MIKE BROWNING, o homem que deu ao death metal uma dimensão de ficção científica, partiu aos 62 anos, deixando um legado que atravessa duas bandas incontornáveis da Florida.
O baterista e vocalista Mike Browning faleceu aos 62 anos. A notícia foi confirmada ontem, segunda-feira, dia 13 de julho, pela editora Profound Lore Records, responsável pela edição dos dois álbuns mais recentes da sua banda, os NOCTURNUS AD. Em comunicado publicado nas redes sociais, Chris Bruni, o responsável pela editora, escreveu: “Descansa em paz, lenda do death metal, padrinho do death metal de ficção científica, Mike Browning, dos NOCTURNUS/NOCTURNUS AD. Viagem para lá do portal, rumo ao vazio exterior”.
Também os MORBID ANGEL, banda pela qual Mike Browning passou nos seus primeiros anos, lhe prestaram homenagem no Instagram, agradecendo o seu contributo para a génese do grupo e endereçando condolências à família, com destaque para a filha do músico. Antes de se tornar um nome maior do death metal progressivo, Browning também foi baterista dos MORBID ANGEL na altura em que a banda gravou aquele que deveria ter sido o seu álbum de estreia, «Abominations Of Desolation». Gravado em 1986, o disco só viria a ser editado em 1991, após anos de circulação informal entre coleccionadores e entusiastas do tape trading.
Numa entrevista de 2019 à Bardo Methodology, Browning recordou as circunstâncias conturbadas em torno do álbum, na altura destinado à editora Goreque Records, de David Vincent. Segundo o músico, “assinei um contrato discográfico com a Goreque e depois gravámos um álbum completo num estúdio a sério”, acrescentando que existem declarações do próprio Trey Azagthoth, guitarrista e líder da banda, a confirmar que o «Abominations Of Desolation» estava destinado a ser editado como o primeiro álbum dos MORBID ANGEL.
O músico relatou ainda o desfecho conturbado que precipitou a sua saída da formação: “Isso aconteceu porque apanhei o Trey com a minha namorada e lhe dei uma tareia — o que levou à divisão da banda — e ele decidiu que já não quria editar o álbum… Antes disso, o «Abominations Of Desolation» já tinha sido todo gravado e ia ser apresentado como sendo o primeiro LP dos MORBID ANGEL. Todos esses comentários sobre não ter qualidade técnica suficiente só surgiram depois de eu sair”.
Quanto à edição de 1991 do álbum, lançada através da Earache Records, Mike Browning confessou surpresa pelo facto do disco ter finalmente visto a luz do dia através de um canal oficial: “Nunca pensei que isso fosse acontecer, já que o álbum tinha sido pirateado até à exaustão. Sabia que, se alguém quisesse ouvi-lo, conseguiria facilmente encontrar a gravação em qualquer lista de tape traders“.
O músico recordou ainda o momento em que percebeu, por mero acaso, que o disco tinha sido editado sem o seu conhecimento, ouvindo-o tocar no carro de um amigo junto a uma bomba de gasolina. Segundo contou, a decisão de não creditar ninguém nominalmente no encarte terá partido do próprio David Vincent, sendo o disco tratado, na prática, “como o bootleg de um bootleg”.
Em 1987, o músico deixou então os MORBID ANGEL e fundou os NOCTURNUS, banda que viria a definir para sempre a sua carreira. A formação original reunia Browning aos guitarristas Vincent Crowley e Gino Marino e ao baixista Richard Bateman, tendo gravado nesse mesmo ano uma demo homónima de cariz ocultista e cru, ainda distante da identidade que a banda haveria de assumir nos anos seguintes.
No final da década de 1980, a banda reinventou-se, incorporando teclados e uma estética futurista que os colocaria na vanguarda do death metal com temáticas de ficção científica. Browning assumiu a bateria e a voz no álbum «The Key», um dos discos mais influentes e singulares do género, e permaneceu apenas como baterista em «Thresholds», antes de ser afastado da banda em 1993.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, o músico esteve também envolvido noutros projectos relevantes da cena de death metal da Florida, nomeadamente os INCUBUS e os ACHERON. Em 2008, editou um álbum a solo sob o nome MIKE BROWNING’S INNER WORKINGS, intitulado «Trancemissions», através da editora Pharmafabrik Recordings. Mais recentemente, Browning tinha retomado o nome e o legado dos NOCTURNUS através dos NOCTURNUS AD, projecto com o qual editou o LP de estreia «Paradox», em 2019, seguido de «Unicursal», em 2024, ambos através da Profound Lore Records.
Mike Browning deixa uma filha, nascida em 2007. A sua morte encerra o percurso de uma das figuras mais singulares e influentes do death metal norte-americano, responsável por moldar tanto o som primitivo e brutal dos MORBID ANGEL como toda uma vertente cósmica e conceptual que os NOCTURNUS viriam a introduzir no género.


