RATOS

RATOS DE PORÃO @ LAV – Lisboa Ao Vivo | 01.08.2026 [reportagem]

O regresso dos RATOS DE PORÃO a Lisboa, com sala esgotada e um alinhamento que atravessou mais de 40 anos de carreira, confirmou toda a vitalidade de um dos nomes incontornáveis do hardcore sul-americano.

Há bandas que sobrevivem ao tempo por inércia. Os RATOS DE PORÃO não são uma delas. O concerto do passado Sábado, 1 de Agosto, no LAV – Lisboa Ao Vivo, que contou com lotação esgotada e um público entregue do início ao fim da actuação, foi antes a confirmação de que a formação paulista continua a operar com a mesma urgência que a fez nascer, em 1981, num Brasil ainda sob a ditadura militar.

Acompanhados pelos portugueses SIMBIOSE e pelos conterrâneos SUBALTERNOS, os RATOS DE PORÃO trouxeram a Lisboa um alinhamento que funcionou quase como um manual de história do hardcore brasileiro — dos temas mais recentes de «Necropolítica» aos clássicos que definiram o género há mais de três décadas.

Formados em São Paulo em plena efervescência de resistência cultural ao regime militar, os RATOS DE PORÃO destacaram-se desde os primeiros ensaios pela crueza sonora e por um discurso bastante frontal, e sem filtros, que rapidamente os transformou na das vozes mais contundente do punk brasileiro. Ao longo dos anos, a banda liderada por Jão foi incorporando a agressividade do thrash à urgência das origens, construindo um som próprio que ultrapassou fronteiras e conquistou reconhecimento internacional — um percurso raro para uma banda de hardcore latino-americana da sua geração.

O primeiro grande marco discográfico chegou corria o ano de 1984 com «Crucificados Pelo Sistema», um álbum gravado sem concessões técnicas ou comerciais que se tornaria uma pedra angular do punk e do hardcore brasileiros. A ética DIY que o define influenciou sucessivas gerações de músicos dentro e fora da América do Sul, e a presença do tema homónimo no alinhamento de Sábado — mais de quarenta anos após o seu lançamento — funcionou como lembrete de quão intacta permanece essa influência.

Já no final da década de 80, com «Brasil», a banda apresentou uma sonoridade mais estruturada e agressivo, aprofundada depois em «Anarkophobia», que consolidou a fusão entre hardcore e metal e expandiu de forma significativa a projecção europeia do grupo. Foi também essa capacidade de evoluir sonicamente sem nunca abdicar do discurso político que permitiu aos RATOS DE PORÃO atravessar as décadas de 1990 e 2000 com uma produção consistente, sempre ancorada no comentário social incisivo.

Editado a 13 de maio de 2023 pela Shinigami Records, «Necropolítica» sucedeu a «Século Sinistro», de 2014, quebrando uma pausa de quase uma década sem material inédito. O título do álbum remete directamente para o conceito cunhado em 2003 pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, e segundo o comunicado que acompanhou o lançamento, o LP reúne “uma série de críticas sociais que se centram especialmente” nesse termo — escolha que situa os RATOS DE PORÃO, mais uma vez, no cruzamento entre a música extrema e o pensamento político.

Ao vivo, os temas de «Necropolítica» dialogaram naturalmente com o repertório histórico da banda. O alinhamento do concerto de Sábado abriu com «Alerta Antifascista» e «Morte ao Rei», avançando depois por temas clássicos como «Igreja Universal», «Máquina Militar» e também «Testemunhas do Apocalipse» — uma sequência inicial que deixou bem claro, desde os primeiros minutos, qual sria o tom da noite. Sem grandes pausas, seguiram-se «Homem Inimigo do Homem», «Amazônia Nunca Mais» e «Farsa Nacionalista», reafirmando a ligação dos RATOS DE PORÃO a causas ambientais e de denúncia social que atravessam praticamente toda a sua discografia.

A segunda metade do alinhamento trouxe «Pedofilia Santa», «Expresso da Escravidão», «Colisão» e a velhinha «Descanse em Paz», intercaladas com «Paranoia Nuclear» e «Ascensão e Queda», antes de uma sequência mais visceral composta por «Beber até Morrer», «Morrer», «Sofrer» e a já incontornável «Crucificados Pelo Sistema», claro. A explosiva sequência composta por «Pobreza», «Caos», «Conflito Violento», «AIDS, Pop, Repressão» e «Crise Geral» fechou a noite com a mesma intensidade com que tinha começado, confirmando um alinhamento pensado tanto para celebrar o legado da banda como para reafirmar a sua actualidade.

A já mencionada presença dos SIMBIOSE e dos SUBALTERNOS no cartaz também não foi, note-se um detalhe menor. Serviu, isso sim, para reforçar ainda um pouco mais uma ligação já estabelecida entre a cena hardcore punk portuguesa e a sua congénere brasileira, que se tem consolidado ao longo de sucessivas passagens dos RATOS DE PORÃO pelo país. A sala esgotada do LAV confirmou que o interesse pela banda ultrapassa em muito a nostalgia de uma geração que a descobriu nos anos 80 ou 90 — e, de facto, há claramente renovação de público.

Esse dado é relevante sobretudo para pensar o estado da cena de música extrema em Portugal: concertos deste género, com bandas internacionais de relevo histórico, continuam a conseguir encher salas mesmo em pleno Verão, um período tradicionalmente mais difícil para a agenda de concertos alternativos. É também um sinal do trabalho continuado de promotores e casas de espectáculos que insistem em trazer ao nosso país nomes fundamentais do hardcore e do punk mundial, alimentando uma cena que, apesar da sua dimensão relativamente modesta, mantém um grau de fidelidade pouco comum.

Resultado: mais de quarenta anos depois da sua formação, os RATOS DE PORÃO continuam a operar como um grupo em estado de alerta permanente — e este concerto em Lisboa foi uma prova evidente disso. Entre os clássicos e os temas mais recentes, o que ficou mais claro foi a coerência de um discurso que, décadas depois de formulado, continua dolorosamente pertinente. Para os fãs portugueses, que voltaram a encher a sala, esta passagem confirmou não apenas a longevidade de uma das bandas mais influentes da música extrema sul-americana, mas também a saúde de uma cena nacional que continua a saber recebê-la à altura.