Também conhecidos como os fundadores do death metal colombiano, os MASACRE sobem ao palco do M.Ou.Co., no Porto, a 23 de Julho.
Trinta e oito anos depois da sua formação em Medellín, na Colômbia, os MASACRE vão finalmente actuar em em solo nacional. O concerto está marcado quinta-feira, dia 23 de Julho, no JAM – M.Ou.Co., localizado no Porto, e assinala a estreia por cá de uma das bandas mais determinantes na consolidação do death metal latino-americano. A data ganha ainda um peso adicional por via do registo documental que a acompanha: o espectáculo será gravado, presumivelmente por Jaime Gomez Arellano, e filmado com vista a uma edição oficial posterior.
Para compreender a relevância dos MASACRE é preciso recuar ao final dos anos 80, quando o death metal ainda procurava consolidar-se enquanto género autónomo. Enquanto Tampa e Estocolmo construíam os seus próprios cânones sonoros, várias cenas latino-americanas — no Brasil, no Chile, no México e na Colômbia — desenvolviam abordagens próprias, moldadas tanto pela escassez de recursos como pela intensidade dos contextos urbanos em que nasciam.
A Colômbia ocupa, nesse mapa, um lugar particular. A cena extrema local emergiu num período de instabilidade social e de violência estrutural, mas também de circulação limitada de gravações e informação, factores que geraram uma estética menos codificada e mais híbrida do que aquela que se consolidava noutras latitudes. O death metal colombiano dessa primeira fase organiza-se menos em torno da velocidade ou da técnica e mais em torno da atmosfera, da densidade e de uma relação quase simbólica com o peso sonoro.
É nesse contexto que nascem os MASACRE, em 1988, em Medellín. Ao contrário de outras bandas latino-americanas que rapidamente se alinharam com modelos estrangeiros já definidos, os MASACRE cultivaram uma identidade relativamente independente dessas ortodoxias. A música da banda reflecte essa posição: um death metal estruturado, mas com uma dimensão ritual, quase xamânica, em que a agressividade não se esgota na componente física, estendendo-se também ao plano espacial e narrativo.
Ao longo da sua discografia, e em particular nos álbuns «Reqviem» e «Sacro», os MASACRE cristalizaram uma linguagem própria dentro do death metal. Não se tratava de inovação técnica ou formal, mas de persistência estilística num território onde muitas bandas contemporâneas desapareceram, mudaram de identidade ou migraram para outras linguagens. Essa continuidade constitui, em si mesma, um dos elementos mais relevantes da posição histórica que a banda ocupa hoje.
Enquanto o death metal dos anos 90 se tornava rapidamente codificado — seja pela precisão sueca, seja pela complexidade técnica norte-americana —, a América Latina manteve durante mais tempo uma margem de indeterminação estética. E estes MASACRE situam-se precisamente nessa margem: não como réplica nem como derivação de modelos alheios, mas como expressão localizada de um género em expansão global. Uma banda que manteve sempre uma acutilância social nas letras, desde as origens, quando dava forma ao sofrimento provocado pela violência do narcotráfico na Colômbia.
O alinhamento anunciado para o Porto, focado precisamente nesses dois álbuns, reforça essa leitura histórica, sublinhando a fase em que os MASACRE consolidaram a identidade mais reconhecível dentro do death metal latino-americano. Por tudo isso, esta chegada tardia dos MASACRE a Portugal, quase quatro décadas após a formação da banda, não deve ser lida apenas como a estreia tardia de um projecto num novo mercado. Trata-se, antes, da reactivação de um circuito histórico que, durante décadas, operou fora dos centros mais visíveis do metal extremo — um percurso que só agora encontra espaço num dos palcos underground de referência no país.
O cartaz da noite inclui ainda os REPUGNATOR e um DJ set de Fernando Ribeiro, dos MOONSPELL, que completam o enquadramento local sem alterar a natureza essencial do acontecimento: o encontro entre temporalidades distintas dentro do mesmo espectro extremo. As portas do espaço abrem às 17:00, com acesso à área exterior, alargando o concerto a um encontro prolongado de música, convívio e cultura underground antes do arranque do alinhamento principal. Os bilhetes estão à venda através da plataforma Masqueticket, com os primeiros 100 a serem vendidos a 18 euros; a partir daí, o preço geral fixa-se nos 23 euros.



