Numa nova entrevista, James “Munky” Shaffer, o guitarrista dos KORN, levantou o véu sobre o estado actual da banda, o próximo álbum — e o afastamento de “Fieldy”.
Na sequência da estreia de «Reward The Scars», o primeiro tema inédito dos KORN em quatro anos, que faz parte da banda sonora do videojogo Diablo IV: Lord Of Hatred, James “Munky” Shaffer falou com a Rolling Stone Brasil e clarificou, por fim, o que se tem passado nos bastidores da banda californiana desde o lançamento de «Requiem», em 2022.
O panorama é, convenhamos, de um rigor quase obsessivo. “Está a demorar muito tempo, isso é verdade. Escrevemos, juro por Deus, quase 40 canções — e fomos analisando cada uma, reescrevendo, descartando, desmontando e reconstruindo”, afirmou Munky, numa declaração que, longe de soar a desculpa, revela uma banda que se recusa a repetir erros do passado.
Essa exigência tem uma razão de fundo. “Somos muito críticos em relação ao que fazemos agora. Somos muito particulares, porque queremos manter o nosso som original. Quando começamos a tocar, soa a Korn — especialmente com os cinco juntos.” A frase diz tudo. Há nas palavras de de “Munky” uma consciência aguda do que os KORN são — e do que não podem deixar de ser.
O novo álbum será também o primeiro com Ra Diaz no baixo, o músico que substituiu Reginald “Fieldy” Arvizu em 2021. E, segundo o guitarrista dos KORN, essa mudança de formação tem sido um catalisador inesperadamente positivo para o processo criativo. “O Ra tem sido uma adição fantástica, ele trouxe muita energia à secção rítmica. Ele e o Ray tocam muito bem juntos. É divertido vê-los trabalhar as partes, porque fazem coisas em que eu nem teria pensado.”
A cumplicidade entre Ra Diaz e o baterista Ray Luzier — que nunca tinham trabalhado juntos em estúdio num álbum de originais — emerge assim como um dos motores desta nova fase. “O facto de terem tido de aprender as partes antigas deu-lhes uma perspectiva profunda sobre o nosso catálogo. E trouxeram uma vibração semelhante para o material novo que escrevemos, e isso é entusiasmante.”
Para quem receie uma viragem estilística ou qualquer cedência às tendências do momento, “Munky” é terminante: o novo álbum soará a KORN, mas sem revisitar o que já foi feito. “Como artista — e qualquer artista sabe isto —, não queres pintar o mesmo quadro vezes sem conta. Queres acrescentar sabor, cor, algo novo, para que soe fresco; para que os ouvintes tenham o som clássico, mas com perspectivas renovadas por parte dos músicos. O que estamos a fazer ainda soa a Korn, claro. Não há electrónica pesada, não estamos a pensar fazer nada demasiado imprevisível. Continua centrado na guitarra e com o baixo bem marcado.”
A referência é directa ao que sempre distinguiu os KORN: a articulação entre as guitarras de sete cordas e a pulsação grave e densa do baixo, dois elementos constitutivos de uma sonoridade que, em meados dos anos 90, ajudou a definir o nu-metal como idioma.
Sobre o tempo que têm levado a concluir o álbum, “Munky” não hesita em invocar um modelo invulgar: “Acho que seguimos o exemplo dos Metallica. Podes sempre tocar música nova, escrever ou gravar — e é divertido. Adoramos tanto o processo de escrita e gravação como as digressões.”
Esta comparação não é casual. Os METALLICA, sobretudo a partir do The Black Album, tornaram-se um sinónimo de longos intervalos entre LPs, compensados por digressões monumentais e pela convicção de que cada disco tinha de justificar a espera. Ao assumir essa herança, os KORN sinalizam uma mudança de postura — a de uma banda que já não sente pressão para alimentar o ciclo de lançamentos, mas sim para produzir obra.
Para terminar, a ausência de “Fieldy” surgiu, inevitavelmente, na conversa, com o guitarrista a falar com franqueza, mas sem animosidade. “Tentar mantê-lo envolvido revelou-se um pouco difícil. Ficava na sala durante alguns minutos e depois saía — sem foco, como se tivesse perdido a ambição, julgo eu.” A palavra “hiato” é a que o guitarrista dos KORN prefere para descrever o afastamento — não “saída” e, sobretudo, não “despedimento”. “Não estamos nada zangados com ele. Queremos que seja feliz. E não parecia feliz a ser músico profissional naquela altura.”
Com quase quatro décadas de canções escritas, uma nova secção rítmica a afinar o seu entendimento e uma banda determinada a não lançar “algo medíocre” — nas palavras do próprio “Munky” —, o próximo álbum dos KORN surge rodeado de uma expectativa que, desta vez, parece ter alicerces sólidos. Mais um testemunho irrefutável deque o nu-metal nunca morreu. Simplesmente esperou que os seus fundadores voltassem a ter algo verdadeiro para dizer.




