AUTOPSY

AUTOPSY e «Mental Funeral»: o legado que redefiniu os limites do death metal

Mais de três décadas após o seu lançamento, o segundo álbum dos AUTOPSY mantém-se um ponto de viragem decisivo na linguagem do death metal, desafiando todas as convenções e recusando os compromissos com as tendências dominantes.

Há discos que consolidam fórmulas e outros que as desmantelam por completo. Quando os AUTOPSY editaram «Mental Funeral», a 22 de Abril de 1991, o death metal estava ainda numa fase de expansão acelerada, com bandas a competirem por níveis cada vez mais elevados de velocidade, agressividade e tecnicismo. Nesse contexto, o colectivo californiano escolheu um caminho distinto: desacelerar quando todos aceleravam, explorar o peso quando outros privilegiavam a intensidade constante, e construir uma identidade que se afastava deliberadamente de qualquer lógica de mercado.

Formados em 1987, os AUTOPSY estiveram presentes desde os primórdios do género e testemunharam a sua evolução em tempo real. Ainda assim, ao invés de seguirem uma trajectória previsível, optaram por aprofundar uma estética própria, marcada por uma crueza sonora e visual que rapidamente se tornou controversa.

A capa do disco de estreia, «Severed Survival», de 1989, já apontava nesse sentido, ao apresentar uma imagem suficientemente gráfica para ser censurada em várias edições posteriores. Verdade seja dita, esse gosto pelo grotesco não só persistiu como se intensificou ao longo dos anos, culminando em «Shitfun», de 1995, um disco que levou essa abordagem ao extremo antes da primeira dissolução da banda.

Essa recusa em suavizar a proposta artística estendia-se à própria composição. Enquanto a maioria dos seus contemporâneos apostava na velocidade constante como sinónimo de brutalidade, os AUTOPSY introduziram uma dinâmica assente em contrastes abruptos, alternando secções rápidas com passagens mais lentas e opressivas. Essa abordagem, hoje amplamente reconhecida, foi inicialmente recebida com estranheza pelo underground, mas acabaria por revelar-se fundamental para o desenvolvimento do death/doom enquanto linguagem híbrida.

No «Mental Funeral», essa visão atingiu um ponto de maturidade evidente. O álbum equilibra com uma precisão impressionante momentos de violência extrema com andamentos bem arrastados, criando uma tensão constante que mantém o ouvinte num estado de incerteza. Os riffs densos e repetitivos servem de base para melodias dissonantes que serpenteiam com morbidez pelas estruturas rítmicas, funcionando como elemento narrativo e ponto de ancoragem memorável. Faixas como «Slaughterday» ilustram essa capacidade de conjugar o peso e a melodia de forma orgânica, antecipando soluções que se tornariam comuns em gerações posteriores.

Importa sublinhar que essas incursões em territórios mais lentos não resultavam só de uma estratégia de contraste, mas também de influências directas do doom metal tradicional. Bandas como os TROUBLE ou os SAINT VITUS deixaram uma marca clara na abordagem dos AUTOPSY ao death metal, contribuindo a espaços para uma sonoridade difícil de replicar por grupos que, mais tarde, tentaram emular essa fusão sem partilhar o mesmo contexto de referências. Essa autenticidade é um dos factores que mais distingue este álbum de muitos dos seus sucessores.

Além do doom, a presença do punk é também determinante nos AUTOPSY. A simplicidade rítmica, a urgência das composições mais curtas e a estrutura directa de vários temas revelam uma herança que se afasta das raízes mais técnicas do death metal. Essa influência acabaria por tornar-se ainda mais evidente em projectos paralelos como os ABSCESS, mas já aqui desempenhava um papel central na eficácia do que esta gentalha andava a fazer.

No centro de tudo está, claro, a prestação de Chris Reifert, cuja abordagem à bateria e à voz contribui decisivamente para a identidade deste disco e dos AUTOPSY. O seu estilo percussivo, frequentemente descrito como rudimentar, acaba por revelar-se surpreendentemente eficaz na forma como atravessa a mistura sonora, conferindo impulso às composições sem as tornar excessivamente polidas. Em paralelo, o registo vocal alterna gritos, uivos e guturais profundos, criando uma presença que se fixa com facilidade na memória do ouvinte.

Apesar da recepção inicial dividida — com algumas críticas a apontarem para um alegado abrandamento em relação ao LP de estreia —, o «Mental Funeral» acabaria por afirmar-se como uma obra de referência. Hoje em dia, a sua influência estende-se muito para além do seu tempo, servindo de base para inúmeras abordagens posteriores dentro do espectro mais sombrio e arrastado do death metal.

Trinta anos depois, o disco continua a ser citado como um dos exemplos mais consistentes de como desafiar convenções sem perder identidade. Num género frequentemente associado à escalada de extremos, os AUTOPSY provaram que a verdadeira ruptura nem sempre está em ir mais rápido ou mais longe, mas em saber quando fazer exactamente o contrário.