Nos dias 4 e 5 de Julho, Lisboa recebe o EVILLIVƎ FESTIVAL numa edição concentrada e de peso histórico assinalável — com despedidas, ressurreições e a afirmação de uma nova geração.
A edição de 2026 do EVILLIVƎ FESTIVAL anuncia-se com um cartaz que não pede desculpas por nada. Em Lisboa, 5 de julho — uma só noite, seis décadas de história da música pesada, e pouco espaço para quem prefira ficar em casa. O regresso à MEO Arena, no Parque das Nações, depois de uma edição alargada no Estádio do Restelo — que, em 2025, reuniu os JUDAS PRIEST, KORN e SLIPKNOT ao longo de três dias —, não é um recuo. É uma escolha. Um recentramento deliberado numa fórmula que a organização já conhece bem: programa concentrado, produção de nível internacional, e a convicção de que a qualidade não precisa de dispersão para se impor.
O resultado é um cartaz que dificilmente encontra paralelo no calendário nacional de 2026. Não porque seja o maior — não é. Mas porque, mesmo com poucos nomes, consegue carregar um peso histórico, simbólico e artístico que a maioria dos festivais desta dimensão demoraria muito a construir.
O festival decorre nos dias 4 e 5 de Julho, com o dia 4 a ocupar a Sala Tejo com uma noite de warm up e o dia 5 a preencher a MEO Arena. A separação de espaços não é cosmética: é uma distinção de escala e de intenção. Ainda assim, o aperitivo, a noite de aquecimento — acabou por ganhar identidade própria, que torna difícil reduzi-lo a nota de rodapé.
O EVILLIVƎ WARM-UP reúne os TRIVIUM, os CAVALERA e os portugueses OKKULTIST, concebido como o momento inaugural de toda a experiência do festival em 2026. Três nomes que, por si só, justificariam a deslocação: uma das bandas mais sólidas do metal pesado moderno, um dos momentos mais carregados de simbolismo de toda a programação, e a afirmação da cena nacional no contexto mais exigente do ano.
Os norte-americanos TRIVIUM, liderados por Matt Heafy, regressam de novo a Lisboa com um percurso sustentado por álbuns como «Ascendancy», «Shogun» e «In The Court Of The Dragon», que ajudaram a definir o metal das últimas duas décadas. Ainda assim, se há momento que transcende a lógica habitual de um festival, a presença de Max Cavalera e Igor Cavalera é um deles. Os dois membros fundadores dos apresentam o espectáculo especial Cavalera Plays Chaos A.D., dedicado a um dos álbuns mais influentes da história da música pesada.
A representação nacional fica a cargo dos OKKULTIST, nome incontornável da mais recente vaga do peso extremo luso, com uma sonoridade assente no death metal e actuações caracterizadas pela intensidade e entrega total. A presença de uma banda portuguesa num cartaz desta envergadura não é uma concessão à bandeira — é um reconhecimento de que a cena nacional tem hoje nomes capazes de se afirmarem no mesmo espaço que aqueles que moldaram a história do género.
O dia seguinte muda de escala. A 5 de Julho, a MEO Arena recebe MARILYN MANSON, os MEGADETH, MASTODON, CONVERGE, THE GATHERING e IMMINENCE — seis nomes que, em conjunto, conseguem cobrir quase cinco décadas de história da música pesada e representam correntes tão distintas quanto o thrash clássico, o doom atmosférico, o sludge progressivo, o hardcore mais intransigente e o metalcore de nova geração.
O concerto de abertura da digressão de primavera de MARILYN MANSON, em Abril no Yaamava’ Resort & Casino, confirmou que, quatro décadas após a sua génese, a banda continua a operar como um organismo em constante mutação, com nova formação e alinhamento com surpresas. O facto de este ser já o segundo concerto em Portugal num curto espaço de tempo — depois de esgotar o Campo Pequeno em Novembro de 2025 — diz algo sobre a vitalidade renovada de um artista que muitos deram por encerrado.
Fiel ao seu estilo confrontacional, MARILYN MANSON vai apresentar um alinhamento que mistura os clássicos que definiram a sua carreira com os temas mais recentes de «One Assassination Under God – Chapter 1», cruzando hinos como «The Beautiful People», «Disposable Teens» e «The Dope Show» com faixas do novo álbum. A teatralidade e a carga simbólica das suas actuações continuam a distingui-lo num panorama onde poucos artistas arriscam genuinamente a dimensão performativa do espectáculo.
Poucas vezes um concerto num festival carrega tanto peso de antemão. «Megadeth» é o décimo sétimo e último álbum de estúdio da banda, produzido por Dave Mustaine e Chris Rakestraw, lançado a 23 de janeiro de 2026, e acompanhado pela digressão de despedida do grupo. Quarenta e três anos de carreira concentrados num ciclo final que o Sr. Mustaine tem descrito exactamente com a mesma determinação pragmática que sempre o caracterizou.
O alinhamento que os MEGADETH têm apresentado na tour de despedida é bastante revelador das suas prioridades neste capítulo final. A abertura de tournée revelou um alinhamento muito orientado para os clássicos, com temas como «Hangar 18», «Sweating Bullets», «Countdown To Extinction», «Symphony Of Destruction», «Peace Sells» ou «Holy Wars… The Punishment Due». Quem quer que tenha sempre adiado este encontro com a banda não terá outra oportunidade — pelo menos não nestes termos.
Por sua vez, o regresso dos MASTODON a Lisboa tem uma nota agridoce que não pode ser ignorada. Esta é a primeira vez que o grupo se apresenta em solo nacional sem o ex-guitarrista Brent Hinds, que abandonou o projecto em Março de 2025 e morreu subitamente num acidente de viação em Agosto. Há, por isso, uma dimensão de homenagem implícita nesta visita — e será curioso perceber como a banda, ao vivo, carregará esse peso.
Não menos importante, o EVILLIVƎ assinala o fim de um hiato de dezassete anos desde que os THE GATHERING deram um concerto em Portugal, regressando com a sua mais famosa vocalista, Anneke van Giersbergen, ao leme. Para quem cresceu a ouvir «Mandylion» ou «Nighttime Birds», a presença destes músicos no cartaz tem o peso das coisas que já não esperávamos ver acontecer.
Mais de três décadas depois de terem começado, os CONVERGE continuam a ser uma das presenças mais exigentes e menos conciliadoras de qualquer cartaz em que participam. Os norte-americanos trazem ao EVILLIVƎ toda aquela intensidade que os tornou uma das bandas mais respeitadas da cena hardcore mundial, com um legado construído desde 1990 assente na autenticidade, na energia avassaladora e numa abordagem musical desafiante — em particular desde «Jane Doe», um marco incontornável da música extrema contemporânea.
A iniciar as hostilidades, os suecos IMMINENCE estreiam-se finalmente em Portugal. Considerados um dos nomes mais relevantes da nova geração do metal europeu, com uma abordagem que distingue pela fusão de metalcore moderno com ambientes cinematográficos e pela utilização do violino como elemento central da sua identidade artística, os músicos chegam ao nosso país na hora certa, e num palco que lhes exigirá afirmação perante um público que, em grande parte, vai descobrir nesta noite.
Feitas as contas, há algo que este cartaz revela sobre o papel que Lisboa tem vindo a conquistar no circuito europeu da música pesada. O regresso ao formato de um único dia, na MEO Arena, é descrito pela organização como a recuperação de uma fórmula que moldou a identidade do evento e consolidou a sua reputação: uma experiência concentrada e tecnicamente irrepreensível.
A escolha não é só logística. Num ano em que o calendário lisboeta está, segundo a própria organização, excepcionalmente congestionado, concentrar tudo numa noite — e noutra de warm-up — é também uma declaração sobre o que o EVILLIVƎ quer ser: não o maior, mas o mais preciso.
Os bilhetes para o EVILLIVƎ custam entre 75 e 79 euros. O warm-up tem bilhetes a partir dos 45 euros. Não há muitas ocasiões em que esta aritmética faça tanto sentido.







