Sete anos depois do último disco, os veteranos MADBALL provam que a autenticidade não tem prazo de validade — «Not Your Kingdom» é o som de uma banda que nunca deixou de saber quem é.
Imaginem este cenário: de um lado, bandas que se limitam a existir dentro de um género; do outro, as bandas que o definem. Pois bem, numa qualquer wall of death desta vida, os MADBALL estariam inequivocamente deste lado de cá. Ao longo de mais de três décadas, o grupo nova-iorquino tem sido sinónimo de uma forma de punk hardcore tão física quanto ideológica, construída sobre certezas que resistiram a modas, dissidências internas e à erosão natural do tempo. Com «Not Your Kingdom», o seu décimo LP de originais e o primeiro em sete anos, os MADBALL não reinventam nada — e é precisamente essa recusa em ceder que torna o disco tão relevante.
A génese dos MADBALL está indissociavelmente ligada aos AGNOSTIC FRONT, banda de onde nasceram enquanto projecto paralelo antes de se tornarem uma força autónoma e, para muitos, ainda mais influente. Sob a liderança de Freddie Cricien, que cresceu literalmente dentro da banda desde criança até se tornar um dos vocalistas mais reconhecíveis do género, os MADBALL consolidaram um som que viria a ser matriz para tudo o que se convencionou chamar de hardcore tough-guy ou beatdown. Poucas bandas actuais dentro deste espectro sonoro conseguem reclamar total independência da sua influência.
Do álbum de estreia, «Set It Off», até à contundência de «For The Cause», editado em 2018, os MADBALL construíram uma carreira sem quebras de rumo, mesmo quando a opinião sobre qual seria o seu LP mais essencial ainda permanece dividida entre gerações de fãs. É precisamente essa constância — essa recusa obstinada em se dissolverem em tendências passageiras — que faz de cada novo lançamento da banda um acontecimento dentro da cena.
«Not Your Kingdom» não perde tempo a justificar-se. Com uma duração compacta de cerca de trinta minutos, o álbum divide-se essencialmente entre dois territórios: o beatdown mais musculado e denso, quase de betão armado, e um punk rock mais selvagem e visceral. É um equilíbrio que os MADBALL dominam desde sempre, mas que aqui surge particularmente afiado.
O tema de abertura, «Tethered», estabelece imediatamente o tom: uma intensidade cortante, construída para provocar um caos em contexto de concerto. Já «Flammable» funciona quase como uma emboscada sonora, com apenas 59 segundos de duração e uma urgência quase incendiária. O single «Rebel Kids», por seu lado, assume-se como um hino ao hardcore punk mais desalinhado do ano, celebrando uma existência vivida em constante fricção contra a corrente dominante.
Noutro registo, «Stab Wounds» traz à superfície as raízes thrash da banda, numa explosão de agressividade quase antagónica, e a «Life’s A Mural» aproxima-se mais do desalinho arrogante de bandas contemporâneas como THE CHISEL do que propriamente dos precursores clássicos do NYHC. Esta variação de registos, longe de fragmentar o LP, reforça a sua coesão interna. Destaque a valer para a forma como as faixas se interligam através de pequenos excertos de diálogo, sons urbanos captados na rua e um rádio distorcido que oscila entre estações (os mais velhotes vão lembrar-se do «River From Red»).
Como é lógico, este cuidado de produção denuncia um trabalho meticulosamente pensado, onde nada parece deixado ao acaso — uma decisão que reforça a atmosfera de autenticidade que sempre foi a marca registada da banda. Além disso, vocalmente, o Sr. Freddie Cricien está em estado de graça. O carisma, moldado pela rua e pela experiência de décadas em palco, atinge aqui um novo patamar de intensidade, confirmando-o como uma das vozes mais identificáveis do género. É essa presença, mais do que qualquer inovação estrutural, que confere ao disco a sua força emocional.
No final, com este «Not Your Kingdom», os MADBALL entregam talvez o disco mais coeso e completo da sua discografia: não por ambição de reinvenção, mas por absoluta fidelidade a si próprios. Numa altura em que a noção de realidade objectiva parece cada vez mais negociável, há algo quase reconfortante na obstinação destes veteranos em continuar a dizer as coisas como elas são. Trinta anos depois de começarem a lutar pela causa, os MADBALL não dão sinais de querer parar. E, ouvindo este disco, percebe-se porquê: continuam a soar como os verdadeiros reis de Nova Iorque.



