Editado originalmente a 4 de Junho de 1996, três décadas depois, o controverso «Load» continua a ser visto como uma fuga temporária ao ADN dos METALLICA — e como uma prova de que até as bandas mais fortes e competentes podem perder-se à procura de um som que nunca foi seu.
Havia qualquer coisa de inevitável nesta viragem. Bandas que reescrevem as regras durante uma década acabam, invariavelmente, por querer habitar um mundo mais largo — ou simplesmente mais confortável. O que surpreende, no caso dos METALLICA, não é que tenham mudado. É o quanto a mudança os tornou menores.
Editado a 4 de Junho de 1996, cinco anos depois do colosso autointitulado que a imprensa mundial rapidamente baptizou como The Black Album, «Load» é um documento de maturação inquieta. Um registo em que uma das bandas mais decisivas do metal procura expandir o seu universo sonoro — e acaba por se encontrar num espaço mais estreito do que alguma vez ocupara.
Para percebermos o que o «Load» representa, é preciso metermo-nos na máquina do tempo e regressar a 1991. Esse disco monolítico, produzido por Bob Rock, foi simultaneamente a maior vitória comercial e a primeira grande ruptura estética dos METALLICA. A crueza técnica do «Master Of Puppets» e do «…And Justice For All» deu lugar a uma produção polida, a riffs mais directos, a uma acessibilidade calculada. Foi controverso. E foi enorme também. Vendeu mais de 16 milhões de cópias só nos Estados Unidos.
Com esse capital, a banda podia ter ido em qualquer direcção. Escolheu ir para sul — geograficamente, culturalmente, musicalmente.
O que define o «Load» não é ausência de ambição. É a ausência de tensão. Bob Rock volta a sentar-se na cadeira de produtor, e o resultado é um disco polido até à frieza. As assinaturas rítmicas imprevisíveis que tornavam os METALLICA tão desconcertantes desaparecem quase por completo. Os riffs vertiginosos que pareciam ameaçar a própria estrutura das canções são substituídos por figuras médias, ainda pesadas em algumas ocasiões, mas sobretudo domesticadas.
Em seu lugar entra uma miscigenação que, na teoria, deveria funcionar: rock sulista, country/rock, power ballads, ecos do rock de arena dos anos 70. São influências legítimas, com história e corpo. O problema é que os METALLICA as trabalham como quem experimenta factos alheios — com muito cuidado, mas sem à-vontade.
Nesse sentido, o meio-tempo torna-se a unidade de medida deste álbum. Mais de metade das canções assenta nesse andamento, num groove que deveria ser contagiante mas que raramente consegue libertar-se da sua própria contenção. A banda soa apertada, disciplinada, segura. Quando o que a música exigiria era exactamente o contrário: solta, instintiva, capaz de tropeçar.
Verdade seja dita, há um problema que nenhuma produção resolve: a duração. O «Load» estende-se por quase 80 minutos, e essa extensão torna-se progressivamente reveladora. Quando uma banda regressa repetidamente ao mesmo andamento, à mesma dinâmica, à mesma temperatura emocional — sem as variações de textura ou intensidade que tornariam a viagem suportável —, a atenção começa a erodir-se lentamente. Não por falta de ofício. Por ausência de surpresa.
Os METALLICA, até ali, tinham sido sempre uma banda de contrastes: a velocidade contra a brutalidade, a complexidade contra o impacto físico, a frieza técnica contra a raiva visceral. No «Load», esses contrastes esbaterem-se de forma significativa. O que fica é uma competência vastíssima ao serviço de uma visão que parece, em muitos momentos, ter receio de si própria.
Não é surpreendente que uma banda evolua, que os seus elementos se cansem das próprias convenções, que a maturidade traga consigo uma certa quietude. É um arco que o rock’n’roll conhece bem — de Neil Young aos THE CURE, dos SOUNDGARDEN a Nick Cave. E, feitas as contas, o problema não é a mudança em si. O problema é que o «Load» não soa a libertação, mas a compromisso. Não soa a descoberta, mas sim a consolidação de uma posição mais segura, mais palatável, menos exposta.
Há até algo de melancólico nesta constatação. Os METALLICA dos anos 80 eram uma banda perigosa — tecnicamente, esteticamente, culturalmente. Feitas todas as contas, os METALLICA do «Load» são uma banda muito competente a fazer coisas que outras bandas já fizeram melhor antes. E isso, para quem acompanhou o percurso do grupo desde o «Kill ‘Em All», não passa sem deixar marca.
Com o distanciamento que três décadas permitem, o «Load» é hoje um disco que merece ser ouvido sem o peso da expectativa que carregou na altura em que foi originalmente lançado. Há momentos genuínos — faixas que, isoladas do contexto, revelam uma banda capaz de escrever rock consistente e de assinar produção de alto nível. Mas como declaração de intenções, como passo seguinte de uma das carreiras mais extraordinárias do metal, continua a ficar aquém.
De resto, a história acabaria por confirmar o que muitos sentiram em 1996: o «Load» não foi um ponto de chegada, mas um desvio. Os METALLICA regressariam, anos depois, a territórios mais agressivos. Mas algo ficou, nessa travessia pelo asfalto do rock americano — uma certa vulnerabilidade, talvez, a prova de que mesmo as bandas mais fortes e competentes podem perder-se à procura de um som que nunca foi verdadeiramente seu.





