JUDAS PRIEST

IAN HILL fala sobre a sua saída dos JUDAS PRIEST: “Na verdade, não tive outra escolha”

O lendário baixista admite que já ponderava abandonar antes de sofrer uma grave lesão no ombro durante a mais recente digressão europeia dos JUDAS PRIEST.

Numa nova entrevista, Ian Hill explicou os motivos que o levaram a abandonar os JUDAS PRIEST, revelando que os problemas físicos já o tinham colocado à beira da reforma antes mesmo de sofrer uma grave lesão durante a mais recente digressão europeia da banda britânica. Numa entrevista concedida ao Metal Pilgrim, o baixista de 74 anos admitiu que a artrite e as dificuldades em recuperar entre concertos tornaram cada vez mais complicado continuar a cumprir as exigências de uma carreira que se prolonga há mais de cinco décadas.

O anúncio da saída foi feito a 9 de Outubro, através de uma declaração em que Ian Hill já apontava a artrite, que descreveu como “uma doença maldita”, e outras lesões como razões determinantes para colocar um ponto final na sua actividade regular com a sua banda de sempre. Agora, ao falar abertamente sobre o assunto, o músico beitânico deixou claro que a decisão não resultou apenas do episódio que o obrigou a falhar o concerto dos JUDAS PRIEST em Londres, a 21 de Setembro. Na realidade, a possibilidade de abandonar a banda já estava em cima da mesa há algum tempo.

“É engraçado, porque as últimas duas digressões foram um pouco mais difíceis. O problema está basicamente no meu ombro e no polegar — tenho um grande inchaço no polegar, que é tudo artrite. Tenho tido dificuldades com isso nas últimas duas digressões. Infelizmente, não é alfo que desapareça e é uma daquelas coisas que só pioram com o passar do tempo“, explicou Hill. O músico acrescentou ainda que chegou a ponderar retirar-se no final da digressão anterior, mas os compromissos que entretanto surgiram acabaram por prolongar a sua permanência em palco.

A sucessão de acontecimentos que conduziu à lesão começou com a possibilidade dos JUDAS PRIEST acompanharem os IRON MAIDEN numa digressão de quatro semanas pelos Estados Unidos. A proposta acabou por não avançar, mas, entretanto, a banda já tinha assumido a participação no Bloodstock, festival britânico que obrigava a manter a preparação para os concertos ao vivo. A ideia de acrescentar uma ou duas datas europeias em torno desse compromisso acabou por se transformar numa sequência de datas muito mais exigente do que inicialmente previsto.

“De repente, passaram nove semanas“, recordou Hill. O baixista explicou que a banda chegou a realizar seis concertos em apenas oito dias, numa altura em que o seu estado físico já exigia períodos de recuperação mais prolongados. O maior problema era mais evidente no ombro: nos dias sem concertos, a lesão parecia aliviar, mas regressar ao palco significava voltar a sujeitar aquela zona afectada a um esforço intenso. A sucessão de actuações acabou por impedir a recuperação de que necessitava.

O momento decisivo aconteceu durante o espectáculo de Bruxelas, pouco antes dos encores. “Senti qualquer coisa a estalar e uma dor aguda, lancinante, e pensei: ‘É isto. Acabou-se'”, recordou. Apesar da dor, Ian conseguiu terminar o concerto, embora tivesse de adoptar uma posição pouco habitual para continuar a tocar. Como já não conseguia movimentar o ombro normalmente, apoiou o cotovelo contra o estômago e puxou o baixo para junto do corpo, de modo a conseguir alcançar a parte inferior do braço do seu instrumento.

A situação era suficientemente grave para o impedir de tocar com os JUDAS PRIEST no Eventim Apollo. O músico explicou que, embora conseguisse movimentar normalmente o braço a partir do cotovelo, o ombro estava praticamente imóvel. “Fisicamente, a verdade é que não conseguia tocar baixo“, reconheceu ele.

Desde então, a recuperação tem sido gradual e Hill admite que já consegue fazer alguns movimentos que lhe pareciam impossíveis imediatamente após a lesão. Ainda assim, o problema não está totalmente resolvido. O músico tem sido acompanhado por diversos especialistas e aguarda um plano de tratamento que, para já, procura evitar uma intervenção cirúrgica. Segundo explicou, o médico não pretende avançar para uma operação sem necessidade, uma vez que não existe garantia de que esta resulte. A possibilidade de cirurgia permanece, portanto, uma questão a acompanhar, mas não é, neste momento, o caminho preferencial.

Apesar da gravidade da lesão, Ian Hill deixou bem claro que a sua decisão não se deveu exclusivamente ao episódio de Bruxelas. Mesmo que tivesse conseguido participar no espectáculo em Londres, acredita que acabaria por abandonar os JUDAS PRIEST na mesma, devido à progressão da artrite e à incerteza em torno da sua capacidade para suportar futuras digressões. “Na verdade, não tive outra escolha senão pôr um ponto final nisto“, afirmou o músico. “Não podia pôr os rapazes em risco e ir para a estrada para depois acontecer tudo outra vez a meio da tour.”

A decisão representa também uma oportunidade para recuperar uma parte da vida pessoal que reconhece ter sacrificado ao longo de décadas dedicadas à banda. Hill admitiu que a carreira teve consequências profundas na sua vida familiar, chegando mesmo a afirmar que a ausência prolongada de casa contribuiu para o fim de dois casamentos. “Negligenciei a vida familiar. Custou-me dois casamentos ao longo dos anos. Por isso, decidi passar algum tempo com os meus“, revelou.

Como é do conhecimento geral, a possibilidade de Ian Hill não conseguir cumprir os compromissos levou os JUDAS PRIEST a prepararem antecipadamente uma alternativa. Davey Rimmer, o baixista dos também lendários URIAH HEEP, foi chamado para aprender o alinhamento e estar pronto para intervir caso fosse necessário. “O Davey fez um trabalho absolutamente incrível. Com tão pouco tempo de aviso, chegou ao palco e… uau!“, elogiou o músico. Rimmer utilizou o equipamento de Hill, levando consigo apenas os próprios baixos, e acabou por demonstrar estar à altura da responsabilidade.

Ainda assim, Ian Hill está consciente de que a chegada de um novo músico à formação dos JUDAS PRIEST poderá gerar críticas entre os fãs mais antigos. É uma situação que considera habitual sempre que alguém assume o lugar de um membro histórico numa banda, e recordou os casos de Richie Faulkner, que substituiu K.K. Downing, e de Andy Sneap, que passou a assegurar as partes de Glenn Tipton em palco. Na sua opinião, Davey Rimmer poderá enfrentar alguma resistência durante o primeiro ano, enquanto conquista a confiança dos fãs e se adapta plenamente à nova realidade.

Além disso, a saída dos palcos não significa, contudo, que o contributo de Ian Hill para os JUDAS PRIEST tenha terminado por completo. O baixista confirmou que já gravou as suas partes para o próximo álbum de estúdio, cuja edição está prevista para 2027, embora ainda exista algum trabalho por concluir. “Consegui gravar as partes de baixo para o novo álbum que vai sair no próximo ano. Ainda há mais algum trabalho a fazer, mas, se mantiver o baixo na posição certa, vou conseguir terminar. Pelo menos, vou estar no disco, se não for em mais nada“, explicou.

A informação garante que o músico continuará representado no próximo capítulo discográfico da banda, mesmo que a sua saúde já não lhe permita assumir os compromissos de uma digressão completa. Hill também não exclui a possibilidade de voltar a subir ao palco em ocasiões especiais. Deixou claro que não pretende desaparecer da vida dos JUDAS PRIEST e que pretende acompanhar a banda, incluindo a partir da mesa de som, onde poderá finalmente observar o espectáculo de uma perspectiva diferente daquela a que se habituou ao longo de tantos anos.

Mais importante ainda, o baixista já transmitiu aos companheiros que estará disponível para participar em actuações pontuais, caso a situação o permita. A ideia seria limitar essas aparições a um ou dois temas, eventualmente durante um encore ou numa ocasião particularmente significativa, à semelhança do que Glenn Tipton tem feito em determinados espectáculos depois de reduzir a sua participação nas digressões devido à doença de Parkinson. “Já disse aos rapazes que estou completamente disponível para coisas assim. Se precisarem de mim para uma ocasião especial, terei todo o gosto em subir ao palco e fazer o que conseguir“, revelou.

A porta fica, assim, entreaberta para eventuais reencontros em palco, mas sem qualquer promessa de regresso regular. O próprio músico sabe que não poderá exigir ao corpo mais do que este lhe permite actualmente.