O «Alive Or Just Breathing», dos KILLSWITCH ENGAGE, não foi apenas um álbum. Foi o momento em que o metalcore deixou de ser apenas uma promessa e se tornou uma linguagem universal.
21 de Maio de 2002. Numa cena musical norte-americana ainda a recuperar da ressaca do nu-metal e a tentar perceber o que viria a seguir ao post-grunge, os KILLSWITCH ENGAGE lançavam o seu segundo álbum com uma silenciosa mas devastadora certeza: havia algo de totalmente novo a acontecer no oeste do Massachusetts, e ninguém fora dali sabia ainda ao certo o que seria.
O «Alive Or Just Breathing» não chegou com fanfarra nem com a máquina promocional de uma grande editora por trás. Chegou como chegam as coisas que duram — devagar, por boca em boca, de CD-r em CD-r, de concerto em concerto em salas onde o público se tocava literalmente. E quando o mainstream do peso finalmente reparou no disco, já era tarde demais para fingir que não tinha mudado as regras do jogo.
Hoje, passados vinte e quatro anos sobre a sua edição, o segundo álbum dos KILLSWITCH ENGAGE ainda mantém uma presença que poucos discos do género podem reivindicar. Não envelheceu — transformou-se, como se transforma tudo aquilo que tem substância real.
Para entender na totalidade o «Alive Or Just Breathing» temos de analisar até à cena que o produziu. O oeste do Massachusetts era, no virar do milénio, um território fértil e relativamente ignorado pelo resto dos Estados Unidos. Bandas como os SHADOWS FALL, UNEARTH e ALL THAT REMAINS partilhavam o palco, ensaiavam em caves e construíam um som que ninguém tinha ainda catalogado com precisão.
Os KILLSWITCH ENGAGE tinham sido formados em 1999 e lançado um primeiro álbum homónimo em 2000 que, pese embora a sua energia crua, era ainda uma obra em construção. O salto qualitativo que se daria dois anos depois não caiu do céu — foi o resultado de músicos que se conheciam bem, que tinham aprendido com os seus erros e que partilhavam uma visão muito clara do que queriam fazer, mesmo que nenhum deles soubesse ainda nomear o género em que se inscreviam.
A fórmula que emergiu desse ambiente era, na sua essência, a fusão entre o death metal melódico que bandas suecas como os AT THE GATES e os IN FLAMES tinham desenvolvido ao longo dos anos 90 e a brutalidade directa do hardcore norte-americano. Vozes limpas e melódicas a alternar com vocalizações agressivas. Guitarras com riffs pesados mas harmonicamente sofisticados. Uma energia que pertencia simultaneamente ao pit e às rádios.
O metalcore, em suma — embora o rótulo demorasse ainda algum tempo a fixar-se no vocabulário da imprensa musical.
Adam Dutkiewicz é, por qualquer critério razoável, o arquitecto central do «Alive Or Just Breathing». Guitarrista, compositor e produtor dos KILLSWITCH ENGAGE, gravou o LP no seu espaço de eleição, os Zing Studios, em Westfield, no Massachusetts — entre Outubro de 2001 e Fevereiro de 2002. Mas o processo foi, desde o primeiro dia, uma luta constante contra as circunstâncias.
Logo no início das sessões de composição, o guitarrista Pete Cortese abandonou a banda para se dedicar à família. A solução encontrada rapidamente pelos KILLSWITCH ENGAGE foi uma característica evidente de determinação pragmática: o músico deixou a bateria, onde tinha começado os trabalhos, e assumiu o papel de segundo guitarrista. Tocou ainda a maior parte das partes de percussão antes da banda chamar Tom Gomes para reforço adicional.
As dificuldades não ficaram por aí, no entanto. Parte dos KILLSWITCH ENGAGE estava ainda a estudar; os outros tinham empregos a tempo inteiro. As sessões de gravação tinham de ser encaixadas entre horários incompatíveis, e o frio que assolava Massachusetts naquele inverno não ajudava — as guitarras e o baixo desafinavam constantemente, obrigando a inúmeras retomas das mesmas passagens e forçando a banda a gastar boa parte do orçamento disponível em equipamento de melhor qualidade. Foi nesse contexto de pressão e improvisação que nasceu um dos discos mais influentes do heavy metal do século XXI.
Se há um elemento do «Alive or Just Breathing» que sobressai desde logo pelo seu poder emocional — e que paradoxalmente quase não chegou a existir — é a prestação vocal de Jesse Leach. O vocalista dos KILLSWITCH ENGAGE viveu, durante as gravações, uma crise de confiança profunda. Novo e inexperiente, sentia que ainda não estava à altura dos músicos que o rodeavam. As sessões de estúdio tornaram-se progressivamente frustrantes, tanto para ele como para Dutkiewicz, que procurava equilibrar a paciência do produtor com a urgência do calendário.
“Estava despreparado com o meu instrumento, e isso tornava-me inseguro”, confessou Leach em 2010. “Era jovem e inexperiente e ainda não me conhecia enquanto vocalista, mas estava totalmente desesperado para ser um cantor melhor porque queria fazer um bom trabalho nesta banda que tinha músicos tão talentosos. Tinha todos aqueles equívocos sobre a minha voz, mas na realidade ainda não sabia como controlá-la. Não tinha técnica e não sabia cantar correctamente. Por isso subia para ali e sangrava a minha alma para um microfone e forçava a voz para fora e as cordas vocais batiam umas nas outras e acabava por perder a voz.”
A solução foi deslocar as gravações vocais para a casa de Jesse Leach em Rhode Island. Longe da pressão artificial do estúdio, o cantor encontrou o espaço para conjurar aquilo que o álbum precisava: a abrasão crua e a melodia ferida que percorrem cada faixa como dois fios eléctricos em tensão permanente. O desconforto não desapareceu — incorporou-se na música. O desespero, a frustração e a infelicidade que Leach vivia atravessam a mistura sem filtro, e é precisamente isso que torna o «Alive Or Just Breathing» um disco visceral em vez de um exercício de estilo por parte dos KILLSWITCH ENGAGE.
Das quinze canções gravadas durante as sessões, doze chegaram ao alinhamento final — às quais se juntaram duas faixas retiradas do álbum de estreia, «Temple From The Within» e «Vide Infra», numa decisão que reflecte tanto a escassez de tempo como a vontade de preservar algum do material que a banda considerava ainda relevante.
«Self Revolution», «My Last Serenade», «The Element Of One» — os nomes das faixas que se tornaram favoritas do público soam hoje como marcos de uma cartografia sentimental para toda uma geração de ouvintes. «My Last Serenade», em particular, com a sua estrutura que oscila entre doses equilibradas de brutalidade e melodia com uma fluidez desconcertante, tornou-se uma das canções mais reconhecíveis do géneroe do catálogo dos KILLSWITCH ENGAGE.
É difícil, vinte e quatro anos depois, isolar com precisão o impacto real do «Alive Or Just Breathing» na paisagem do metal contemporâneo. O metalcore transformou-se, ao longo da década de 2000, um dos estilos mais populares e comercialmente viáveis do som pesado — e os KILLSWITCH ENGAGE estiveram sempre no centro desse processo, mesmo quando a popularidade do género começou a atrair críticas de diluição e comercialização.
O argumento de que bandas suecas como os AT THE GATES, IN FLAMES e DARK TRANQUILLITY tinham explorado território semelhante antes de 2002 é totalmente válido — e os próprios KILLSWITCH ENGAGE nunca esconderam as suas influências. No entanto, há uma diferença entre influência e catalisador. «Alive Or Just Breathing» foi o disco que levou a fusão entre o death metal melódico escandinavo e o hardcore norte-americano a uma audiência mainstream que, de outro modo, provavelmente nunca teria chegado a esse cruzamento.
Resultado: há discos que são produtos do seu tempo e há discos que o transcendem. O «Alive Or Just Breathing» pertence claramente a essa segunda categoria — não porque seja perfeito (não é, e o próprio Jesse Leach seria o primeiro a admiti-lo), mas porque é 100% verdadeiro de uma forma que raramente se encontra neste ou em qualquer outro género. Foi gravado com muitas dificuldades, por uns KILLSWITCH ENGAGE em estado de crise, por músicos que ainda não sabiam bem quem eram mas que tinham uma urgência real para dizer o que queriam dizer. Essa urgência ouve-se em cada faixa. É o que mantém o disco vivo.





