Os SCORPIONS regressaram uma vez mais a Lisboa — com a mesma fúria roqueira, é certo, mas também com um Klaus Meine cada vez mais frágil.
Há bandas que envelhecem a espaços, com pausas, hiatos e regressos hesitantes. Pois bem, não será, de todo, exagero afirmar que os SCORPIONS não são uma dessas. Ontem, quarta-feira, dia 8 de Julho, numa MEO Arena que voltou uma vez mais a esgotar, os veteranos do hard rock alemão provaram que o tempo pouco lhes toldou a energia colectiva. Uns longos sessenta e um anos depois da formação em Hannover, o quinteto regressou a Lisboa com a Coming Home 2026 Tour, e fê-lo com uma coesão instrumental que desmente, quase ponto por ponto, qualquer discurso sobre a fadiga dos anos.
O grupo, no seu conjunto, está em grande forma. Rudolf Schenker continua a atravessar o palco de um extremo ao outro com o mesmo apetite de sempre, Matthias Jabs mantém intactos tanto o virtuosismo como a teatralidade que lhe conhecemos há décadas, e Pawel Maciwoda segura a secção rítmica com a solidez discreta mas eficaz que o caracterizam. Atrás da bateria está, de há uns anos a esta parte, Mikkey Dee, o ex-Motörhead que ocupou o lugar deixado por James Kottak desde 2016 — e que, ontem, voltou a revelar-se um substituto à altura, imprimindo um ataque mais seco e contundente às composições mais antigas do reportório.
Infelizmente, há uma nota a destacar pela negativa, e ela chama-se Klaus Meine. O peça fundadora e voz identitária da banda desde o final da década de 60, mostrou-se claramente mais frágil do que a robustez do resto dos SCORPIONS faria supor. O registo vocal, capaz de sustentar os registos melódicos, começou a falhar em alguns dos momentos vocalmente mais exigentes do alinhamento. Depois, a mobilidade em palco, sempre reduzida nos últimos anos, é hoje quase nula.
E, num pormenor que não escapou a quem estava mais próximo, as mãos de Meine tremiam visivelmente ao longo de boa parte do concerto — um sinal que, a persistir, pode muito bem acabar por condicionar o futuro próximo da banda em digressão. Ainda assim, e apesar dessa fragilidade evidente, Meine cumpriu o que lhe era pedido, apoiando-se na energia do público e na cumplicidade dos companheiros de palco para atravessar as quase duas horas de actuação.










A Coming Home 2026 Tour tem o nome certo: o concerto abriu, depois de uma breve intro instrumental, precisamente com «Coming Home», seguida de «Gas In The Tank» e «Make It Real» — três temas mais recentes que serviram para testar a força dos SCORPIONS antes de mergulharem de vez num reportório histórico. Não tardou a chegar «The Zoo», seguida de «Coast To Coast» e de um dos momentos mais celebrados pelos fãs mais veteranos: um medley composto por «Top Of The Bill», «Steamrock Fever», «Speedy’s Coming» e «Catch Your Train», num regresso pouco habitual aos primeiros anos da banda.
Seguiu-se «Bad Boys Running Wild», e um interlúdio mais intimista composto por «Delicate Dance» e «Send Me An Angel», antes do concerto atingir um dos seus pontos altos mais inevitáveis: a «Wind Of Change», recebida, como sempre em Lisboa, com um coro entusiástico de milhares de vozes.
A partir daí, o alinhamento seguiu por território mais familiar — «Loving You Sunday Morning», «I’m Leaving You», «New Vision», «Tease Me Please Me» e «Big City Nights» — antes do grupo fechar o corpo principal do espectáculo com «Still Loving You», outro dos hinos que dificilmente falta num show dos SCORPIONS. Para os encores, a banda guardou dois clássicos definitivos: «Blackout» e, a fechar de vez a noite, «Rock You Like A Hurricane», entoada por uma MEO Arena em peso.
No final, o que fica desta passagem dos SCORPIONS pela capital portuguesa é a imagem de uma banda que, colectivamente, continua a funcionar com um rigor e uma energia que poucos contemporâneos da sua geração conseguem igualar. Mas é também a constatação de que essa engrenagem tem, hoje, uma peça a exigir atenção redobrada. Os músicos provaram, mais uma vez, que sabem muito bem como envelhecer em palco sem perderem a intensidade. Resta saber quanto tempo mais a voz e as mãos de Klaus Meine aguentarão o ritmo que o resto da banda continua a impor, sem sinais de abrandar.











