“Para muita gente, é um disco polémico, mas eu adoro isso”, explica MAX CAVALERA.
Numa conversa com o programa radiofónico Wired In The Empire, da estação norte-americana 96.7 KCAL-FM, Max Cavalera revisitou a sua relação de longa data com os METALLICA, aproveitando o pretexto do 30.º aniversário do «Black Album» para recuar ainda mais no tempo, até à infância no Brasil.
Fundador dos SEPULTURA e hoje à frente de projectos como os SOULFLY, os CAVALERA CONSPIRACY, os KILLER BE KILLED e os GO AHEAD AND DIE, o músico é uma das vozes mais reconhecíveis do metal extremo mundial. Ainda assim, a sua ligação aos METALLICA remonta a um tempo muito anterior à consagração internacional da banda de São Francisco, e tem, garante, uma história curiosa por detrás.
“Quando era miúdo, tinha o cabelo comprido e o meu primo estava sempre a dizer-me para que o cortasse, para me tornar um cidadão ‘comum’, dizia ele”, recordou Max, traçando o cenário que o levaria a um dos primeiros grandes marcos da sua educação musical. Perante a insistência do familiar, surgiu uma proposta que qualquer adolescente fã de metal dificilmente recusaria. “A dada altura, ofereceu-se para me comprar qualquer disco importado que eu quisesse se cortasse o cabelo. Escolhi o «Ride The Lightning» e cortei o cabelo, depois deixei-o crescer outra vez e ganhei um disco incrível”, contou, entre a ironia e a nostalgia.
O pormenor do disco “importado” não é despiciendo. No Brasil dos anos 80, aceder a edições internacionais de heavy metal era um exercício de paciência e, muitas vezes, de sorte: os álbuns chegavam através de lojas especializadas, redes informais de troca entre fãs ou viagens ao estrangeiro, num contexto de isolamento cultural ainda marcado pelos resquícios da ditadura militar. Foi precisamente nesse ambiente, em Belo Horizonte, que Max e o irmão Igor Cavalera fundariam, em 1984, os SEPULTURA — a banda que se tornaria a face mais internacional do metal brasileiro.
A cidade mineira transformou-se, ao longo da década de 1980, num dos epicentros mundiais do thrash e do death metal, com os irmãos Cavalera a marcarem uma posição ao lado de nomes como SARCÓFAGO, OVERDOSE, CHAKAL, HOLOCAUSTO e MUTILATOR. Muito deste movimento deve-se à Cogumelo Records, editora e loja de discos que se tornaria sinónimo da cena underground nacional e responsável por lançar várias das bandas que moldaram o som extremo brasileiro.
Foi nesse contexto de precariedade técnica, gravações rudimentares e uma postura de desafio permanente que os SEPULTURA editaram os seus primeiros trabalhos, entre eles o «Bestial Devastation», de 1985, em split com os conterrâneos OVERDOSE, e também o «Morbid Visions», de 1986. O salto de maturidade viria com o «Schizophrenia», de 1987, gravado ainda em Belo Horizonte e editado pela Cogumelo no Brasil e pela Roadrunner Records no mercado internacional — um disco que consolidaria a banda como força real dentro do panorama do thrash e do death metal.
O verdadeiro ponto de viragem, contudo, chegaria com «Beneath The Remains», de 1989, gravado no Rio de Janeiro com o produtor Scott Burns, nome de referência do death metal da Florida, e que abriria as portas da banda à Europa e aos Estados Unidos. É nesse percurso de afirmação internacional, construído a partir de um país onde o acesso à cultura metal era escasso e trabalhoso, que se compreende o peso simbólico de um LP importado como o «Ride The Lightning» na formação musical de Max Cavalera.
Apesar de a carreira de Max Cavalera estar historicamente associada a sonoridades mais cruas e extremas, o músico não esconde a admiração pela banda norte-americana, nem o peso que esta teve na formação sonora dos SEPULTURA. “Sim, sempre adorei, e continuo a adorar, os METALLICA. Foram uma grande influência nos primeiros discos dos SEPULTURA. É bastante fácil ouvir a influência do «…And Justice For All» e do «Garage Days», por exemplo, no que fizemos naquela época”, afirmou o músico.
Questionado especificamente sobre o disco que assinalava então 30 anos de existência, o Cavalera mais velho recuou à primeira escuta. “Lembro-me bem de quando ouvi pela primeira vez o «The Black Album». A primeira coisa que se destacou foi logo a produção — é um álbum incrível e bem produzido, que tem algumas músicas realmente fantásticas. Para muita gente, é um disco polémico, mas eu adoro isso”, declarou, sem hesitações.
O disco homónimo dos METALLICA, editado a 12 de Agosto de 1991 e conhecido universalmente como «The Black Album», marcou uma viragem sonora significativa em relação aos quatro álbuns anteriores, substituindo o thrash veloz e técnico por uma sonoridade mais lenta, pesada e refinada. O disco foi recebido com ampla aclamação da crítica e tornou-se o álbum mais vendido da carreira da banda, estreando no topo das tabelas de dez países e passando quatro semanas consecutivas no primeiro lugar da Billboard 200 — a primeira vez que os METALLICA alcançaram essa posição nos Estados Unidos.
Os números, três décadas depois, continuam a ser impressionantes. Só nos Estados Unidos, o disco já ultrapassou a marca das 20 milhões de cópias vendidas, um valor que lhe garantiu, em 2025, a sua vigésima certificação de platina pela RIAA. Mundialmente, estima-se que as vendas se situem entre 27 e 31 milhões de exemplares. O álbum permaneceu ainda 550 semanas não consecutivas no Top 200 da Billboard, um feito conseguido apenas por mais três outros discos na história norte-americana: «The Dark Side Of The Moon», dos Pink Floyd, «Legend», dos Bob Marley And The Wailers, e a colectânea «Greatest Hits», dos Journey.
Este sucesso comercial, no entanto, nunca esteve isento de controvérsia entre os fãs da primeira hora. A opção por uma produção mais polida, entregue a Bob Rock, e por composições mais curtas e directas, foi lida por parte da comunidade thrash como um afastamento das raízes que tinham definido discos como «Master Of Puppets» ou «…And Justice For All». Para Max Cavalera, essa leitura não diminui o valor artístico do disco — pelo contrário, é precisamente aí que reside o seu interesse.
“Acho que há óptimas canções ali. É um pouco diferente dos primeiros trabalhos, mas isso faz parte da vida. Todos os músicos entendem que as bandas mudam e isso faz parte do seu crescimento, e eles fizeram isso de uma forma que não deixou ninguém indiferente“, concluiu Max Cavalera.
A leitura de Max ganha peso quando se olha para o seu próprio percurso. Também os SEPULTURA atravessaram, ao longo da carreira, transformações sonoras profundas — do death/thrash cru dos primeiros discos ao groove tribal de «Roots» —, decisões que, tal como aconteceu com os METALLICA, dividiram públicos sem nunca comprometer a relevância histórica da banda. É talvez por reconhecer esse mesmo processo em espelho que Max Cavalera consegue falar do «The Black Album» sem aquelas reservas que ainda hoje persistem entre parte da comunidade metal — e reafirmar, mais de três décadas volvidas, uma admiração que atravessa géneros, gerações e um oceano de distância entre Belo Horizonte e São Francisco.


