EXHUMED

EXHUMED @ SWR 26, Barroselas | 01.05.2026 [reportagem]

Ao segundo dia de SWR 26, os veteranos EXHUMED levaram a Barroselas trinta anos de death metal destilado numa actuação que não deixou ouvidos (nem sentidos) incólumes.

O segundo dia do  SWR – Barroselas Metalfest acordou ainda com o eco do caos canadiano da véspera. Mas se os REVENGE tinham operado como uma força abstracta e impessoal — assumindo o ruído como sistema, a violência como filosofia —, os norte-americanos EXHUMED chegaram com outra proposta: a de que a música extrema pode ser, simultaneamente, brutal e irresistivelmente apelativa. Death metal com estrutura, velocidade com memória, agressão com sentido de espectáculo.

Antes da banda subir ao palco, o cenário já contava uma história. Cones de trânsito ladeavam a bateria, luzes de aviso piscavam nos amplificadores, e os ecrãs espalhados pelo palco alternavam entre o ponteiro de um rádio AM/FM e imagens perturbadoras de acidentes rodoviários — referências directas à estética de «Red Asphalt», o novo LP do grupo, editado em Fevereiro pela Relapse Records, que usa a violência da estrada como metáfora da violência do som. O cenário cumpria, desde logo, uma função dupla: anunciar o novo disco e preparar o público para o que aí vinha.

Quando os EXHUMED pisaram o palco, a montagem visual ganhou subitamente sentido. «Unsafe At Any Speed» abriu o concerto com a urgência de gente que não tem tempo a perder, seguida imediatamente pelo tema-título do novo longa-duração. Uma entrada frenética que colocou o público do lado da banda em poucos minutos — e que deixou claro que esta não seria uma noite de aquecimento gradual.

Há um detalhe que torna esta actuação em Barroselas particularmente significativa: Matt Harvey estava a prestar um duplo serviço no festival. Na noite anterior, tinha actuado com os GRUESOME numa prestação que muitos dos presentes classificaram como memorável. Regressar no dia seguinte com os EXHUMED, a sua banda principal, o projecto que co-fundou na Califórnia em 1991 e que nunca largou mesmo tendo períodos de menor actividade, exigiria a qualquer músico uma reserva de energia e de foco considerável.

Harvey não mostrou sinais de desgaste. Pelo contrário, chegou ao palco com a descontracção de quem está exactamente onde quer estar. “How you guys been? It’s been a while… a long fucking time”, disse ao público, antes de anunciar a intenção de cobrir o máximo de território possível ao longo da noite. Não foi uma promessa vã — e a discografia dos EXHUMED oferece território suficiente para várias noites.

Três décadas de carreira têm o seu peso específico. De «Gore Metal» a «Slaughtercult», de «Anatomy Is Destiny» até ao actual «Red Asphalt», os EXHUMED construíram um corpo de trabalho bem assente em coordenadas que nunca abandonaram: grind/gore de raiz, death metal clássico, letras mergulhadas na imagética mais desavergonhada, tudo cosido por uma capacidade pouco comum de escrever temas que ficam. Não riffs que se aguentam dois minutos — temas que se recordam.

Mesmo com um set mais curto do que aquele que têm andado a apresentar nos espectáculos em nome próprio, a gestão do alinhamento reflectiu essa consciência histórica. A «The Matter Of Splatter» surgiu cedo como um primeiro mergulho no arquivo, recebida com o reconhecimento imediato dos fãs que já esperavam exactamente isso. O momento de maior intensidade colectiva chegou com «Necromaniac», retirada do primeiro álbum. “Remember the first record?”, perguntou Harvey, e Barroselas respondeu com cornos no ar e uma desordem controlada que se prolongou até «Limb From Limb», deixando a plateia num estado de agitação que raramente se vê tão uniformemente distribuído.

Entre o arquivo e o presente, os novos temas seguraram o seu espaço sem dificuldade. «Shovelhead» e, acima de tudo, «Shock Trauma» — provavelmente o ponto mais alto de «Red Asphalt» em contexto ao vivo — demonstraram que a banda não está a repetir-se, mas a expandir um vocabulário que mantém a sua lógica interna intacta.

Seria impossível falar de um espectáculo dos EXHUMED sem mencionar aquele elemento que transforma o ambiente numa extensão do palco: a cumplicidade física com o público. Bolas insufláveis voaram sobre a plateia com uma regularidade quase coreografada, e o stage diving acabou ppor ser uma constante — corpos a lançarem-se para a multidão com a convicção de quem sabe que vai ser apanhado. E sim, já é uma tradição em Barroselas, mas a banda alimentou-a deliberadamente, não como truque circense, mas como extensão coerente de uma estética que nunca separou o som da experiência colectiva.

Num lugar onde o público tem anticorpos suficientes para não se surpreender com praticamente nada, o caos foi recebido com a cumplicidade habitual. Quem mergulhou para a multidão não se arrependeu. E, provavelmente, voltaria a fazê-lo no dia seguinte.

Resultado: há bandas que envelhecem bem porque se reinventam. E, depois, há bandas que envelhecem bem porque nunca precisaram de se reinventar — apenas de se aprofundar. Os EXHUMED pertencem ao segundo grupo. Trinta anos depois de terem dado os seus primeiros passos no underground, continuam a fazer exactamente o que sempre fizeram, com uma precisão e uma energia que desmentem qualquer noção de desgaste. A marca que deixaram em Barroselas foi indelével e, inevitavelmente, sanguinolenta.

Recordem a actuação dos EXHUMED, através do bootleg oficial do SWR 26, a partir da marca 7:28:00, sensivelmente. A foto que ilustra o artigo é de NecrosHorns.