DEFTONES

DEFTONES: Tema de «Eros» e maquetas de «Ohms» alegadamente divulgadas online

O material, associado a um dos capítulos mais delicados da história dos californianos DEFTONES, está a gerar discussão entre os fãs, enquanto o grupo mantém o silêncio sobre a autenticidade das gravações.

Há muito que «Eros» vive no imaginário dos fãs dos DEFTONES como uma espécie de lenda urbana do metal alternativo: o álbum que existe, que foi gravado, e que um acidente de viação transformou num arquivo de silêncio. Nas últimas, esse silêncio parece ter sido brutalmente quebrado. Onze das canções atribuídas às sessões de gravação «Eros» surgiram num fórum online, sem qualquer aviso ou explicação, colocando as comunidades de fãs da banda de Sacramento em polvorosa.

Ao mesmo tempo, começaram a circular também demos para o nono álbum de estúdio dos DEFTONES, o «Ohms», de 2020 — incluindo um tema inédito intitulado «Sensations». Até ao momento, Chino Moreno e companhia não se pronunciaram publicamente sobre o sucedido.

A história de «Eros» é inseparável da noite de 4 de Novembro de 2008. As sessões de gravação do LP decorriam em Los Angeles, no estúdio The Spot, sob a produção de Terry Date, com o álbum estimado entre 75 a 80% completo musicalmente — mas apenas a meio do caminho em termos de letras. Nessa noite, o baixista e vocalista Chi Cheng sofreu um grave acidente que o deixou em estado de consciência mínima. Cheng permaneceu nesse estado durante vários anos, acabando por falecer em 2013.

A banda optou por arquivar o projecto e canalizou a dor para o que viria a ser o «Diamond Eyes», de 2010 — um disco de luto sublimado, mais luminoso do que qualquer coisa que os DEFTONES tinham feito antes. «Eros» ficou para trás, envolto em melancolia e respeito tácito. Para os fãs, o disco adquiriu um estatuto quase mitológico: o “álbum perdido” dos DEFTONES por excelência.

Parte do fascínio reside, claro, no facto do disco conter algumas das últimas gravações de Chi Cheng. O baterista Abe Cunningham reconheceu essa curiosidade numa entrevista recente, admitindo que seria “bom para as pessoas ouvirem essas canções“, mas reconhecendo simultaneamente o peso emocional associado a esse período.

Entre o material agora alegadamente divulgado contam-se 11 gravações das sessões de «Eros», incluindo «Smile», a única faixa que a própria banda alguma vez chegou a partilhar publicamente. De acordo com o user anónimo que partilhou as gravações, os temas aparentam ser maquetas em bruto ou versões em desenvolvimento, não masters de estúdio acabadas. Os títulos, que parecem ser ainda nomes provisórios, incluem «Destiny», «Brenda», «Melanie», «Margot», «Candy» ou «Briana» — são todos nomes próprios femininos, o que sugere uma coerência temática, ou simplesmente o hábito da banda de baptizar demos com nomes aleatórios durante as sessões de gravação.

Em 2016, Chino Moreno recordou as sessões de «Eros» com entusiasmo, descrevendo uma atmosfera de “grandes vibrações“, embora tenha admitido reservas quanto à qualidade geral do material comparado a discos posteriores. Em 2020, disse à NME que revisitar e completar «Eros» até podia ser “interessante em algum momento“, sem excluir definitivamente essa possibilidade. Mais recentemente, porém, afirmou que o álbum estava longe de estar terminado e que a banda preferia mantê-lo arquivado — o que torna este alegado leak duplamente sensível.

Juntamente com o material de «Eros», começaram também a surgir online as demos de «Ohms», o nono álbum de estúdio dos DEFTONES, lançado em Setembro de 2020 e produzido por Terry Date — no que, curiosamente, foi a primeira colaboração entre o grupo e o produtor desde as sessões de «Eros». Entre esse material encontra-se um inédito denominado «Sensations», que nunca chegou ao alinhamento do disco.

Alguns destes conteúdos já começaram a circular também no YouTube, embora a sua autenticidade não tenha sido confirmada e não se possa excluir a hipótese de alguns dos materiais terem sido manipulados ou fabricados com recurso a ferramentas de inteligência artificial.

O caso coloca em evidência uma tensão permanente na cultura musical contemporânea: a colisão entre a curiosidade legítima dos fãs e o direito dos artistas a controlarem o seu próprio legado. Ao contrário de outros arquivos que foram eventualmente recuperados e transformados em edições especiais — como aconteceu com material póstumo de Elliott Smith ou com as «Basement Tapes» de Bob Dylan —, «Eros» carrega uma camada adicional de dor humana que transcende qualquer argumento puramente estético.

Essa ambivalência resume bem a posição em que os DEFTONES se encontram agora: confrontados com material que sai do seu controlo, que remete para um dos momentos mais dolorosos da sua história e que a sua própria comunidade de fãs está a consumir com avidez — e com algum sentimento de culpa. Até ao momento do fecho deste texto, a banda não emitiu qualquer declaração pública.