Suspeitas de violência e abusos sexuais atingiram organização do MORTE AO SILÊNCIO a poucos dias do início do festival que traria os brasileiros RATOS DE PORÃO de volta a Portugal.
O Morte Ao Silêncio Fest, que se tem transformado paulatinamente num dos mais relevantes eventos ligados à cultura e ideologia punk em Portugal, anunciou sumariamente o cancelamento da sua quinta edição. A decisão surgiu na sequência de acusações que envolvem elementos próximos da organização, num caso que a estrutura do festival rejeita de forma categórica. Nascido e criado sob o signo do do it yourself, ao longo dos anos o festival criou uma identidade assente na descentralização cultural, levando a sua programação para um contexto rural e afirmando-se, desde a primeira hora, como um espaço seguro e inclusivo.
Essa aposta inicial traduziu-se num crescimento bastante sustentado, tanto na dimensão do público como na ambição da própria programação, e um boa prova disso era o cartaz anunciado para a edição de 2026, que estava marcada para os dias 30, 31 de Julho e 1 de Agosto, em Válega, Ovar, e incluía tanto os finlandeses ROTTEN SOUND como os brasileiros RATOS DE PORÃO, um nome incontornável do hardcore punk e do crossover sul-americano, cuja presença confirmava a crescente capacidade do festival para atrair nomes de referência internacional.
Num comunicado divulgado nas redes sociais, a organização do Morte Ao Silêncio Fest foi clara quanto aos valores que sempre nortearam o evento. “O festival sempre se pautou por não tolerar qualquer forma de violência ou apelo ao ódio, demarcando uma posição de respeito e integração de todos“, pode ler-se na nota, que sublinha tratar-se de um princípio estrutural, e não de um mero discurso de circunstância: “Esta postura integra a espinha dorsal de valores do evento e dos seus organizadores e demais elementos de suporte.“
É precisamente à luz destes valores que a organização diz sentir-se agora obrigada a agir perante as suspeitas entretanto reveladas, ainda que negando qualquer ligação directa da estrutura do Morte Ao Silêncio Fest aos factos em causa. A nota rejeita também “o envolvimento de qualquer elemento da organização nas acusações partilhadas“, ao mesmo tempo que condena “qualquer acto de violência similar“. Perante a gravidade do momento, e sem que exista ainda um esclarecimento cabal da situação, a organização optou pela suspensão total do evento, remetendo uma decisão definitiva para depois do necessário escrutínio legal.
A decisão, note-se, surge não como admissão de culpa, mas como medida de precaução perante um caso que, para já, permanece ainda por clarificar junto das autoridades competentes. “Infelizmente, dado o panorama actual e até ao esclarecimento total desta situação com o escrutínio legal necessário, a organização sente-se na obrigação do cancelamento do evento“, referem ainda os responsáveis pelo Morte Ao Silêncio Fest.
Quanto à questão prática que provavelmente mais preocupa o público, a organização garante que quem já tinha adquirido bilhete não terá de tomar qualquer diligência adicional. A Seetickets, plataforma responsável pela venda de ingressos para a edição deste ano do Morte Ao Silêncio Fest, procederá ao reembolso automático dos valores pagos, dentro dos prazos legalmente estabelecidos.
Como é óbvio, o caso deixa em suspenso o futuro do Morte Ao Silêncio Fest, um projecto que, ano após ano, se tinha vindo a afirmar como um dos espaços mais coerentes e comprometidos da cena punk portuguesa — e cujo destino dependerá, agora, do desfecho de um processo que a própria organização diz querer ver esclarecido o quanto antes.



