80 minutos de duração, a actuação ficou curta — inevitavelmente, dado o volume de um repertório que continua a crescer e a base de fãs que ficaria facilmente por mais.

No final, a ideia que pairava no ar em Lisboa foi suficiente para deixar uma marca: uma banda que não veio apenas cumprir uma data europeia, mas que tratou este concerto como um destino em si mesmo. Resultado, a estreia dos SKILLET em Portugal — que contou com ainda com os cipriotas GUILTERA, que aqueceram o público com competência e entusiasmo — até pode ter tardado vinte anos. Mas o regresso, pelo tom de John Cooper naquela noite, não deverá demorar tanto.