DANZIG

«DANZIG II: Lucifuge» — Mais de três décadas de blues no Inferno

Há LPs que envelhecem bem. Há LPs que envelhecem mal. E há LPs que parecem ter sido gravados algures fora do tempo, numa encruzilhada sem luz — como esta obra-prima, que GLENN DANZIG e os seus cúmplices entregaram ao mundo a 26 de Junho de 1990.

Quando DANZIG editou o seu álbum de estreia, em 1988, havia algo de, simultaneamente, fascinante e inacabado naquele som. A promessa era enorme — a fusão de blues profundo, doom pesado e erotismo sobrenatural era uma ideia que poucos ousariam levar tão a sério quanto o ex-vocalista dos MISFITS. No entanto, foi preciso esperar pelo segundo álbum, apropriadamente intitulado «Danzig II: Lucifuge», para perceber o que Glenn Danzig tinha verdadeiramente em mente.

Editado a 26 de Julho de 1990 pela Def American Recordings, o disco representou um salto criativo raro: não apenas uma evolução natural, mas uma declaração de intenções inteiramente formulada. A produção cortesia de Rick Rubin tornou-se ainda mais densa, e ainda mais corpulenta também, e a banda revelou-se consideravelmente mais à vontade no seu próprio universo — o que, num grupo tão dependente de atmosfera e personagem como DANZIG, fez toda a diferença.

Trinta e cinco anos depois, o disco não perdeu uma gota de veneno.

O que distingue o «Danzig II: Lucifuge» de praticamente tudo o que foi feito antes ou depois no campo da fusão blues metal é a radicalidade com que os músicos abraçam as suas origens. Não se trata de uma citação académica dos Delta blues, nem de um exercício de nostalgia calculada — trata-se, isso sim, de uma reinvenção visceral, empurrada até ao limite do absurdo e do sagrado.

Os primeiros acordes de «Her Black Wings» são suficientes para perceber que algo aqui ecoa de forma bem diferente. A canção avança como um ritual lento, com aquela estrutura de riff que o próprio Glenn Danzig admitiu ter transposto de «Zero The Hero» dos BLACK SABBATH — um gesto de homenagem que, nas suas mãos, se transforma numa marcha erótica e ameaçadora. A óbvia referência a Tony Iommi torna-se inevitável, mas nunca parasitária: esta gente habita o mesmo espaço ancestral de uma forma que a maioria dos grupos de stoner doom nunca conseguiu sequer vislumbrar.

«Snakes of Christ», por sua vez, accelera o riff de «Twist Of Cain» — uma das peças mais fortes do álbum de estreia — e envolve-o em versos que têm tanto de cerimonial quanto de canção de taverna. E a «Lost Way Back from Hell», que abre o disco com um riff implacável, traz consigo toda a narrativa pantanosa do Louisiana, como se Robert Johnson tivesse vendido a alma não ao Diabo, mas directamente a Glenn Danzig.

Ainda assim, um dos aspectos mais surpreendentes de «Danzig II: Lucifuge» é a forma como a banda se deixa vulnerável sem nunca perder a compostura. Há momentos de desaceleração radical que poderiam soar a concessão comercial e que acabam por ser, paradoxalmente, os instantes mais reveladores do LP. «I’m the One» é o exemplo mais cristalino disso mesmo. Uma performance praticamente acústica, com um fingerpicking que cita o vocabulário de Robert Johnson, mas que Glenn Danzig transforma numa história de iniciação com ressonâncias demoníacas. Há aqui qualquer coisa de genuinamente folk, no sentido mais antigo e inquietante da palavra.

«Blood And Tears», por outro lado, é uma balada a sério — e pouco importa que a história de que Glenn Danzig a tenha escrito originalmente para Roy Orbison seja apócrifa ou não. O que conta é que a faixa funciona como tal: há uma sinceridade em sofrimento que escapa ao personagem e toca o intérprete. É um momento raro num disco de música pesada — a quebra de armadura que acaba por reforçá-la.

«Devil’s Plaything» e «777» trabalham a mesma técnica de construção por camadas, com segmentos um pouco mais suaves que alargam as estruturas antes de as deixar cair com todo o peso. E «Tired Of Being Alive» e «Pain In The World» — com os seus ritmos arrastados — deslizam para territórios que roçam o doom mais puro, aquele que não precisa de distorção excessiva para ser devastador.

Seria desonesto ignorar as tensões internas deste disco. Há momentos em que o teatro de Glenn Danzig excede os limites do que a música consegue suportar. «Killer Wolf» é, em dúvida, o caso mais flagrante. O riff é musculado, a progressão tem força — mas o cantor entrega-se a uma caricatura do bluesman de outrora que, à luz do dia, soa mais a fantasia de Halloween do que a evocação genuína.

«Girl» vai ainda mais longe na direcção oposta: com letra escassa e uma pronúncia arrastada que torna o próprio título da canção quase ininteligível e parece resolver a ausência de substância através do excesso de personagem. É possível que Glenn Danzig soubesse exactamente o que estava a fazer. É possível que não… Em qualquer dos casos, o resultado tem uma estranheza que nenhuma produção mais calculada conseguiria replicar.

Nos anos seguintes, muitos músicos tentaram capturar o som de «Danzig II: Lucifuge». Poucos chegaram perto. O blues metal — essa fusão de misticismo rural americano com o peso eléctrico do rock pesado — tem tido fãs dedicados ao longo das décadas, mas há algo no ADN específico de DANZIG que sempre permaneceu fora do alcance dos imitadores. Talvez porque o que está aqui em jogo não é apenas uma questão de estilo, mas de convicção.

Este é um daqueles raros álbuns funciona, mesmo nos seus momentos mais absurdos, porque existe uma crença fervorosa por trás de cada nota tocada — seja na força dos riffs de John Christ, na âncora rítmica de Chuck Biscuits e Eerie Von, ou na voz de Glenn Danzig, que tem tanto de bel canto rockabilly quanto de salmo invertido. A escuridão aqui não é decorativa. É estrutural.