O lendário vocalista dos ROSE TATTOO morreu. Entre o rock de rua, o cinema, a televisão, a intervenção social e uma vida marcada por tragédias e controvérsia, GARY “ANGRY” ANDERSON construiu uma das figuras mais lendárias e singulares da história do rock australiano.
Durante cinco décadas, Gary “Angry” Anderson carregou uma banda às costas, uma personagem à frente do peito e uma voz que parecia ter sido moldada para atravessar paredes. O lendário vocalista dos ROSE TATTOO faleceu na passada segunda-feira, dia 21 de Setembro, aos 79 anos, na Austrália. A notícia foi confirmada pela família e pela própria banda esta quarta-feira. A morte do cantor acontece poucas semanas depois de ter sofrido uma paragem cardíaca durante a digressão europeia da sua banda. O músico foi hospitalizado na Alemanha e, na sequência do incidente, os ROSE TATTOO viram-se forçados a cancelar o restante percurso europeu da sua One Last Ride, precisamente a digressão concebida para assinalar meio século de carreira.
O destino acabou por escrever um último capítulo particularmente cruel: aquela que deveria ser uma celebração dos 50 anos do grupo transformou-se na despedida definitiva do homem que, mais do que qualquer outro, lhes deu rosto e voz. A família e os restantes elementos dos ROSE TATTOO pediram entretanto privacidade e anunciaram que não irão conceder entrevistas nesta fase.
Nascido em Melbourne a 5 de Agosto de 1947, Gary Anderson cresceu num ambiente operário e, desde cedo, desenvolveu uma personalidade que não encaixava propriamente na ideia convencional de bom rapaz. Na juventude esteve ligado ao clube motard Vigilanties e começou por ser conhecido como “Mouse”, uma referência à sua baixa estatura. A tendência para enfrentar homens consideravelmente maiores acabou por lhe valer outro nome: “Angry Ant”. O “Ant” desapareceu pelo caminho. “Angry” ficou para sempre.
O próprio Anderson reconhecia que havia uma componente quase teatral naquela persona. “Angry” Anderson era, em boa medida, um personagem — exagerado, ameaçador e construído para o palco — mas a intensidade por detrás dela era bem real. A primeira grande aventura musical surgiu com os BUSTER BROWN, banda que contava com Phil Rudd, futuro membro dos AC/DC. Em 1974, editaram «Something To Say» pela Mushroom Records e ganharam uma pequena legião de seguidores em Melbourne. Foi, porém, apenas o princípio.
Dois anos depois, Anderson juntou-se à formação dos ROSE TATTOO em Sydney e encontrou finalmente o veículo perfeito para aquela voz e aquela presença. A banda não parecia interessada em tornar o rock particularmente confortável e, com Peter Wells a comandar a guitarra e uma sonoridade construída sobre riffs pesados, blues acelerados e uma atitude quase ameaçadora, o grupo tornou-se rapidamente uma das expressões mais violentas e físicas do chamado pub rock australiano. No centro estava Anderson, cuja voz não precisava de adornos para se impor.
O álbum de estreia, simplesmente intitulado «Rose Tattoo», chegou em 1978 e tornou-se uma das obras fundamentais do rock australiano dessa década. Temas como «Rock ’n’ Roll Outlaw» e «Bad Boy For Love» ajudaram a estabelecer a identidade do grupo, enquanto a produção associada a Harry Vanda e George Young colocava aquela mistura de blues, hard rock e atitude de rua no coração da cena australiana. Mas a Austrália não estava propriamente preparada para os ROSE TATTOO.
A imagem da banda — musculada, tatuada, agressiva e deliberadamente provocadora — entrou em choque com a televisão e a rádio mainstream. Um dos episódios mais caricatos aconteceu no programa Countdown, da ABC, onde Anderson e o guitarrista Mick Cocks trocaram uma pastilha elástica durante uma actuação. O gesto foi interpretado como um beijo e acabou por contribuir para que os ROSE TATTOO fossem banidos do programa. Em vez de os domesticar, toda a controvérsia só ajudou a alimentar a reputação da banda. E, quando chegaram à Europa, perceberam que havia um público disposto a recebê-los exactamente como eram.
A internacionalização dos ROSE TATTOO ganhou força no início dos anos 80. Os primeiros álbuns encontraram uma recepção particularmente forte no Reino Unido e ajudaram a transformar Anderson numa presença reconhecível para toda uma geração de fãs de hard rock e heavy metal. Em palco, o vocalista levava a intensidade a extremos. Durante uma actuação no Reading Festival, chegou a bater repetidamente com a cabeça nos amplificadores, acabando coberto de sangue. Não era uma metáfora para a entrega ao rock’n’roll: era literalmente a forma como Anderson entendia um concerto.
«Scarred For Life», de 1982, acrescentou outro clássico ao repertório, «We Can’t Be Beaten», mas a formação original acabaria por se desintegrar. Seria fácil imaginar que aí começava o declínio. No caso de Anderson, aconteceu precisamente o contrário.
A partir de meados dos anos 80, a carreira de Anderson começou a tomar direcções que poucos poderiam ter previsto quando ele apareceu pela primeira vez com os ROSE TATTOO. No cinema, foi Ironbar Bassey em Mad Max Beyond Thunderdome, que foi lançado em 1985 — um papel que parecia ter sido escrito à medida da sua aparência. Na televisão, ganhou espaço ao lado de Ray Martin e começou a assumir um papel cada vez mais associado à defesa de jovens em situações vulneráveis e a causas sociais. Mas a maior surpresa ainda estava por chegar.
Em 1987, Anderson era o último elemento da formação clássica dos ROSE TATTOO. Nesse contexto, lançou a solo «Suddenly», uma balada que parecia pertencer a um universo completamente diferente daquele de «Rock ’n’ Roll Outlaw». Até que entrou na série Neighbours. A utilização do tema como banda sonora do casamento de Scott e Charlene, interpretados por Jason Donovan e Kylie Minogue, transformou a canção num fenómeno. O tema chegou ao segundo lugar na Austrália e ao terceiro no Reino Unido, enquanto Anderson passou, por momentos, de figura de culto do hard rock a presença incontornável da cultura popular australiana.
Era uma daquelas reviravoltas que só a carreira de Angry Anderson poderia produzir: o homem dos ROSE TATTOO, coberto de tatuagens e conhecido pela agressividade em palco, tornava-se inesperadamente conhecido por uma balada romântica.
A transformação não ficou pela música, no entanto. Anderson tornou-se uma figura regular da televisão australiana e dedicou parte considerável da vida a causas relacionadas com jovens, crianças, sem-abrigo, saúde e reabilitação. Trabalhou com organizações como a Starlight Children’s Foundation, Canteen, Camp Quality e Make-A-Wish, além de programas ligados à recuperação de toxicodependentes e ao apoio a jovens sem-abrigo.
Essa dimensão da sua vida tinha uma origem profundamente pessoal. Anderson revelou publicamente ter sido vítima de abuso durante a infância e utilizou essa experiência na intervenção que desenvolveu junto de jovens em situações vulneráveis. O seu trabalho nessa área acabou por lhe valer, em 1993, a nomeação como Member of the Order of Australia. Também se envolveu em campanhas relacionadas com a saúde masculina, nomeadamente após a morte Peter Wells, o guitarrista dos ROSE TATTOO.
Ainda assim, Anderson nunca deixou de ser uma figura controversa. Nos anos 2010 assumiu posições políticas sobre imigração e Islão que geraram forte polémica. Em 2013 candidatou-se pelo National Party e, uns anos mais tarde, esteve ligado à Australian Liberty Alliance. A sua participação no programa da SBS Go Back to Where You Came From, em 2012, colocou essas posições perante um público ainda mais vasto; posteriormente, o próprio afirmou que algumas das suas perspectivas tinham mudado.
E, por trás da personagem pública existia também uma sucessão de tragédias pessoais. Anderson tornou-se pai durante os anos mais turbulentos da carreira dos ROSE TATTOO e falou repetidamente sobre a forma como a chegada dos filhos alterou a sua relação com a vida. A família passou a ocupar um espaço central na sua existência, muito além da figura do “rock’n’roll outlaw” que havia construído em palco. Em 2018, sofreu a perda mais devastadora: o filho Liam foi morto em Sydney por um conhecido durante um episódio associado ao consumo de drogas.
Ainda assim, continuou a trabalhar. E, sobretudo, continuou a cantar.
Os ROSE TATTOO sobreviveram a mudanças sucessivas de formação e a décadas de transformações no mundo da música mais pesada. Anderson tornou-se o último elo permanente com a origem da banda e continuou a levar aquelas canções para os palcos muito depois de a formação clássica ter desaparecido. Claro, a influência também se espalhou muito para além da Austrália.
Os GUNS N’ ROSES gravaram «Nice Boys» no início da carreira e levaram os ROSE TATTOO consigo como banda de suporte durante a digressão Use Your Illusion, em 1993. Ao longo das décadas, a marca dos australianos tornou-se perceptível em várias gerações de punk, hard rock e metal, de bandas como os COSMIC PSYCHOS até aos AMYL AND THE SNIFFERS. Em 2006, entraram no ARIA Hall of Fame, reconhecimento oficial de uma importância que já há muito ultrapassava o número de discos vendidos. A banda deixou oito álbuns de estúdio e uma sucessão de temas que se tornaram parte da identidade do rock australiano.
O mais recente álbum, «Outlaws», foi editado em 2020 e, em 2026, os ROSE TATTOO decidiram assinalar o 50.º aniversário com uma derradeira digressão. A One Last Ride levou a banda novamente para a estrada europeia durante o Verão. O Sr- “Angry” Anderson ainda subiu ao palco nos Países Baixos e na Alemanha antes de a situação de saúde obrigar ao cancelamento da restante agenda. A própria banda anunciou que o vocalista estava hospitalizado e pediu aos fãs que respeitassem a privacidade da família. Poucas semanas depois, chegou a notícia que ninguém queria receber.
Gary “Angry” Anderson morreu na Austrália a 21 de Setembro, aos 79 anos.





