NAPALM DEATH

NAPALM DEATH: «Utopia Banished», a ponte entre o passado e o futuro

Sem renegar as raízes grindcore nem o rumo mais death metal dos anos 90, o quarto álbum dos NAPALM DEATH marcou um momento decisivo de transição e abriu caminho para uma das fases mais criativas da banda britânica.

Havia qualquer coisa de insolúvel no problema que os NAPALM DEATH enfrentavam no início dos anos 90. Tinham inventado um género, ou pelo menos ajudado a codificá-lo de uma forma irreversível — o grindcore, aquela catedral de ruído comprimido e raiva política que os dois primeiros álbuns, «Scum» e «From Enslavement To Obliteration», tinham erguido com uma ferocidade adolescente e convicção total.

Depois, os NAPALM DEATH tinham surpreendido meio mundo ao virar-se para o death metal com o «Harmony Corruption», de 1990, e o EP «Mass Appeal Madness», de 1991, discos mais lentos, mais pesados, mais articulados — e, para alguns dos crentes da primeira hora, mais confortáveis do que deviam. O que fazer a seguir? As respostas chegaram em 1992 com «Utopia Banished», e não eram fáceis. Não eram simples. Não eram sequer particularmente agradáveis de descrever a alguém que não as ouvisse. Mas eram, como o tempo acabaria por confirmar, exactamente o passo certo.

Há discos de transição que se limitam a ligar dois pontos num mapa. Mas o «Utopia Banished» não é um desses. É um álbum que recusa a linearidade, que insiste em habitar dois momentos em simultâneo — o passado grindcore e o presente death metal — sem se render por completo a nenhum deles. O resultado é algo que escapa às categorias com uma naturalidade quase a roçar o irritante, como se, a dada altura, os NAPALM DEATH tivessem decidido, colectivamente, que os estilos eram problemas de outras pessoas.

Formalmente, o que se ouve é uma síntese: as explosões de blasting que definiram o «Scum» reaparecem aqui com nova violência, mas enquadradas por uma produção que Colin Richardson — então no auge da sua influência na cena underground extrema britânica — trabalhou com um cuidado quase paradoxal. Há um lustro sonoro nestes 40 e tal minutos que os álbuns fundadores nunca teriam tolerado. Estas canções constroem-se, desfazem-se, viram de rumo sem aviso. A contenção e o caos coexistem nesta versão dos NAPALM DEATH.

Poucos temas ultrapassam os três minutos. A brevidade é uma arma, não uma limitação — uma herança directa do grindcore que a banda souber manter sem que parecesse regressismo nostálgico. Mas dentro dessa brevidade há arquitectura, há uma vontade de compor que o «Scum» não ambicionava sequer.

Verdade seja dita, não se pode discutir o «Utopia Banished» sem falar de Danny Herrera, o baterista que estreava então em disco com os NAPALM DEATH. A sua chegada não foi apenas uma substituição — foi uma reconfiguração da velocidade como conceito. Herrera toca com uma precisão mecânica que torna os momentos de blast ainda mais desorientadores: não há aqui imprecisão para suavizar o impacto, não há humanidade acidental para criar distância. O homem é cirúrgico no sentido mais agressivo da palavra.

Aliás, a banda que gravou o «Utopia Banished» — com “Barney” Greenway na voz, Shane Embury no baixo, Mitch Harris e Jesse Pintado nas guitarras — era por fim uma formação estabilizada que começava a entender o seu próprio alcance e balanço. E esse entendimento ouve-se nos temas: há aqui uma dose de confiança que o «Harmony Corruption», LP de afirmação que era, não tinha ainda em plena medida.

Seria desonesto fingir que «Utopia Banished» é um disco homogeneamente essencial. A maioria das suas faixas funciona como fragmentos de uma estética ainda em construção: poderosas no conjunto, menos memoráveis isoladas. «I Abstain» e «The World Keeps Turning» destacam-se com alguma naturalidade — têm ganchos, têm momentos que ficam, têm uma identidade própria dentro do turbilhão. As restantes tendem a fundir-se numa muralha de intenção coerente, mas de difícil individualização.

E sim, essa é uma fragilidade real, e dissimulá-la seria um desserviço. Este é um daqueles álbuns que tem som antes de ter canções, e isso é tanto uma virtude — essa coesão estética é admirável — como uma limitação que os próprios NAPALM DEATH viriam a superar nos anos seguintes.

Nas décadas que passaram entretanto, a História tratou o «Utopia Banished» como exactamente aquilo que efectivamente é: um momento de passagem entre dois estados mais consolidados. O «Harmony Corruption» já tinha estabelecido a credibilidade death metal dos NAPALM DEATH; o «Fear Emptiness Despair», lançado em 1994, viria a ser o grande salto — o disco em que a síntese se tornaria plenamente articulada, em que as canções cresceriam à altura da ambição sonora.

Por tudo isso, o «Utopia Banished» existe no intervalo, e é precisamente aí que reside o seu valor. Não é o melhor álbum da banda. Não tem as melhores canções dos NAPALM DEATH. Mas tem a coragem de não ser nenhuma coisa definida, de habitar a tensão entre o que foi e o que estava ainda por ser. Em 92, isso era suficientemente raro para merecer atenção. Em 2026, com trinta e quatro anos de perspectiva, é suficientemente honesto para merecer reconhecimento.