CARCASS

CARCASS: «SWANSONG», o canto do cisne que ninguém quis ouvir

Há trinta anos, os CARCASS encerravam um ciclo com «Swansong», um disco que irritou os fiéis, surpreendeu os cépticos e ficou à espera que o tempo lhe fizesse justiça.

Corria o ano de 1996 quando Jeff Walker entrou numa sala em Liverpool e, com a secura que já na altura o caracterizava, disse que os CARCASS tinha chegado ao fim. Sem drama, sem despedidas épicas. Apenas o fim. O LP que anunciava essa dissolução chamava-se «Swansong» — e o título, claro, não era inocente. Hoje passam trinta anos desde que o disco foi editado, a 10 de Junho de 1996, pela Earache Records, e a sua história continua a ser uma das mais turbulentas, contraditórias e, em última análise, fascinantes da cena metal britânica.

Não por aquilo que o disco é, mas por tudo o que representa: uma banda a recusar-se a ser domesticada, a pagar o preço (alto) dessa recusa, e a deixar como legado um registo que o tempo tratou com bastante mais gentileza do que os seus contemporâneos.

A história de «Swansong» começa, paradoxalmente, com um sinal de sucesso. Na sequência do aplaudido «Heartwork», de 1993, o disco que transformou o CARCASS em referência incontornável do death metal melódico, a Columbia Records veio bater-lhes à porta. Era uma major. Era dinheiro. Era, para muitos, era a confirmação de que a banda de Liverpool tinha chegado a outro patamar. A parceria, assinada em 1994, durou pouco mais do que o tempo necessário para perceber que se tratava de um casamento impossível.

A Columbia queria canções mais comerciais — riffs mais acessíveis, estruturas mais redondas, e, no limite, a voz limpa de Jeff Walker a substituir o seu rosnado característico. Havia, nos corredores da editora, uma fantasia de que os CARCASS poderiam ser o próximo grande cruzamento entre o metal e o mercado mais mainstream.

A banda não cedeu. Com dezassete temas já compostos — número invulgar, e revelador da intensidade criativa do momento —, o quarteto recusou-se a continuar a escrever apenas para satisfazer os caprichos de executivos que, presumivelmente, nunca tinham ouvido um disco de death metal na vida. A Columbia retirou o apoio durante as sessões de gravação. Os CARCASS regressaram à Earache. E o resultado foi um álbum pago duas vezes pela mesma música — uma situação absurda que, ainda assim, teve a virtude de libertar a banda de qualquer obrigação que não fosse a de ser fiel a si própria.

Das dezassete composições originais, apenas doze chegaram ao disco. Algumas das faixas consideradas mais fortes ficaram de fora — uma decisão que ainda hoje alimenta a curiosidade dos fãs mais dedicados.

Seria simplista dizer que o «Swansong» soou como uma traição. No entanto, é verdade que, para uma parte considerável do público que seguia os CARCASS desde os tempos de «Reek of Putrefaction» e de «Symphonies Of Sickness», foi precisamente isso que sentiu. O death metal/grindcore pioneiro, os riffs desconstruídos, as letras que combinavam terminologia médica com grotesco deliberado — tudo isso tinha ficado para trás.

O «Heartwork» já tinha operado uma transformação radical, mas mantinha uma aspereza suficiente para ancorar os fiéis. O «Swansong» foi mais longe: nas estruturas mais abertas, dinâmicas mais controladas, e numa escrita lírica que, nas mãos de Walker, oscilava entre o sardónico e o francamente divertido. «Keep On Rotting In The Free World» — título que ecoava Neil Young com um sorriso torto — era o melhor exemplo dessa nova postura: irreverente, inteligente, e absolutamente desprovida do furor que tinha tornado a banda famosa.

No entanto, havia ali algo mais a acontecer do que uma simples suavização do som. O Bill Steer e o Carlo Regadas trocavam solos que ardiam com precisão técnica, construindo pontes entre o thrash e o metal a pender para o ultra melódico que raramente se ouviam com tanta fluidez. O resultado aproximava-se, em certos momentos, da gravidade tardia dos CORONER, ou até da elegância agressiva que os MEGADETH andavam a cultivar no início da mesma década.

«Tomorrow Belongs to Nobody» e «Child’s Play» são talvez os exemplos mais eloquentes dessa nova sensibilidade. São canções que respiram — que permitem ao ouvinte acompanhá-las, em vez de andar atrás delas. E, quando «Firm Hand» introduz guitarras acústicas, é como se os CARCASS quisessem deixar claro que já não havia linhas vermelhas, que a experimentação não tinha fronteiras estabelecidas por mais ninguém que não eles próprios.

O «Swansong» saiu com a dissolução da banda como pano de fundo. A falta de interesse de Steer pelo metal mais extremo — um desencanto que ele próprio nunca escondeu — pesava sobre o grupo como uma sentença. O guitarrista, fundador e arquitecto sonoro do CARCASS, tinha chegado ao fim da linha. A música que a banda fazia já não lhe dizia nada.

Para os fãs mais próximos, esta revelação foi quase mais perturbadora do que o álbum em si. O homem que tinha inventado aquele som, que tinha conduzido a banda desde o caos ruidoso do goregrind até à sofisticação melódica do «Heartwork», simplesmente já não queria saber. E o «Swansong» acaba por ser, nesse sentido, também um documento de ausência — um disco gravado à beira de um precipício, com toda a técnica intacta mas com o entusiasmo partido em algum lugar pelo caminho.

A recepção crítica foi, ainda assim, favorável. As vendas sustentaram-se durante os meses seguintes ao lançamento. Mas a narrativa dominante, especialmente nos círculos mais puristas do metal extremo, era mesmo a de um disco menor — uma concessão, um passo em falso, o capítulo que se prefere esquecer.

Ora bem, três décadas são tempo suficiente para rever veredictos. Hoje, o «Swansong» é ouvido com orelhas diferentes — como o trabalho de uma banda que, em vez de se repetir, decidiu ir até ao fim de uma ideia, mesmo sabendo que a ideia os afastaria dos seus seguidores mais fervorosos. O regresso dos CARCASS em 2010, culminado no excelente «Surgical Steel», de 2013, acabou por recontextualizar toda a discografia.

Os fãs que tinham rejeitado o «Swansong» regressaram com outros ouvidos, e perceberam que o disco — longe de ser uma capitulação — era, afinal, a expressão mais honesta do que esta banda era naquele momento preciso. E, claro, há uma ironia deliciosa no título escolhido. O canto do cisne é, por definição, a última e mais bela expressão antes do silêncio. Os CARCASS souberam nomear aquilo que estavam a fazer — e tiveram a coragem, ou a imprudência, de o fazer de forma magnífica.