Para os portugueses que planeiam a sua viagem ao GRASPOP METAL MEETING, a presença dos “nossos” MOONSPELL e GAEREA é, claro, um ponto de orgulho. No entanto, o cartaz justifica-se por si mesmo — quatro dias em que a música pesada se apresenta sem desculpas, na sua forma mais abrangente e, por isso, mais honesta.
De 18 a 21 de Junho, a pequena cidade belga de Dessel volta a transformar-se no epicentro mundial do metal — e a edição de 2026 do Graspop Metal Meeting pode ser a mais ambiciosa da sua história. Com 152 bandas distribuídas por seis palcos e quatro dias de programação ininterrupta, o festival belga trata de reafirmar-se como uma das montras mais completas do género numa Europa que, neste Verão, vai ter muito por onde escolher.
O número impressiona antes mesmo de olharmos para os nomes: 152 atrações, 60 das quais nunca tinham pisado o solo de Dessel. Entre os estreantes figuram os Bad Omens, Faetooth, Feuerschwanz, Periphery e os portugueses GAEREA — uma das bandas mais relevantes do black metal atmosférico europeu da última década, cuja presença no Graspop Metal Metting assinala o crescimento imparável de uma cena nacional que já não é novidade para os circuitos europeus.
A programação abrange praticamente a totalidade dos subgéneros do metal: thrash, death, doom, black, groove, metalcore, progressivo, stoner, power, gótico e as múltiplas intersecções que, hoje em dia, são já uma definição do metal contemporâneo. O festival nunca foi apenas um palco para os mais pesados — e em 2026 isso fica mais claro do que nunca.
Na primeira noite de Graspop Metal Meeting, quinta-feira, 18 de Junho, marcam presença dois pilares do thrash norte-americano. Os MEGADETH, com o Sr. Dave Mustaine à frente da sua criatura mítica, e ainda os ANTHRAX, que raramente decepcionam ao vivo. No entanto, o cartaz não fica só pela nostalgia: TOM MORELLO traz a sua habitual mistura de virtuosismo e activismo, THE OFFSPRING garantem momentos de punk rock certeiros e WITHIN TEMPTATION fecham com o peso de um percurso de três décadas no metal gótico holandês.
Há espaço ainda para os LIMP BIZKIT — um daqueles fenómenos culturais que o tempo não conseguiu apagar completamente —, THE DILLINGER ESCAPE PLAN, regresso aguardado de uma das bandas mais violentamente originais do mathcore, e SEPTICFLESH, representantes do death sinfónico grego com um catálogo invelável. Os CULT OF LUNA asseguram o peso do post-metal escandinavo, e WOLVES IN THE THRONE ROOM fecham uma quinta-feira que serve, afinal, de declaração de intenções.
A segunda noite é porventura a mais eclética. KNOCKED LOOSE, colosso contemporâneo do hardcore pesado, encerram o cartaz num momento que promete ser um dos mais violentamente catárticos deste festival. Os TRIVIUM mantêm a sua consistência ao longo dos anos, os VOLBEAT garantem a sua mistura característica de rockabilly e metal dinamarquês, e os ALTER BRIDGE — com Myles Kennedy numa das vozes mais completas do rock moderno — apresentam um espectáculo que nunca falha.
Mas a presença mais perturbadora da noite é outra: SEX PISTOLS featuring Frank Carter. A banda existe há demasiado tempo sem os seus membros fundadores para gerar qualquer controvérsia real, mas Frank Carter é um dos frontmen mais magnéticos do punk contemporâneo britânico — e a sua energia pode ressuscitar qualquer canção. Os CRADLE OF FILTH asseguram a presença do metal britânico mais teatral, e ORANSSI PAZUZU representam o experimentalismo psicodélico-negro finlandês que desafia qualquer categoria.
O dia mais extenso do Graspop Metal Meeting, Sábado, 20 de Junho, é também o mais denso em nomes maiúsculos. BRING ME THE HORIZON fecham a noite com tudo o que aprenderam desde os tempos do deathcore até ao pop-metal de estádio que praticam hoje — uma trajectória que divide opiniões, mas que ninguém pode ignorar. BABYMETAL, fenómeno japonês que mistura kawaii pop com metal extremo, voltam a provar que o seu sucesso não é acidente nem curiosidade passageira.
Os SEPULTURA sobem a palco numa das últimas oportunidades de ver a banda em formato que ainda evoca a era clássica, depois de anos de tumulto interno. Os MOONSPELL regressam ao Graspop numa presença que é, por si só, um símbolo da longevidade e da importância da cena portuguesa no mapa do metal europeu — Fernando Ribeiro e os seus sabem há muito que palcos deste calibre lhes ficam bem. Os ARCHITECTS trazem o metalcore britânico mais cerebral, LACUNA COIL o gothic metal italiano de catálogo robusto, e CORROSION OF CONFORMITY o sludge do sul dos Estados Unidos na sua forma mais honesta.
A última noite da edição de 2026 do Graspop Metal Meeting é, feitas todas as contas, uma revisão da história do rock pesado britânico e norte-americano. DEF LEPPARD e ALICE COOPER partilham o mesmo cartaz como se o tempo fosse apenas uma convenção — e ao vivo, ambos continuam a justificar a sua longevidade. Os FOREIGNER representam o AOR de grande escala, EUROPE o glam que entrou para a cultura popular muito além dos nichos, e os MASTODON o metal progressivo americano mais ambicioso da geração dos 2000.
BLACK LABEL SOCIETY, com Zakk Wylde ao comando, trazem o blues pesado, SABATON o power metal histórico sueco que conquistou milhões de fãs com uma fórmula inesperadamente eficaz, e EVERGREY a emotividade melódica do metal progressivo escandinavo. Os “nossos” GAEREA surgem também no alinhamento de Domingo, confirmando o peso simbólico da sua presença nesta edição. Os VENOM, que são os pioneiros absolutos do black metal britânico, fecham uma jornada que é, por si mesma, uma aula de genealogia do metal.
Resultado: o que o Graspop Metal Meeting consegue fazer — ano após ano, mas com especial clareza na edição deste ano — é funcionar como um espelho muito preciso do estado actual do metal como género vivo e contraditório. Bandas com meio século de história partilham espaço com projectos formados há menos de uma década. O thrash dos ANTHRAX e MEGADETH coexiste com o metalcore de ARCHITECTS e o black metal dos GAEREA e WOLVES IN THE THRONE ROOM. O festival não impõe uma hierarquia — oferece um mapa.
Os bilhetes e informações estão disponíveis no site oficial do festival.





