A segurança do WACKEN OPEN AIR é acusada de perseguir a diversidade e fechar os olhos ao extremismo. Afinal, o que se passou às portas do festival?
O Wacken Open Air, considerado o maior e mais emblemático festival de heavy metal do planeta, viu-se esta semana a braços com uma controvérsia que ameaça manchar a reputação de mais de três décadas de existência. Vários frequentadores da edição de 2026 relataram ter sido impedidos de entrar no recinto por usarem patches, bandeiras ou camisolas com mensagens antifascistas ou com símbolos associados à diversidade sexual, nomeadamente a bandeira do arco-íris.
Perante a vaga de queixas, a organização do Wacken Open Air emitiu um comunicado oficial nas redes sociais, no qual reconheceu os incidentes e prometeu tomar medidas correctivas. “Essas acções nunca estiveram alinhadas com os nossos valores“, lê-se nessa declaração, que reforça o compromisso do festival com “o cosmopolitismo e a tolerância“.
A polémica ganhou dimensão pública depois de uma participante ter partilhado a sua experiência na plataforma Reddit. Segundo o relato, a equipa de segurança obrigou-a a remover um patch que foi classificado como “mensagem política” e questionou-a sobre um emblema com as cores do Orgulho LGBTQIA+ que trazia no colete. A frequentadora foi ainda mais longe, afirmando ter sido alvo de insultos homofóbicos na zona de campismo do festival.
Segundo a mesma fonte, vários símbolos associados à extrema-direita terão permanecido visíveis e não terão sido alvo de qualquer intervenção por parte da segurança, ao contrário do que sucedeu com esses elementos antifascistas e de diversidade. A participante concluiu que já não se sentia segura no recinto — uma afirmação particularmente gravosa para um evento como o Wacken Open Air, que sempre reivindicou o lema “abertura para o mundo“.
Face à repercussão do caso, os responsáveis pelo Wacken Open Air anunciaram já um conjunto de medidas destinadas a evitar a repetição de episódios semelhantes. Entre elas contam-se o reforço da formação e sensibilização das suas equipas de segurança, assim como a colocação de uma Awareness Team — equipa de apoio especializada — junto às entradas e zonas de transição do recinto, e a abertura de uma investigação a todas as queixas recebidas.
No comunicado, a organização sublinha ainda que se opõe “firmemente ao extremismo de direita” e reitera que o Wacken Open Air se assume como “um ponto de encontro pacífico para a comunidade do metal“, onde a liberdade de expressão deve ser garantida sem ambiguidades. Significativamente, a publicação surge com os comentários desactivados, uma decisão justificada pela vontade de “não oferecer uma plataforma para discursos de ódio ou incitação“. Quem tiver vivido situações semelhantes foi convidado a reportar directamente os factos por correio electrónico à organização.
Importa referir aqui que este episódio se insere num debate mais amplo que atravessa a Alemanha nos últimos anos, relacionado com o aumento de incidentes de discriminação e extremismo em espaços públicos e eventos de grande escala. Para um festival com a dimensão e a história do Wacken Open Air — que se realiza desde 1990 na pequena localidade alemã que lhe dá o nome e que atrai anualmente dezenas de milhares de fãs de todo o mundo — a gestão pública deste tipo de casos assume um peso ainda mais simbólico e particular.
O metal, enquanto género musical, tem historicamente reivindicado espaços de comunidade e pertença para públicos muitas vezes marginalizados, pelo que acusações de discriminação por parte da segurança de um dos seus maiores festivais do mundo tendem a gerar reacções especialmente intensas dentro da própria cena.
A controvérsia surge, ironicamente, na mesma semana em que o Wacken Open Air anunciou as primeiras cinquenta confirmações para a edição de 2027, agendada para se realizar entre os dias 28 e 31 de Julho. Resta agora saber se as medidas anunciadas serão suficientes para restaurar a confiança de uma parte do público que, este ano, se sentiu excluída precisamente do espaço que sempre se apresentou como refúgio de tolerância.



