EPIC FEST

EPIC FEST: Dia 1 | 10.04.2026 | Roskilde, Dinamarca [reportagem]

Se o power metal tivesse um céu, certamente seria o EPIC FEST em Roskilde, na Dinamarca.

Na sua quarta edição em Roskilde, o Epic Fest consolidou-se como um evento inclusivo que faz lembrar convenções estilo comic con onde aparecem cosplayers vestidos de elvos ou guerreiros vikings, e onde decorrem torneios de Magic: The Gathering. Não faltou hidromel e martelos insufláveis, com o festival a reunir fãs de todo o mundo, do Japão, a Portugal e Espanha, passando pelo Canada, Brasil e outros países da América Latina.

O evento decorre no centro de congressos de Roskilde e na sala Gimle, a aproximadamentre 15 minutos a pé da principal estação de comboios. O esforço da organização foi visível para apresentar uma estética mais medieval num pavilhão, que tem tudo menos ar de castelo e albergava dois palcos: The Realm Of Might & Magic, que era o palco principal e onde tocaram as bandas de nome maior, e o King Roar’s Hall, numa sala bem mais pequena que a principal, mas que recebeu grandes actuações. No Gimle, tocaram as bandas mais pequenas, mas nem por isso com actuações menos interessantes.

O primeiro dia de Epic Fest começou com ANGUS MCSIX com uma formação completamente renovada e que traziam na bagagem o mais recente «Angus McSix And The All-Seeing Astral Eye». Samuel Nyman é o novo vocalista, que se apresenta como Adam McSix, e o concerto foi visualmente de encher o olho, com lasers, bolas de sabão e até um T-Rex em palco. No entanto, a banda abusou de faixas pré-gravadas e, a certa altura, parecia mais uma sessão de karaoke de luxo do que um concerto. Verdade seja dita, não deixou de ser uma actuação competente e divertida, que contou com Giacomo Voli, dos RHAPSODY Of FIRE, no tema «I Am Adam McSix».

Os DRAGONY subiram ao palco do King’s Roar e a falta de rotina entre os músicos pareceu demasiado óbvia, com a actuação a revelar-se um pouco insípida. A nova vocalista Maria Nesh esforçou-se, mas ao fim de alguns minutos tornou-se tudo mais do mesmo. Valeu-lhes o público conhecedor e temas como «Wolves Of The North» ou o mais recente «Beyond The Rainbow Bridge», que fechou a actuação.

Já os noruegueses SIRENIA apresentaram-se no palco de forma bem simples, sem grandes adornos a não ser as runas de esferovite que enfeitaram o palco durante todas as actuações do Epic Fest. A banda liderada por Morten Veland anda a celebrar 25 anos de existência, mas o pouco entusiasmo em palco desmotivou o público presente e, apesar de Emmanuelle Zoldan se ter esforçado, foi difícil compensar a postura amorfa dos restantes músicos.

Apesar de ser Abril, na primeira viagem ao Gimle, os italianos TRICK OR TREAT trouxeram a alegria do Halloween ao Epic Fest. Com Fantasma em cada lado do palco e um doce insuflável que percorreu o público durante «Evil Needs Candy Too», apesar de alguns problemas de som, a banda deu um bom concerto, com o público muito participativo.

Alessandro Conti mostrou-se em grande forma vocal — apesar de ter um tablet à frente com as letras, algo que voltou a repetir no dia seguinte quando subiu a palco com os TWILIGHT FORCE. O foco foi o mais recente álbum «Ghosted», com o tema título a mostrar a potência vocal de Conti, mas também «Bloodmoon» foi outro tema que se destacou e, claro, ainda houve tempo também para a versão de «Girls Just Want To Have Fun», de Cyndi Lauper.

Voltando à sala principal, os RHAPSODY OF FIRE foram os grandes vencedores do primeiro dia de Epic Fest. O grupo deu um concerto soberbo, apoiado na técnica vocal impecável de Giacomo Voli. Clássicos como «Emerald Sword», no encerrramento, ou «March Of The Swordmaster» destacaram-se, mas com o tema «Unholy Warcry» a provocar os primeiros moshpits do festival, os italianos reafirmaram o estatuto como os pioneiros do metal sinfónico.

Voli acabou por se juntar ao público para o mosh e, mais tarde, até para um crowd surf onde, depois de regressar a palco,“alguém” se aproveitou para o “apalpar mais do que devia”, segundo desabafou em tom de brincadeira. «The Magic Of The Wizard’s Dream» foi um excelente momento, ao ouvir-se a voz de Sir Christopher Lee juntamente com Giacomo Voli; e, como seria de esperar, «Dawn Of Victory» e «Land Of Immortals» levaram o público, sempre ansiosa pelos “velhos” clássicos dos RHAPSODY, ao rubro.

Os franceses FAIRYLAND regressaram aos palcos passados 16 anos e, apesar dos problemas técnicos no início da actuação e da falta de rotação em palco, deram um bom concerto perante uma plateia cheia de gente que ansiava por este regresso por parte da banda, agora com Archie Caine na voz. Pese a morte do fundador Philippe Giordana, em 2022, o grupo voltou às edições em 2025 com «The Story Remains» e foi precisamente ao som de «To Stars and Beyond», desse mais recente álbum, que a banda deu início ao seu concerto no Epic Fest. Depois, foram intercalando temas novos com temas dos outros registos, com destaque para «Hubris Et Orbis» ou «Ride With The Sun».

Os ENSIFERUM pareciam um pouco deslocados no cartaz do Epic Fest, mas compensaram com uma entrega total em palco. Apesar de haver quem ainda não aceite a voz limpa do teclista falsete Pekka Montin, a verdade é que ele traz um pouco mais de “cor” à banda e «Rum, Women, Victory» animou as hostes, que tratou de entoar em uníssono temas como «One More Magic Potion», «Fatherland» e «Token Of Time». Maria Nesh, dos DRAGONY, juntou-se à banda finlandesa para «Scars In My Heart» e «Andromeda» foi outro dos momentos altos da actuação. A terminar, ouviu-se a inevitável «In My Sword I Trust».

A fechar a noite, estiveram os MASTERPLAN de Roland Grapow. A banda não passava na Dinamarca há duas décadas e tocou no festival no lugar dos Firewind. O que poderia ter sido visto como um “plano de recurso” revelou-se um regresso triunfal, servindo simultaneamente como missa da meia-noite e tiro de partida para a digressão europeia do novo álbum «Metalmorphosis».

Apesar de ser a primeira data da digressão, a banda mostrou conexão total em palco e com o público. É certo que Rick Altzi não é Jorn Lande, mas tem um timbre e potência para não deixar mal o catálogo dos MASTERPLAN. Com a base rítmica composta pelo baterista Marcos Dotta na e o baixista Jari Kainulainen (ex-Stratovarius), os músicos não deixaram créditos por mãos alheias e entregaram uma actuação mesmo muito sólida.

Optando por um alinhamento focado no material mais forte e clássico, e evitando apresentar algo menos conhecido ao público já cansado devido ao avanço da hora, os MASTERPLAN entregaram momentos de maior profundidade emocional com «Crystal Night» e «Crimson Rider», e Axel Mackenrott foi criando camadas para a precisão e virtuosismo de Grapow. «Crawling From Hell» fechou a excelente prestação, que só não foi a melhor do dia porque os RHAPSODY OF FIRE estiveram quase exímios.