«Cursum Perficio» não é só mais um capítulo administrativo numa carreira longa; é a confirmação, tranquilizadora e ao mesmo tempo genuinamente empolgante, de que os ANTHRAX ainda têm algo a dizer — e, sobretudo, ainda sabem como dizê-lo bem.
Há um pormenor que talvez explique melhor do que qualquer análise musical o que está em jogo em «Cursum Perficio»: o título, em latim, significa “a minha jornada terminou” em tradução livre — e nasceu de uma frase que o baterista Charlie Benante viu gravada num azulejo da casa de Marilyn Monroe, num documentário sobre a actriz. Segundo Benante, ao ver a expressão ficou imediatamente cativado pelo seu significado, embora tenha feito questão de sublinhar que a banda não está a anunciar o fim, apenas a fechar um capítulo que considera concluído. É uma ambiguidade deliberada, e talvez seja também a chave de leitura mais honesta para este décimo segundo álbum dos ANTHRAX.
O disco chega precisamente uma década depois de «For All Kings», o intervalo mais longo entre dois álbuns em toda a carreira dos ANTHRAX. Mas, ao contrário do que a demora possa sugerir, o processo não se arrastou tanto quanto parece à distância. Em entrevista recente, o guitarrista Scott Ian explicou que a escrita começou verdadeiramente no início de 2022, e que a cópia final do álbum só lhe chegou às mãos em Novembro de 2025 — o que perfaz cerca de três a quatro anos entre a composição, a gravação e a mistura. Produzido por Jay Ruston, o disco foi editado via Megaforce nos Estados Unidos e da Nuclear Blast na Europa.
Scott Ian já tinha, aliás, avançado uma comparação ambiciosa para descrever o resultado: o guitarrista e letrista dos ANTHRAX aproximou «Cursum Perficio» de «Among The Living», sustentando que, tal como esse disco histórico nasceu da evolução dos trabalhos anteriores da banda, também este é fruto directo daquilo que os ANTHRAX aprenderam com «Worship Music» e «For All Kings». Não se trata, portanto, de uma tentativa de regressar ao passado, mas de uma síntese consciente do percurso feito.
Se há uma frase capaz de resumir as expectativas à volta deste álbum, é a que o próprio Scott Ian proferiu sobre «The Edge Of Perfection». Em conversa com a Full Metal Jackie, o guitarrista afirmou tratar-se da melhor canção alguma vez escrita pelos ANTHRAX, sublinhando que a banda nunca tinha composto nada tão conseguido em toda a carreira. Mais tarde revelou que a letra é, no fundo, sobre a família e sobre o esforço de manter viva essa “aresta da perfeição” que lhe dá´título — uma confissão que confere à faixa um peso emocional pouco habitual no imaginário thrash mais tradicional.
O disco abre, de resto, de forma pouco previsível: não com um trovão de riffs, mas com «Persistence Of Memory», um breve instrumental construído sobre um piano desafinado e quase fantasmagórico, que ecoa a estética gótica presente na capa do LP. É uma escolha que já divide opiniões — para uns, um prenúncio eficaz do tom mais sombrio de «Cursum Perficio»; para outros, um desvio desnecessário ao ADN mais visceral da banda.
A verdade é que há uma frase que resume bem a distância percorrida pelos ANTHRAX desde os anos 80: já não escrevem temas sobre o Judge Dredd. Onde antes havia banda desenhada e ficção científica como matéria-prima, encontra-se hoje introspecção, o inevitável cansaço do mundo e uma espécie de esperança magoada. «Cursum Perficio», o décimo segundo álbum de originais da banda, é, por isso, um retrato sonoro dessa transformação — sem que isso tenha custado um grama da agressividade que sempre definiu o grupo de Queens.
Como mencionado, dez anos separam este disco do seu antecesso e esse intervalo diz muito sobre a forma como os ANTHRAX encaram hoje a própria carreira. Ao contrário daquelas bandas que sentem a obrigação de manter um ritmo editorial apertado, os nova-iorquinos sempre privilegiaram a qualidade em detrimento da quantidade — «Cursum Perficio» é apenas o quarto disco de inéditos em 25 anos.
A esse padrão habitual de parcimónia somaram-se, desta vez, circunstâncias que ajudam a explicar a demora: pandemia global que suspendeu a indústria da música ao vivo durante meses, e o facto de dois dos seus membros terem estado envolvidos noutros projectos entretanto ressuscitados — o guitarrista Scott Ian com os MR. BUNGLE, e o baterista Charlie Benante integrado na nova fase dos PANTERA. Não surpreende, por isso, que este regresso surja com o peso e a ponderação de quem não tinha pressa nenhuma em voltar.
E, pese a música (já lá vamos), se há um fio condutor que atravessa «Cursum Perficio», é a maturidade lírica. A faixa-título e «Everybody’s Got A Plan» partilham esse tom de observação desiludida mas nunca resignada perante o estado do mundo, com Joey Belladonna a emprestar-lhe uma voz que, décadas volvidas, continua notavelmente intacta. O ponto alto do disco, contudo, é «The Edge Of Perfection», uma composição de quase sete minutos que talvez seja a mais significativa da banda desde o regresso de Belladonna em «Worship Music».
A canção equilibra uma toada bombástica e melodia com uma destreza que cruza os ANTHRAX mais clássicos com uma escrita renovada, e a letra de Scott Ian confere ao disco uma profundidade emocional pouco associada, tradicionalmente, ao imaginário mais cartoonesco do thrash old school. Ainda assim, do ponto de vista sonoro, «Cursum Perficio» funciona como um mapa de texturas distintas, mais do que como uma sucessão de singles e “enchimento”.
Há o registo mais visceral e mais imediato — «It’s For The Kids» dispara com uma velocidade quase vintage e espírito talhado para o mosh pit, e essa urgência reaparece, ainda mais crua, em «NYC 93» e na desordem controlada de «Watch It Go», duas das faixas mais genuinamente surpreendentes do lote. No extremo oposto está o registo de combustão lenta: as «The Long Goodbye», «Infectious» e «T.O.M.B.» dispensam o impacto imediato em favor de uma construção mais paciente, que só se revela por inteiro ao fim de várias audições — um risco em particular no caso de «The Long Goodbye», escolhida para abrir o álbum, e que por isso pode transmitir uma primeira impressão enganadoramente morna do que aí vem.
Entre estes dois pólos fica um terceiro território, o das canções vocacionadas para durar em palco: a própria «Cursum Perficio» e a cativante «My Victory» soam a hinos talhados para se tornarem inevitáveis nos concertos dos ANTHRAX. Portanto, quem está à procura da velocidade quase inconsequente dos ANTHRAX dos anos 80 pode sentir que este é um disco mais comedido. Mas seria injusto medir «Cursum Perficio» por essa vara. Este é um álbum de uma banda que sabe exactamente quem é e para onde quer ir — mesmo que esse caminho, uma década depois do disco anterior, tenha exigido paciência de todas as partes.
O que esta leitura revela, mais do que qualquer consenso definitivo, é que «Cursum Perficio» é um disco que se recusa a ser fácil de arrumar numa gaveta. Não é um regresso triunfal e inequívoco, nem é tão-pouco um deslize de uma banda esgotada — é, isso sim, o retrato sonoro de cinco músicos que, depois de quatro décadas de carreira, já não sentem necessidade de provar seja o que for, e que por isso se permitem arriscar num piano desafinado a abrir o disco, ou em confissões líricas sobre família e felicidade que teriam sido impensáveis nos tempos do Judge Dredd.
Que o título seja, ou não, um aviso disfarçado sobre o futuro dos ANTHRAX, é uma questão em aberto que só o tempo resolverá. Mas se esta jornada estiver mesmo a chegar ao fim, «Cursum Perficio» é, pelo menos, uma forma inteligente e sentida de a fechar.



