ALTARAGE

ALTARAGE: Novo álbum, «Cogwell», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Em «Cogwheel», o trio basco ALTARAGE troca o caos calculado pela lentidão perturbadora, construindo o disco mais ambicioso e humano da sua carreira.

Os ALTARAGE são uma daquelas, cada vez mais raras, bandas que evoluem claramente por corte. Depois de seis LPs dedicados a um death metal dissonante de arquitectura quasi industrial, o trio de Bilbau decidiu, ao seu sétimo longa-duração, mudar não o vocabulário, mas o ponto de vista. «Cogwheel» não é apenas mais um disco de metal extremo denso e hostil — é uma tentativa deliberada de humanizar o abismo, de trocar o niilismo cósmico por uma angústia mais próxima, mais reconhecível, mais nossa.

O título não é, de todo, inocente. Uma engrenagem sugere repetição, desgaste, um mecanismo que tritura quem nele fica preso. É essa a imagem que atravessa os quase 75 minutos deste duplo LP: já não o cosmos indiferente das obras anteriores, mas a máquina social que esmaga o indivíduo dia após dia.

Desde a formação, em 2015, os ALTARAGE construíram um nome à custa de uma proposta muitíssimo específica: death metal dissonante com produção de alta definição, um som simultaneamente moderno e opressivo, herdeiro directo da escola aberta pelos canadianos PORTAL. Os primeiros três álbuns da banda apostaram sobretudo no desconforto auditivo como fim em si mesmo. No entanto, com «Succumb», de 2021, essa fórmula começou a mostrar sinais de esgotamento criativo, obrigando o trio a procurar outros territórios.

Esses territórios já tinham sido antecipados, de forma mais crua, em «Sol Corrupto», de 2022, um registo ao vivo de pendor mais drone/industrial, lançado apenas em suporte físico. «Cogwheel» pode ler-se como a consumação natural dessa derivação: aquele momento em que a componente experimental, antes secundária, se funde definitivamente com a violência dissonante que sempre foi a marca dos ALTARAGE.

Se há uma faixa que resume a mudança de paradigma é «Wielder», um bloco de cerca de catorze minutos que dispensa a urgência para privilegiar a extenuação. Onde antes havia velocidade calculada para castigar o ouvido, há agora paciência — uma paciência quase punitiva, que obriga o ouvinte a permanecer dentro de um espaço sonoro em vez de o atravessar a correr. O longa-duração abre precisamente nesse registo, com «Peso Muerto», tema que já anuncia a mudança de temperatura: os elementos industriais surgem fundidos na estrutura, não como adorno, mas como tecido constitutivo da canção e dos ALTARAGE.

É esse cruzamento entre tensão contida e dilatação temporal que dá a «Cogwheel» uma identidade distinta dentro do género.

A meio do percurso, «Future Wreck» aproxima-se de uma pulsação média que evoca os Godflesh da fase de «Pure», enquanto «1988» reforça essa vertente mais atmosférica sem nunca abandonar o peso que sempre definiu os ALTARAGE. Convenhamos, este não é um disco de rendição total à lentidão. Os três últimos temas devolvem parte da violência mais directa que caracterizou trabalhos anteriores; e «Not A Proper Burial» é, nesse sentido, o ponto de maior atrito: tema de andamento pesado e movimento tempestuoso que, ainda assim, mantém a disciplina estrutural que percorre todo o álbum.

O verdadeiro momento de ruptura, contudo, chama-se «Ichor». É a faixa mais despojada e a que menos se esperaria de uma banda conhecida pela densidade. Sobre uma dissonância em expansão lenta, surgem vozes limpas, de vibrato profundo, quase operáticas na sua fragilidade. Não chega a ser um momento ao estilo Candlemass, mas aproxima-se o suficiente para sugerir um território a explorar no futuro — e para deixar a sensação de que os ALTARAGE ainda têm ases na manga que decidiram, por ora, mostrar apenas uma vez.

O metal extremo dissonante é hoje um dos territórios mais férteis da cena internacional, com bandas a explorar cruzamentos entre death metal, drone, ambiente e ruído industrial — um caminho que também encontra ecos em certos núcleos experimentais da cena portuguesa, historicamente atenta a fusões entre extremismo sonoro e texturas não convencionais. Nesse contexto alargado, «Cogwheel» distingue-se por recusar a dissonância como espectáculo de caos gratuito, optando antes por uma equação mais rara: força, equilíbrio e repetição hipnótica sem cair na aleatoriedade fácil.

Depois de uma década em atividade, o gesto mais arriscado que os ALTARAGE podiam fazer não era acelerar, nem escurecer ainda mais o discurso — era abrandar, e com isso expor-se. «Cogwheel» consegue esse equilíbrio raro entre reconhecimento e reinvenção: mantém a assinatura sonora que tornou a banda relevante, mas alarga-a a um território emocional mais próximo do humano do que do abstrato. É, até agora, o trabalho mais completo e mais ambicioso do trio basco — e um dos discos de death metal dissonante mais consistentes lançados este ano.