HATEBREED

HATEBREED: Novo álbum, «Fatal Paradox», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Com «Fatal Paradox», os HATEBREED respondem à doença, à saída de um fundador e ao tempo com o único argumento que sempre dominaram: o peso.

Há bandas que se explicam aos fãs. Os HATEBREED limitam-se a carregar no botão. Seis anos separam «Weight Of The False Self», editado em 2020, deste «Fatal Paradox», o nono álbum de estúdio da banda oriunda do Connecticut, e o intervalo não foi apenas um período de descanso. Pelo caminho, o guitarrista Wayne Lozinak teve de recuperar de um tumor cerebral e o baixista fundador Chris Beattie deixou o grupo. Perante um historial assim, seria legítimo esperar um disco cauteloso, de balanço ou de reafirmação burocrática. Não é nada disso.

Quem acompanha a banda desde os tempos de «Perseverance» sabe que o motor dos HATEBREED nunca foi a nuance. A raiva é a matéria-prima, e três décadas depois de formados continua a ser o combustível. A diferença, desta vez, está na pontaria. Jamey Jasta já tinha prometido uma colecção de “bangers consecutivos“, e esta promessa, ao contrário de tantas outras em vésperas de lançamento, cumpre-se.

O disco mistura hardcore, pubnk, thrash e crossover, três linguagens que os HATEBREED dominam há tempo suficiente para as baralharem sem qualquer esforço. O que muda é a nitidez do alvo. Não se trata só de raiva difusa, daquela que serve apenas para encher compassos: estas canções falam de desafio, de recusa em ceder e de encontrar alguma força quando tudo parece conspirar para nos moer.

Na faixa-título, essa intenção torna-se explícita. Os versos “All these liars, all these thieves / Doing everything to keep you on your knees” apontam aos poderes instituídos e convidam o ouvinte, ou a plateia, a gritar em uníssono. É o hardcore na sua função mais antiga: transformar o ressentimento individual numa indignação partilhada.

A abertura, com «Kill Count Increase», começa com uma introdução de recorte doom, arrastada e ameaçadora, antes de rebentar num ataque thrash a velocidade máxima. É uma entrada com sentido de teatro, mas sem floreados inúteis. Segue-se «The Carrion Choir», onde a ferocidade hardcore regressa de novo sem disfarces, e depois «Decisions Become Destinies», que olha para aquele thrash do final dos anos 80, com solo certeiro e linhas de baixo de enorme presença. É um aceno aos antepassados, feito sem cair na pastiche.

Ainda assim, o ponto mais saliente do alinhamento é «Sacrifice Season». Abre com helicópteros, sirenes policiais e vidros a partir, uma encenação sonora de tumulto urbano, e desemboca num enorme monstro de crossover. A participação de John Tardy, voz dos OBITUARY, oferece uma troca vocal brutal com Jasta, e o resultado é uma aproximação entre hardcore e death metal que cheira a memória, mas sem soar a museu. Nostálgico e revigorante em doses equivalentes, o tema mostra como duas cenas vizinhas, mas historicamente desconfiadas uma da outra, acabam por falar a mesma língua quando o volume sobe.

«None Left To Save», com seis minutos, é a declaração final do álbum, longa para os padrões da banda e castigadora do princípio ao fim. Depois, a demolidora versão de «Poison Planet», orifinal dos CORROSION OF CONFORMITY, ganha uma roupagem crossover renovada. A escolha não é inocente: os C.O.C. foram dos primeiros a provar que punk e metal podiam partilhar a mesma sala, e é esse território híbrido que os HATEBREED ocupam há trinta anos.

Não faltam as marcas habituais da casa: os coros de punho no ar, os andamentos que pedem mosh, a voz rouca de Jasta a ordenar atenção. Seria fácil acusar o disco de repetir fórmulas, mas essa leitura ignora o essencial. Os HATEBREED nunca prometeram reinvenção, consistência, e raras bandas da sua geração a mantiveram com tanta teimosia. Num momento em que muitos dos pares envelhecem em piloto automático, soar faminto, zangado e vital, como o disco soa, é um feito que dispensa grandes justificações.

«Fatal Paradox» é, por isso, um verdadeiro regresso à forma. Seis anos de ausência, uma doença superada, uma baixa de peso no alinhamento, e a banda volta a aparecer uma vez mais de punhos cerrados. Para quem esperava que o tempo lhes tivesse suavizado os gestos, a resposta chega em cerca de meia hora de pancada bem dirigida.