Joey Tempest falou à LOUD! sobre «Come This Madness», o processo criativo dos EUROPE, a colaboração com músicos dos Opeth e Ghost, os 40 anos de «The Final Countdown» e a possibilidade da banda regressar finalmente a Portugal para um concerto em nome próprio.
Nove anos depois de «Walk The Earth», os EUROPE estão de regresso com «Come This Madness», o seu 12.º LP de estúdio e um dos registos que mais entusiasmo parece estar a provocar dentro da própria banda. Produzido por Tom Dalgety, o disco nasceu de um processo longo e meticuloso, iniciado ainda durante a pandemia e alimentado por anos de composição, reescrita, arranjos e gravações. Longe de procurarem repetir uma fórmula, os suecos continuam a privilegiar a evolução. O resultado é um LP que Joey Tempest, o inimitável cantor dos EUROPE, acredita poder juntar duas características raras: impacto imediato e capacidade para crescer com o passar do tempo. “Este pode muito brm vir a ser um dos nossos álbuns mais marcantes“, admite o vocalista.
Musicalmente, «Come This Madness» recupera algumas das preocupações que já atravessavam «Walk The Earth», sobretudo no plano lírico, mas leva-as a um território mais amplo, com recurso a arranjos orquestrais e cordas reais gravadas em Estocolmo. Pelo caminho, surgiram ainda participações de Mikael Åkerfeldt, dos Opeth, e Tobias Forge, dos Ghost.
Agora, com os EUROPE a prepararem uma extensa digressão que assinalará os quarenta anos de «The Final Countdown», Joey Tempest conversou em exclusivo com a LOUD! sobre o novo LP, a longevidade da banda e a relação com um passado que, apesar de inevitável, não impede o grupo sueco de continuar a olhar para a frente. E há uma possibilidade que merece ser particularmente destacada: Portugal está no radar do vocalista para uma paregem na eventual digressão europeia a decorrer no próximo Outono.
O «Come This Madness» é mais um excelente disco dos EUROPE, mas vocês nunca fazem o mesmo disco duas vezes.
É verdade.
Alguma vez te sentiste tentado a repetir uma fórmula só para tentares simplificar as coisas?
Bem, na verdade não, mas podíamos repetir o método de como é feito. Por exemplo, os dois discos que fizemos com o Dave Cobb, o «War Of Kings» e o «Walk The Earth», tiveram formas semelhantes de acontecer e de ganhar vida. No entanto,, musicalmente, são ligeiramente diferentes, embora sejam semelhantes na abordagem que lhes demos.
À excepção disso… A única coisa que podemos repetir é trabalhar com o mesmo produtor outra vez, mas não dizemos “vamos fazer as mesmas canções” ou “vamos ter o mesmo som”. Se gostarmos de um produtor, tentamos ficar com ele durante alguns álbuns, mas é só isso.
E neste disco, trabalharam com o Tom Dalgety, que já colaborou com excelentes bandas. Como correram as coisas?
Foi muito bom. Ontem estava a dizer que todos os jornalistas gostaram do disco e do som. Tom, fizeste um trabalho incrível! E ele foi um absoluto prazer. Tornou-se quase um membro da banda, de certa forma, porque nós queríamos estar a trabalhar arduamente na produção, nos arranjos e nas maquetas ao longo dos anos. Queríamos ter o nosso tempo. E ele também é um perfeccionista, por isso correu muito bem.
Ele começou por ouvir as maquetas, e disse-nos logo para refazermos tudo, por isso fizemos outro monte de maquetas. E, quando fazes isso, surgem coisas novas, escreves, mudas e corriges. Depois fomos para estúdio e, mesmo depois disso, ainda houve várias edições. Trabalhámos mesmo muito neste disco, mas também estamos muito orgulhosos dele. É por isso que também gosto muito de fazer a promoção, porque não achava ser possível, nesta fase adiantada da nossa carreira, fazer um álbum como este, que pode vir a ser um dos nossos álbuns mais marcantes. Ou seja, há alguns álbuns que se destacam, mas este também pode ser um desses. E isso é incrível a esta altura.
Normalmente, esses álbuns levam bastante tempo a ser apreciados. Provavelmente precisam de dez ou vinte anos até serem percebidos na totalidade.
Tens razão, sim.
Achas que, neste caso, poderá haver um efeito mais imediato? Li algumas críticas e são muito unânimes a pontuar este álbum bastante alto. Ao ouvi-lo, não há nada a apontar, é um disco incrível. Pode vir a ser um sucesso mais imediato do que, por exemplo, «Walk The Earth», em que as pessoas talvez precisem de dez anos para voltar a ouvir o disco e dizer “sim, tem aqui grandes canções”?
Esse é, efectivamente, um bom ponto de vista. Mas os maiores discos têm ambas as coisas: têm um apelo que pode acontecer de imediato, mas também têm um apelo a longo prazo. E acho que este é um desses álbuns.
Eu gosto de ouvir alguns álbuns dos EUROPE — consigo pôr o «Bag Of Bones» a tocar, consigo pôr o «Wings Of Tomorrow» só por diversão. Consigo ouvir um bocadinho do «Last Look At Eden», mas por norma não ouço os álbuns dos EUROPE em casa.
Mas este… Tento distanciar-me, mas consigo pô-lo a tocar. Ponho a «Come This Madness», ponho a «Scandinavian Eyes» e fico com arrepios. Portanto, consigo distanciar-me da música e ser apenas um ouvinte. A produção é óptima, a composição e os riffs também. Portanto, estou realmente a gostar de ouvir este disco. Adoro isso.
E há quanto tempo estavam a trabalhar nas canções para o «Come This Madness»?
Começámos a escrever logo durante a pandemia. Falei com o pessoal todo e disse-lhes que, como não podíamos voltar à estrada, o melhor seria começar do zero. “Vamos começar do início”, disse-lhes. E, depois, sentei-me em frente à televisão, como costumava fazer, a ver as notícias, porque gosto de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Liberta um pouco o cérebro, liberta a mente… e depois gravo tudo.
O título «Come This Madness» surgiu disso, de olhar para as notícias quando a COVID-19 apareceu. E também acabou por servir para construir sobre «Walk The Earth», que era para ter sido um álbum conceptual logo de início. Eventualmente abandonámos a ideia porque também queremos ser uma banda de rock de entretenimento; não podemos ser tão sérios ao ponto de fazer um álbum conceptual. Mas tínhamos começado a fazer pesquisa sobre a democracia, a ir buscar as origens à Grécia antiga, ao Reino Unido com a Magna Carta, à Revolução Francesa e a tudo isso. Falei com professores de história e íamos aprofundar o tema.
Mas o que é interessante é que já tínhamos essa ideia de que a democracia estava a ser distorcida. E agora o «Come This Madness» é uma espécie de resposta a esse disco, a confirmar que sim, que está distorcida e a ser mal usada. Portanto, no que toca às letras, estou a dar continuidade ao «Walk The Earth».
E, musicalmente, tem sido incrível ter todos estes riffs do Mic e do John Leven. Eu fico em casa a trabalhar neles, e o Mic fez arranjos orquestrais lindos para a «One On One», para a «Scandinavian Eyes» e para a «Absence Of Grace». Usámos cordas reais em Estocolmo. Há uma profundidade e uma camada dxtra no álbum nesse sentido. E nas letras também; acho que amadurecemos liricamente, o que é bastante bom.
Pareces entusiasmado a falar sobre isso. O processo foi entusiasmante e continua a ser algo que te entusiasma?
Sim, eu não consigo escrever na estrada. E nós não escrevemos na estrada, já tentámos e somos péssimos nisso. Entramos em modo de digressão. Imagina só: já tentámos ter a equipa técnica a carregar equipamento de gravação para os nossos quartos de hotel e depois nem o usávamos! Tentámos, mas não conseguimos escrever. Por isso, quando estamos em casa, como aconteceu durante a pandemia ou no intervalo entre digressões, enviamos coisas uns aos outros.
Duas das ideias que gravámos para este disco são antigas: a última canção, «Nothing Can Follow This», é uma ideia muito antiga. E a balada «This Time Of Year» também. Eu e o Mic costumamos encontrar-nos para fazer jams. Eu toco bateria e canto, ele toca teclados. Dizemos apenas “um, dois, três” e tocamos o que nos apetecer. Depois gravamos horas e horas. Escrevemos a «Carrie» assim também; numa jam depois d e um ensaio. Escrevemos a «Walk The Earth» assim também, apenas a fazer jams. Mas depois, obviamente, desenvolvemos e trabalhamos as ideias mais a fundo.
Tanto a «Nothing Can Follow This» como a «This Time Of Year» são ideias mais antigas que tivemos a sorte de finalizar, porque adoro ambas. Graças ao tempo extra, pudemos trabalhar e viver com estas canções. Foi muito agradável ter esse tempo adicional.
Algumas bandas perdem aquela faísca inicial , quando começam a trabalhar e a retrabalhar as canções porque tendem a exagerar no trabalho sobre a música.
Sim, eu sei o que queres dizer. Isso pode acontecer se não evoluíres e se tiveres apenas um ou dois compositores. Se tiveres três ou quatro compositores como nós, sobretudo desde a entrada do Tom, toda a gente mantém o processo fresco. Os trechos orquestrais para a «One On One» e para a «Scandinavian Eyes» foram adicionados mais tarde, por exemplo. Portanto, as coisas estão sempre a desenvolver-se e isso mantém-nos entusiasmados.
Mencionaste a «Nothing Can Follow This», na qual cantas algo como “há algumas pessoas por aí que acham que ainda há algo de bom neste mundo”. És uma dessas pessoas?
Sim, acho que sou. E acho isso porque a minha mãe era muito positiva. O meu pai era determinado, mas calado, ms a minha mãe era mesmo muito positiva e acho que herdei isso dela. Por outro lado, também não gosto de escrever discos pirosos, muito melosos e bonitinhos. Acho que é bom ter alguma densidade e substância, mas também quero trazer automaticamente algo de positivo.
Falaste em ver as notícias e, nos dias de hoje, é um bocado difícil ser positivo.
Isso é verdade, mas como artista também tens de te distanciar das notícias… E é aí que está o truque. Se te tornares muito emotivo, não consegues funcionar como artista, porque o artista precisa de fazer a canção funcionar. Eu trabalho sempre para a canção, sou empregado da canção, preciso de a tornar excelente. Portanto tens razão: se eu me aproximasse demasiado das letras, seria difícil terminá-las. Tenho de manter uma certa distância aí também.
Neste disco contaram com a participação do Mikael, dos Opeth, e do Tobias, dos Ghost. Tu participaste no último disco dos Opeth, não foi?
Sim.
Como é que isso aconteceu? Foi do género “OK, eu participo no teu disco e tu participas no meu”?
Um bocadinho, sim… O Mikael fez um gutural curto na «Scandinavian Eyes», e fixou incrível. Fui eu que lhe pedi para fazer isso, e, provavelmente, disse que sim porque cantei no disco dele há uns anos… [pausa] Nós estávamos a gravar na Suécia, no estúdio do Benny Andersson, que tem uma mesa Neve excelente. Nós vamos sempre para onde há uma boa mesa e eles souberam que nós estávamos lá, por isso apareceram por lá para ouvir o que estávamos a fazer
Tanto o Mikael como o Tobias estavam muito curiosos, e queriam ouvir as canções, por isso apareceram lá e acabaram por passar o dia todo connosco. Depois de um tempo, perguntámos-lhes se se importavam de fazer uns coros de fundo e eles aceitaram, por isso acabaram por cantar em três ou quatro faixas. Foi só isso que aconteceu. Não foi uma colaboração formal, mas estiveram a conviver connosco e acabaram por cantar um bocadinho no disco.
Falaste de uma mesa de som muito específica: esse equipamento analógico ainda é o melhor para conseguir um bom som? A tecnologia evoluiu bastante; hoje em dia podes literalmente gravar um álbum em casa e fazê-lo soar bem.
A minha visão é que, se estás no mundo do rock e podes gravar a bateria da forma tradicional, tal como a guitarra, o baixo e as vozes, e passá-los por uma boa mesa — uma Neve dos anos 70, no nosso caso — é o melhor. Nós gostamos desse som quente. Depois podemos passar tudo para o Pro Tools ou para o Logic, não há problema; podemos terminar o processo num meio digital, está tudo bem. Mas passar primeiro pela Neve é importante para nós. Achamos que é a melhor forma de tratar o rock’n’roll.
E com este álbum vem uma nova digressão, e o 40.º aniversário de «The Final Countdown».
Eu sei.
Como te sentes ao olhar para trás, para esse disco, e ver que continua a ser tão importante? Imagino que será algo que nem nos vossos sonhos mais loucos pensavam que um dia iria acontecer.
Nem de perto. Em 2002, quando nos reunimos, tivemos a sorte de ter dito que íamos tentar fazer disto algo a longo prazo. E aqui estamos, conseguimos fazer isso. Mas esse disco foi o nosso terceiro álbum. Assinámos com a CBS com esse álbum. Foi quando começámos a fazer concertos maiores. É um grande momento na carreira da banda nesse sentido. Fomos uma das maiores bandas do mundo durante um momento.
É incrível poder dizer isso, sem dúvida, mas também houve muitas coisas exageradas, com demasiados espectáculos em playback e promoção em excesso. O pessoal não gostava disso, eles queriam era ver-nos tocar ao vivo. Portanto, também houve essa parte desse período que foi um bocado mais chata. Hoje em dia é muito mais fácil. Quer dizer, é um privilégio poder falar assim do novo álbum.
Antigamente podíamos ir para digressões de promoção durante três semanas e fazíamos programas de televisão todos os dias, dez sessões fotográficas e dez entrevistas por dia durante três semanas. E os músicos ficavam tipo “que diabo estamos nós a fazer? Isto não está certo“. Por isso, foi uma fase bizarra. Mas fazer parte dessa era em que a música era tão importante, de uma forma em que os engenheiros, produtores, compositores e músicos a levavam tão a sério e trabalhavam tanto… foi uma grande era. As editoras estavam muito focadas e trabalhavam de uma certa forma. Hoje trabalham de tantas maneiras diferentes, é tão distinto. Mas ter feito parte disso é incrível.
Lembro-me de quando esse disco saiu: eu tinha onze anos e estava na escola. Num dos primeiros dias de aulas, a professora perguntou de que bandas gostávamos. Lembro-me disto como se fosse ontem: era quase 50/50, dividido entre os EUROPE e o Michael Jackson.
Ok!
Toda a gente dizia EUROPE ou Michael Jackson. E eu fiquei tipo “bem, o que posso dizer? Ouço ambos.” Mas acabei por dizer IRON MAIDEN, só para ser diferente.
Essa foi uma boa escolha, diria eu.
Os anos 80 foram incrivelmente fantásticos para a criatividade musical.
Pois foram, sem dúvida alguma. Os compositores levavam as coisas mesmo a sério e desenvolviam-se. Suponho que alguma da música tenha sido subproduzida ou sobreproduzida com o equipamento digital que entrou tão depressa. Agora já sabemos como lidar com o mundo digital, mas em alguns discos o som podia soar um bocado fino por causa da tecnologia digital. Em Inglaterra, lembro-me de que era hard rock ou Depeche Mode; havia essa separação, o que é um bocado louco.
Falámos há uns anos numa entrevista e abordámos a canção «The Final Countdown». Nessa altura perguntei-te se alguma vez tinham pensado em tirar a canção do alinhamento dos vossos concertos. E tu disseste-me que houve uma altura em que iam tirar a canção e tudo o que podia ter corrido mal nesse dia, correu.
Sim, foi isso mesmo! Íamos tocar no Download pela primeira vez e correu tudo mal. A caminho de lá, decidimos: “Vamos tirar a «The Final Countdown» do alinhamento. Vamos ter mais cobertura na imprensa se a tirarmos do que se a tocarmos.” Essa era a filosofia.
O nosso agente de imprensa na altura estava a suar em bica! Quando nos ouviu falar sobre isso no autocarro ficou tipo “oh não, não façam isso!”. No fim. nem conseguimos tocar porque estava a chover, havia trânsito… e várias bandas tiveram de cancelar. Quase conseguimos: a equipa correu para o palco, mas nós não chegámos a tempo de tocar. A equipa chegou, mas nós não.
Ficou associado a uma espécie de maldição!
Sim! Não podemos voltar a fazer isso.
E para esta digressão, quantas canções novas achas que vão tocar?
Aponto para três. Com sorte, talvez mais uma. Mas vamos ter de tocar canções novas, depois teremos de tocar algumas das nossas favoritas e depois fazemos o álbum «The Final Countdown». Portanto, vai ser um espectáculo incrível e abrangente. Mas acho que vamos tocar mais canções deo «Come This Madness» no próximo ano.
E estão a planear uma segunda fase da digressão pela Europa?
Adoraria fazer isso no próximo outono. E, de momento, a ideia é mesmo essa. Não posso prometer nada, mas adoraria — ou melhor, adoraríamos, na banda — fazer uma digressão focada no «Come This Madness». Espero que o consigamos fazer.
E começámos por falar de concertos em Portugal. É o único sítio onde faltam espetáculos em nome próprio. Quero dizer… eu sei que, no fim de contas, depende dos promotores.
Pois é.
Tudo se resume a um promotor fazer a proposta certa para essa digressão para vocês virem tocar, mas há mais alguma coisa que nós, como fãs, possamos fazer para isso acontecer?
Bem, vou guardar esta conversa na memória, porque vamos começar agora. Há alguns concertos em França em que dizem haver promotores interessados para o próximo Outono. Há outros países a mostrar algum interesse. É um processo muito lento, mas vou lembrar-me de Portugal. E seria fantástico se conseguíssemos incluir o país nessa rota de Outono. Espero mesmo que sim.





