«Songs To Moon», o novo álbum dos STONED JESUS, mostra que nem tudo o que vem rotulado como “stoner” soa ao que se espera.
São três da manhã, o cachimbo da paz anda perdido algures entre o fundo de uma gaveta e as minhas melhores intenções, e eu, ali ao Deus dará, ponho «Songs To Moon» a tocar convencido de que vou passar o resto da madrugada num torpor denso, tipo lava a escorrer devagar. A banda chama-se STONED JESUS, e eu já tinha preparado o chão da sala para receber 40 minutos de um fumo setentista. A garrafa de vinho está ao meu lado, pronta, como está sempre, para a função.
Só que «Under The Skin» começa a soar pelas coluna e eu levanto-me de repelão, copo quase a cair, porque aquilo não soa nada ao que esperava — soa a GOJIRA moderno fora de controlo, pesado e preciso como uma machadada. Fico ali, de pé, confuso, a olhar para a garrafa como se ela me tivesse mentido sobre o que ia encontrar esta noite.
Sento-me outra vez, desta vez com mais cautela, porque percebo rapidamente que isto não vai ser a viagem lisérgica previsível que me prometeram. Os STONED JESUS não escolheram morrer na praia dos anos 70 — em vez disso, misturam metal progressivo, rock alternativo, pós-rock e uns interlúdios acústicos tão bem talhados que me apanham completamente desprevenido, copo parado a meio caminho da boca outra vez, coisa que já é um hábito nestas crónicas.
Há ali uma espécie de groove refinado que vai e vem ao longo do disco, e sinto-me obrigado a admitir, com a humildade líquida de quem já bebeu demasiado para discutir, que há mais OPETH nisto do que eu alguma vez esperaria de uma banda com este nome… E sim, lá no fundo, por entre as camadas todas, ainda se ouve o fantasma dos LED ZEPPELIN e dos BLACK SABBATH, mas é um fantasma discreto, educado, que não bate à porta a exigir atenção.
Chega «Velvet», a segunda faixa, e finalmente sinto o stoner que me prometeram — lamacento, em tempo médio, com repetições que me fazem balançar a cabeça devagar, como um pêndulo bêbado. Mas mal me habituo a esse conforto, a canção foge-me outra vez pelas mãos em direcção a excursões progressivas e psicadélicas, e eu já nem sei muito bem se estou a ouvir rock pesado ou se caí dentro de um sonho mal editado.
«Jackal» é a faixa que me obriga a pousar o copo de vez. Há ali um monólogo que se transforma em qualquer coisa parecida com rap tremolado, vibrações que me lembram os CALIGULA’S HORSE, e começo a questionar seriamente se ainda estou capaz de avaliar música com algum rigor ou se passei para o território puro da alucinação induzida por vinho barato. O vizinho do terceiro direito bate na parede. Não sei se é por causa do volume a que os STONED JESUS estão a tocar ou porque sentiu, telepaticamente, a minha confusão existencial.
«Window In My Room» traz ecos deliciosos de LED ZEPPELIN e PINK FLOYD, discretos mas inconfundíveis, e eu já nem tento resistir. Depois chega «Syzygy», o primeiro instrumental da carreira da banda, e esse, esse apanha-me mesmo desprevenido — um groove tranquilo, um fluxo tão bem construído que fico ali, sentado no chão a olhar para a aparelhagem, sem vinho na mão porque me esqueci completamente a meio do copo, coisa que nunca me acontece.
Lisboa lá fora continua em silêncio, alheia a esta pequena crise de expectativas que estou a atravessar. Eu, que vim à procura de uma réplica barulhenta e cheirosa dos anos 70, encontro em vez disso uma banda teimosa, com ideias bem próprias sobre direção estilística, que recusa dar-me exactamente aquilo que eu, ingenuamente, vim buscar.
E no fim, já de madrugada avançada, acabo por agradecer isso mesmo aos STONED JESUS — por não terem feito o que eu esperava. É raro uma noite destas terminar com gratidão em vez de ressaca antecipada. Mas aqui estou eu, sóbrio o suficiente para perceber que fui surpreendido, e bêbado o suficiente para não me importar nada com isso.

Nota: este texto é um exercício estilístico de jornalismo gonzo, não é uma crítica factual ao novo álbum dos STONED JESUS.





