Os suecos CULT OF LUNA regressam com um disco mais etéreo, mais dinâmico e com uma ou outra surpresa capaz de surpreender mesmo quem os segue desde os primeiros passos.
A última nota de Johannes Persson berra no tema-título de «In The Shadow Of Your Shadow» não se ouve apenas: sente-se no peito. É um urro de uma rudeza quase ancestral, que há muito não se associava à sua voz, e que serve de aviso. Como o seu mais recente longa-duração, os CULT OF LUNA não estão aqui para repetir a fórmula vencedora. Vieram prolongá-la, torcê-la e, em certos momentos, desafiá-la.
Quem esperava uma entrada de força bruta engana-se. Longe de apostarem na agressividade como cartão de visita, os músicos de Umeå puxam pelo lado mais espacial e etéreo da sua linguagem. Os sintetizadores ganham terreno, as dinâmicas alargam-se e há mais inclinação pós-rock do que o costume. O resultado final tem um equilíbrio bastante difícil de alcançar. A produção é polida o suficiente para tornar o conjunto luxuriante, mas não ao ponto de anular a aspereza de que esta música precisa para respirar.
É, por isso, um ponto de entrada particularmente acessível para quem queira perceber o que fazem os gigantes suecos, sem que os veteranos se sintam defraudados. A atmosfera de ameaça e a energia pulsante, marcas desde sempre dos CULT OF LUNA, ainda se mantêm-se intactas. Muda a luz, não muda a casa.
A faixa-título, e de abertura, abre com os grandes espaços sonoros que estabeleceram a reputação do grupo em primeira instância: texturas intrincadas, envolventes, construídas com a paciência de quem sabe que o tempo também é um instrumento. Estes são os CULT OF LUNA de agora em plena posse dos meios, e tem desde logo o peso de um clássico. «Breach» funciona noutro registo, muito mais despojado. Poderia figurar sem esforço em «Somewhere Along the Highway», e a cada compasso ganha embalo até se transformar num tema de impacto direto.
Seria injusto, porém, resumir o álbum ao que já se conhecia da banda. Há surpresas, e é precisamente nelas que «In The Shadow Of Your Shadow» mais se distingue. A mais inesperada é «Sadness Will Reign», tema trovejante onde surge Joe Duplantier, dos GOJIRA. Convém sublinhar a escolha: em vez de recorrer ao registo gutural pelo qual é conhecido, o francês canta em voz limpa, e a sua linha encaixa na de Johannes Persson com notável naturalidade, desenhando melodias de grande eficácia. Nem todas as participações especiais acrescentam algo a uma canção. Esta acrescenta.
Mais surpreendente ainda é «The Rift». Abre sombria e lenta, como se nada de invulgar estivesse para acontecer, e depois puxa o tapete com um riff decididamente agressivo, daqueles que obrigam a cabeça a mexer. Há ali algo de cruzamento improvável com o universo dos MASTODON, e a banda mostra que também sabe ser rápida quando quer. Não é comum encontrá-la a este ritmo, e o contraste acrescenta uma camada de diversidade a um alinhamento ancorado sobretudo em andamentos médios. E, feitas as contas, não seria mau que o repetissem.
Resta «Burial», o monumento do disco. É o tema em que os CULT OF LUNA mais se aproximam do espírito de «Mariner», e a razão está nos sintetizadores, um dos elementos que sempre os distinguiram dos seus pares. Aqui servem para catapultar a música para alturas quase siderais, num efeito que dispensa explicações. Pode muito bem ser uma das melhores canções do ano.
Ainda assim, há uma nota de contexto que não se pode ignorar. O regresso recente, e inesperado, dos NEUROSIS com o colossal «An Undying Love For A Burning World» fez pensar que, este ano, alguém poderia ameaçar a posição dos suecos como melhor banda de post metal em actividade. Alguns meses depois, o novo disco dos CULT OF LUNA responde sem levantar a voz. E sim, falar em coroas é, no fundo, um exercício de retórica. O género não vive de rivalidades e tem sorte em contar com tanta música de qualidade, sobretudo quando nomes desta dimensão continuam a alargar os limites do que fazem.






