ENSLAVED

ENSLAVED mergulham no simbolismo da natureza com o novo single «Tales Of Trees» [vídeo-clip]

O terceiro tema de avanço para «Mið» transforma as árvores numa metáfora para a condição humana, cruzando atmosferas de black metal, estruturas progressivas e a dimensão ancestral que continua a definir o universo dos ENSLAVED.

Há qualquer coisa de deliberadamente elementar no ponto de partida de «Tales Of Trees», o novo single dos ENSLAVED. As árvores. Seres vivos aparentemente imóveis, mas cuja existência atravessa gerações, alimenta mitos, sobrevive a incêndios e a intempéries e, acima de tudo, exige cuidado para continuar a crescer. Nas mãos dos noruegueses, porém, esse ponto de partida transforma-se rapidamente numa reflexão muito mais abrangente sobre a fragilidade, a resistência e a própria natureza da mente humana.

O tema surge agora como o terceiro avanço de «Mið», o 18.º álbum de estúdio dos ENSLAVED, que tem data de edição a 30 de Outubro através da Nuclear Blast Records. Já depois de «Solar Will» e de «Spirit Helper», esta nova canção oferece mais uma amostra da direcção que a banda pretende explorar no seu mais recente longa-duração. A ideia é explicada por Grutle Kjellson, o vocalista e baixista da banda, que começa por reconhecer o significado mais literal do título, antes de o expandir para um território simbólico. “A «Tales Of Trees» é, de facto, sobre árvores, mas talvez não principalmente num sentido botânico“, atira ele.

Para Kjellson, a existência de uma árvore encerra um paralelismo evidente com a condição humana. Crescer, florescer e irradiar vida são apenas algumas das possibilidades; também existem o declínio, a destruição e a necessidade permanente de cuidado. É essa dualidade que está no centro da canção. “As árvores podem crescer, brilhar e florescer, mas também podem definhar e arder. Precisam de ser cuidadas e tratadas de uma forma ou de outra e, por isso, servem como um paralelo adequado para a mente humana, quanto mais não seja para a humanidade como um todo.“

Esse simbolismo não fica, contudo, limitado só à comparação entre o mundo vegetal e a psicologia. As árvores ocupam um espaço recorrente na mitologia e no folclore de diferentes culturas, algo particularmente significativo para uma banda como ENSLAVED, que explora as tradições e imaginários do Norte da Europa há décadas. Não estranhamente, em «Tales Of Trees», esse património ancestral parece surgir menos como uma reconstrução histórica e mais como uma matéria-prima para falar do presente.

Aliás, a própria composição musical acompanha essa abordagem. Ivar Bjørnson, guitarrista e um dos principais arquitectos da identidade dos ENSLAVED, destaca a relação entre os ritmos da música tradicional e o espírito exploratório do rock progressivo. “A «Tales Of Trees» pode ser simultaneamente uma homenagem aos nossos parentes de madeira neste planeta — que tiveram bastante paciência connosco — e uma metáfora para muito mais“, diz Ivar, que aponta ainda as “assinaturas temporais sinuosas” da música folk e o espírito aventureiro do prog clássico como ingredientes naturais da sua escrita. São elementos que, segundo o guitarrista, encontram nesta composição um espaço particularmente adequado para coexistirem.

Verdade seja dita, os ENSLAVED parecem descobrir novas formas de se reinventarem a cada etapa. Trinta e cinco anos depois de Ivar Bjørnson e Grutle Kjellson terem formado a banda em Bergen, a formação norueguesa continua a expandir os limites da sua linguagem, ao mesmo tempo que recusam ficar confinados às fronteiras do metal que ajudaram a transformar.

O título «Mið», palavra em nórdico antigo que significa “centro” ou “meio”, não foi escolhido ao acaso. O conceito do álbum parte precisamente da ideia de um eixo, de um ponto central a partir do qual tudo se expande. É o centro enquanto origem, mas também enquanto lugar de passagem, transformação e possibilidade. Mais do que olhar simplesmente para o passado ou para o futuro, os ENSLAVED parecem interessados no espaço intermédio — no momento presente e nas forças que nele convergem.

Essa ideia prolonga uma preocupação temática que atravessa boa parte da obra mais recente da banda. Após «Utgard», lançado em 2020, e de «Heimdal», de 2023, ambos discos fortemente marcados pela mitologia nórdica e por uma exploração de estados de transição, «Mið» surge como uma espécie de novo ponto de partida. Só que, neste caso, o destino parece ser menos importante do que o próprio acto de procurar.

Como mencionado anteriormente, o novo single sucede a «Solar Will», o segundo tema de avanço retirado do novo disco e uma composição que parece condensar vários dos elementos que têm definido a identidade dos ENSLAVED ao longo das décadas: peso, uma atitude bastante progressiva, atmosferas de natureza quase transcendental e uma ligação profunda à mitologia e às tradições nórdicas.

Para Ivar Bjørnson, guitarrista e um dos fundadores dos ENSLAVED, a inspiração para o novo single, disponível para escuta no player, nasceu de uma imagem tão primordial quanto poderosa: o Sol enquanto entidade simultaneamente criadora e destruidora. “O Sol é um pai ou uma mãe nutritiva e aterradora, capaz tanto de conceder como de obliterar completamente a vida”, diz ele. A partir dessa dualidade, Bjørnson procurou construir uma peça que estivesse à altura da dimensão quase divina do astro. O músico aponta para riffs clássicos e grandiosos, grooves de bateria à Bonham e explosões melódicas como elementos fundamentais para traduzir musicalmente essa “glória horrífica” do Sol.

O resultado é um tema que, segundo a própria banda, funciona simultaneamente como uma espécie de homenagem a uma centelha divina e como uma representação sonora do conceito central de «Mið»: um núcleo aparentemente delimitado, mas cuja influência se estende infinitamente.

A dimensão visual de «Solar Will» ficou novamente entregue à Kolibri Media, companhia sediada em Bergen que mantém uma relação de longa data com os ENSLAVED e que tem sido responsável por transportar para o domínio audiovisual algumas das atmosferas mais particulares da banda. No entanto, a dimensão conceptual do tema não termina na sua imagem solar. Nas palavras de Grutle Kjellson, vocalista e baixista dos ENSLAVED, a canção mergulha em conflitos arquetípicos e numa rivalidade retirada da mitologia nórdica, envolvendo duas figuras importantes do panteão que, apesar do peso simbólico, permanecem frequentemente à sombra de nomes mais conhecidos.

Kjellson optou deliberadamente por não identificar essas figuras, deixando essa descoberta para quem se aventurar pelas letras. A decisão está perfeitamente alinhada com uma das ideias que parecem atravessar «Solar Will»: a importância de uma interpretação individual e da capacidade da arte para provocar perguntas em vez de entregar respostas fechadas. O músico explica que a canção procura explorar precisamente essa ausência de uma conclusão definitiva.

Para os seres humanos, sugere, o caos e os sonhos podem ser tão importantes quanto aquilo que conseguimos apreender através dos sentidos. Em vez de procurar resolver as forças contraditórias que nos habitam, a canção defende a aceitação dessas tensões, a sua assimilação e, sobretudo, a possibilidade de lhes dar forma. É uma abordagem que diz muito sobre o momento actual dos ENSLAVED. Se os primeiros anos da banda foram marcados pela procura de uma identidade dentro de uma cena extrema em rápida transformação, a fase contemporânea parece cada vez mais interessada em questionar as próprias estruturas que sustentam essa identidade.

Formados em 1991 por Ivar Bjørnson e Grutle Kjellson, os ENSLAVED surgiram de uma Noruega onde o black metal estava a ganhar uma dimensão cultural e artística que ultrapassava largamente os limites da música extrema. Desde cedo, contudo, ficou claro que a dupla tinha ambições diferentes. A primeira demo, «Yggdrasill», surgiu no Verão de 1992, seguindo-se o lendário mini-álbum «Hordanes Land», em 1993. Um ano depois, na Primavera de 1994, chegaria «Vikingligr Veldi», o primeiro longa-duração e uma obra que ajudaria a estabelecer os ENSLAVED como uma das formações mais singulares daquela geração.

A partir daí, a história da banda seria construída através de uma sucessão de transformações. O black metal esteve sempre presente como matriz, mas os ENSLAVED nunca aceitaram tratá-lo como uma prisão estética. Metal e rock progressivo, psicadelismo, folk nórdico, atmosferas cósmicas, estruturas complexas e uma abordagem cada vez mais experimental foram sendo incorporados na sua linguagem sem que a banda perdesse a ligação à intensidade que esteve na sua origem.

É precisamente essa capacidade de evolução que torna particularmente impressionante a chegada da novidade «Mið». Aos 35 anos de carreira e depois de 17 álbuns, seria perfeitamente possível esperar uma banda a operar em piloto automático, confortável com uma fórmula consolidada e com pouco a provar. Os ENSLAVED, no entanto, continuam a comportar-se como músicos sempre em processo de descoberta. Cada nova fase parece nascer organicamente da anterior, mas sem se limitar a repeti-la. Há aqui uma linha de continuidade evidente, mas também uma vontade permanente de desafiar convenções — incluindo as suas próprias.

Em muitos aspectos, «Mið» parece funcionar como uma síntese das preocupações que têm acompanhado os ENSLAVED nestes últimos anos. O passado está presente através da mitologia e das tradições ancestrais; o presente surge como o ponto de encontro dessas forças; e o futuro permanece aberto, sem uma conclusão previamente determinada.

A ideia de “centro” assume, por isso, uma dimensão particularmente interessante. Não se trata de uma posição estática, mas sim de um eixo a partir do qual diferentes forças podem dialogar. O passado pode iluminar o presente, pequenos fragmentos de verdade podem adquirir uma dimensão universal e a intuição dos músicos pode transformar-se em matéria sonora através da confiança mútua. É também nesse equilíbrio entre composição e espontaneidade que a banda parece encontrar a energia do novo disco.

Os ENSLAVED descrevem «Mið» como um álbum construído a partir das harmonias e dos diálogos que existem à nossa volta — entre os modos antigos de compreender o mundo e aquilo que esses conhecimentos podem significar no presente, entre o particular e o universal, e entre os próprios elementos que compõem a banda. O resultado, que já está disponível para pré-encomenda no site da Nuclear Blast Records, promete ser mais que apenas outra etapa numa trajectória que, desde o início, se recusou a seguir uma linha recta. Com «Solar Will», os ENSLAVED abrem agora a porta para esse novo universo.

01. Non-Being
02. I Am Ice (featuring Johan Sara Jr)
03. Solar Will
04. Mountain
05. Spirit Helper (featuring Kevin Kicking Woman)
06. Parting
07. Tales of Trees
08. I Miðju