O baterista norte-americano NICK D’VIRGILIO, que tocou em «Calling All Stations» e hoje integra os BIG BIG TRAIN, actua hoje, terça-feira, dia 9 de Junho, em Lisboa com a ONE NIGHT WITH ORCHESTRA — um tributo sinfónico aos GENESIS, que promete ser um dos espectáculos do ano.
Há nomes que atravessam décadas de rock progressivo sem fazerem barulho sobre si próprios, mas que surgem, quase invariavelmente, nos momentos certos. Pois bem, Nick D’Virgilio é um desses casos. Um baterista de formação precoce — foi o pai que lhe ofereceu a primeira bateria quando tinha cinco anos, “um homem muito paciente“, diz ele com humor —, construiu uma carreira discreta mas impressionante, que passa pelos SPOCK’S BEARD, pelos MR. BIG, por uma passagem marcante pelos BIG BIG TRAIN e, num momento que define bem o seu estatuto, pela gravação de «Calling All Stations», o último álbum de estúdio dos GENESIS, em 1997.
Agora, Nick D’Virgilio chega a Lisboa com One Night with Orchestra, espectáculo que co-protagoniza com o baterista Martin Levac. Em palco, os dois vão dividir o seu espaço — e o palco rítmico — com a Orquestra Sinfónica de Lisboa, o Coro de Ópera de Setúbal e arranjos concebidos a partir de partituras da Sinfónica de Londres, tudo sob a batuta do maestro Stefano Sovrani.
O programa percorre os grandes clássicos dos GENESIS — com destaque para a interpretação integral de «Supper’s Ready» — e inclui aquilo que já se tornou um dos momentos mais aguardados da digressão: um duelo de baterias entre os dois músicos, celebração directa da energia e do virtuosismo que sempre caracterizaram o grupo.
Antes da estreia em Portugal, Nick D’Virgilio falou sobre o espectáculo, os compassos irregulares que definem o rock progressivo, a sessão de gravação mítica no estúdio dos GENESIS e os desafios de uma vida inteiramente dedicada à música.
Vamos directos ao assunto: o que podem esperar os fãs portugueses da One Night With Orchestra?
Muita música antiga dos Genesis — acho que a mais recente que tocamos é a «Undertow», do álbum «And Then There Were Three». Portanto, muito material lá de trás. Temos uma orquestra enorme e os arranjos soam realmente bonitos com esse estilo e esses instrumentos.
E depois há o factor humano: o próprio, Martin Levac — que é um artista de homenagem a Phil Collins de capacidade notável — e dois instrumentistas que vão partilhar o palco numa configuração pouco comum, com duas baterias em simultâneo. É divertido e uma óptima forma de ouvir estas canções num contexto destes.
Tiveram o cuidado de se focaram nas canções que melhor se prestavam a arranjos orquestrais quando escolheram o alinhamento?
Há canções que não têm orquestra — as mais rock, digamos assim. No entanto, a maioria é tocada com a orquestra completa. As que escolhemos prestam-se definitivamente a essa vibração, mas… As que são um pouco mais simples ou directas tocamos apenas como banda de rock.
Existe tal coisa como uma canção simples, no universo dos GENESIS?
Bem, num sentido mais simples… Sim, com certeza.
Nick, tu não és propriamente estranho a este universo. Estiveste nas gravações do álbum «Calling All Stations», em 1997. Como foi essa experiência?
Foi uma experiência incrível, algo que nunca esperei que acontecesse nem sequer nos meus sonhos mais selvagens. No estúdio, as coisas correram de forma normal, como uma sessão de gravação regular. Mas o facto de ser no estúdio dos Genesis, com o Tony Banks e o Mike Rutherford, e estar na sala de bateria do Phil Collins, a usar um dos kits dele… Foi de loucos.
Sentiste a magia nesse kit?
Foi muito fixe estar naquele estúdio. Ao sair da régie, o corredor estava forrado com os discos de platina dos até chegarmos à sala de bateria. A quantidade de música gravada ali deve ter sido incrível.
Foi intimidante passares por esse corredor e pensares que tinhas de fazer justiça a tudo aquilo?
Senti essa pressão durante um bocado, mas assim que começámos, foquei-me apenas em fazer música e a coisa acalmou rapidamente.
Qual é a canção mais traiçoeira de tocar nestes concertos com orquestra?
Todas têm o seu quê de dificuldade… E, para ser sincero, este é um trabalho um bocado estranho porque conheço estas músicas muito bem — vivo com elas desde miúdo. Acabei de fazer uma digressão com o Steve Hackett em Novembro do ano passado, por isso já tinha tocado muito estas canções. Ainda assim, há pontos de maior exigência.
A mais complicada é a «Supper’s Ready», na sobretudo na parte ‘Apocalypse in 9/8’. E há partes muito exigentes em «Firth of Fifth», garantindo que a secção dos solos de guitarra e teclado está bem apertada. Mas temos um excelente maestro e os músicos da banda de rock — que são italianos — são incríveis.
Há alguma canção que seja particularmente mais divertida de tocar, onde o público reaja mais?
Sim, acontece muito. O Martin é excelente a envolver o público; é um grande frontman. Mesmo num tema como «I Know What I Like», onde ele faz o solo de pandeireta, é muito divertido. E depois, quando tocamos algo grande como a «Firth Of Fifth», fazemos os mesmos fills que o Chester Thompson e o Phil Collins faziam na «Seconds Out».
Falaste em tempos compostos. Qual é o compasso mais estranho numa canção dos Genesis?
Eles fazem muito material em 7, por isso o compasso mais estranho… Provavelmente é essa parte em 9/8 na «Supper’s Ready». Felizmente não costumavam ir para coisas muito loucas como 13 ou 11 — ficam-se normalmente pelo mundo do 5, 7 e 9.
Precisas ensaiar muito para deixar essas estruturas sólidas?
Sem dúvida. Pratico o máximo que posso sozinho, toco por cima dos originais para garantir que as estruturas e os fills principais estão sólidos na minha cabeça. O Martin também ajuda a apontar coisas que podemos fazer juntos. Depois, é uma questão de tocar com os outros. Não temos muito tempo — teremos talvez dois ensaios com a orquestra aí em Portugal antes de subirmos ao palco. Por isso, todos praticam por sua conta, a orquestra faz o trabalho dela antes de chegarmos e depois juntamo-nos e… vamos fazer figas.
O que te atraiu para a bateria?
No início, não faço ideia. Limitava-me a bater em coisas. O meu pai comprou-me uma bateria quando eu tinha cinco anos — eraum homem muito paciente com o barulho em casa. O meu irmão e a minha irmã mais velha mostraram-me muita música, incluindo os Genesis, e eu simplesmente segui por aí.
Qual foi a primeira canção que conseguiste tocar do início ao fim?
Foi a «The Rover», dos Led Zeppelin, do «Physical Graffiti». O John Bonham era um dos meus bateristas favoritos. O meu irmão tocava guitarra numa banda de versões e essa era uma das músicas que tocavam. De alguma forma, foi a primeira que aprendi.
Que opinião tens sobre a possibilidade da IA substituir os músicos?
A tecnologia é incrível para aprender e ver as nossas bandas favoritas. A IA é estranha pela rapidez com que está a evoluir, mas não estou muito preocupado com essa possibilidade de substituir os músicos. Acho que as pessoas ainda vão querer ver e ouvir seres humanos a tocar. Mas é bizarro poderes escrever uma ideia e ela voltar como uma canção que soa razoavelmente bem.
Que conselho darias a um jovem que está agora a começar a tocar?
Aprende a amar o trabalho. Às vezes praticar pode ser secante, mas quando te dedicas a algo difícil e, finalmente, um dia a coisa flui, é uma sensação de satisfação enorme. E partilha o amor pela música com outras pessoas; sai à rua e toca com outros. É a melhor forma de aprender arranjos e perceber como a música funciona.
Nick, lançaste recentemente o «Woodcut» os BIG BIG TRAIN. Quais são os planos a seguir?
O disco saiu este ano, e é o nosso primeiro álbum conceptual. Sinto que os BIG BIG TRAIN são a minha banda — estou lá já desde 2007. Vamos fazer uma digressão pela Europa em Setembro e Outubro, mas infelizmente acho que não passamos por Portugal desta vez. Estamos a tentar crescer passo a passo, mas tudo depende dos orçamentos e da logística. É uma banda incrível e estou ansioso pelos concertos.
Sabes em quantos discos tocaste ao longo da tua carreira?
São já centenas. Tenho sido muito abençoado. Ser músico é uma luta, tens de estar sempre a forçar limites e a conhecer pessoas, mas já perdi a conta aos discos que gravei. Tem sido uma viagem muito divertida, e que me levou a todo o mundo.
Quando chega a hora da despedida, NICK D’VIRGILIO fá-lo com a mesma descontracção com que falou dos 9/8 dos GENESIS, das noites com os MR. BIG ou da bateria que o pai lhe ofereceu há décadas atrás. Há em si uma serenidade de quem já não precisa de provar nada — e que, talvez precisamente por isso, continua a ter tanto para dar. A One Night With Orchestra chega esta noite a Lisboa após uma estreia aclamada em Roma. Portanto, para os que cresceram com o «Supper’s Ready» ou o «Firth Of Fifth», a oportunidade de ouvir esses temas com uma orquestra e um coro é, a todos os títulos, uma raridade.





