WOLVES IN THE THRONE ROOM

WOLVES IN THE THRONE ROOM: Novo LP, «Estuary», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Com «Estuary», os WOLVES IN THE THRONE ROOM assinam o oitavo álbum com a mesma convicção de sempre, mas com uma paleta alargada que lhes faz bem.

Imagine-se um mundo sem eletricidade, sem asfalto, sem ruído de fundo. As estruturas de betão cedem à vegetação, as máquinas adormecem, e do silêncio emerge algo que nos habituámos a ignorar: a paisagem a respirar sozinha. É este o cenário que Nathan Weaver diz ter imaginado para o novo disco dos WOLVES IN THE THRONE ROOM. Na perspectiva do músico, trata-se de um desfecho desejável, não de uma catástrofe.

Dito assim, soa a provocação. Mas quem acompanha a banda de Olympia, no estado de Washington, sabe que a ideia é coerente com um percurso de mais de duas décadas. Criados por Nathan Weaver e pelo irmão Aaron Weaver, baterista, os WOLVES IN THE THRONE ROOM sempre ocuparam um lugar à margem das convenções do black metal moderno. Não encontramos aqui a misantropia reflexa nem o niilismo de catálogo de mil formações escandinavas de rosto pintado. Encontramos outra coisa: uma espiritualidade telúrica, uma relação quase litúrgica com a floresta e com os ciclos naturais. «Estuary» não renega essa herança. Dá-lhe, pelo contrário, o argumento mais nítido até hoje.

Como já sabemos, há discos que nascem de uma ideia e outros que a ideia encontra. A impressão que «Estuary» deixa é a de uma banda que topou, finalmente, o conceito certo para o seu som. A fantasia de um planeta devolvido a si próprio, depois do colapso da civilização tal como a conhecemos, funciona como fio condutor sem se transformar em sermão. A queda da humanidade é aqui celebrada de forma implícita, filtrada pela música e não por manifestos.

E convém dizê-lo sem rodeios: a qualidade do trabalho dos WOLVES IN THE THRONE ROOM nunca esteve em causa. O que se ia instalando, com o passar dos anos, era a previsibilidade. Sabia-se mais ou menos o que esperar de um álbum seu: as guitarras em ondas largas, a bateria em fúria controlada, a atmosfera de vento e musgo. Esse risco de acomodação dissipa-se neste oitavo capítulo. Os traços habituais estão todos lá, mas a banda abre-se a territórios que já se adivinhavam nas margens.

Quem ouvir com atenção os discos anteriores dos WOLVES IN THE THRONE ROOM reconhecerá uma veia gótica latente por baixo do vendaval sonoro. Em «Estuary», essa veia vem mais à superfície, sobretudo em «Estuary», a faixa-título, e em «Ghosts Among The Obelisks». Há nestes temas uma gravidade sombria, quase processional, que acrescenta uma dimensão dramática sem desviar a banda do seu centro de gravidade.

Ainda assim, «Knights Of Tiamat» é talvez o exemplo mais exuberante desta nova expansão. Os blastbeats e a violência a que o género nos habituou convivem com toques ambientais pouco ortodoxos, com um solo de guitarra de contornos sinistros, a planar como ave de rapina, e com cânticos dramáticos que evocam a imagem de alguém no topo de uma falésia em plena tempestade, talvez até de tronco nu. Podia resvalar para a caricatura, mas a banda tem credibilidade e convicção suficientes para que a cena resulte em grandeza, não em pose.

A surpresa maior está, porém, nos sedimentos industriais que se depositam nos recantos mais escuros do disco. Em «Foretold In Reflections», um tema de atmosfera sombria e arrepiante, ouvem-se percussões metálicas, que soam a ferrugem em movimento. Já «The Orca Cliffs» sugere o despertar de maquinaria há muito adormecida, algures num futuro longínquo. O gesto é inteligente, porque está em perfeita sintonia com a premissa do álbum. Num mundo em que a natureza reconquistou o que era seu, os vestígios da indústria não desaparecem de todo: persistem como fósseis, como ruínas de uma civilização que já só existe em eco. A música diz isso sem precisar de o explicar.

Épico no alcance, terreno na execução e evolutivo no princípio, «Estuary» inscreve-se entre o que de melhor os WOLVES IN THE THRONE ROOM já produziram. Não é uma ruptura, e ainda bem: seria estranho exigir a uma banda com este património que renegasse a sua identidade. É antes uma ampliação, a prova de que um som reconhecível pode continuar a crescer sem perder raízes.

Portanto, para quem aprecia o black metal como espaço de pensamento e não apenas de agressão, este é um disco que reafirma a pertinência de uma via alternativa. Numa altura em que a palavra rewilding circula nos debates ambientais, os WOLVES IN THE THRONE ROOM oferecem-lhe uma banda sonora à medida: vasta, sombria e, apesar de tudo, estranhamente luminosa.

WOLVES IN THE THRONE ROOM, «Estuary»