Uma excepção consciente às suas próprias regras levou os UADA a revisitarem um dos temas mais sombrios do «Nevermind».
Os UADA divulgaram uma nova gravação que surpreende pela escolha e pela abordagem: uma versão de «Something In The Way», tema originalmente lançado pelos NIRVANA em 1991 como parte do clássico «Nevermind», álbum que acabaria por trasnformar-se num marco absoluto da música rock alternativa e a alcançar certificação de platina 13 vezes.
A leitura dos norte-americanos UADA, profundamente enraizada no black metal atmosférico e, acima de tudo, na folk de contornos mais osbcuros, assume-se como uma homenagem sentida a uma das bandas mais influentes da história recente, mas também como uma reflexão pessoal sobre herança, território e memória.
Desde a sua formação, os UADA estabeleceram uma regra clara: não gravar versões, concentrando-se em construir uma identidade artística autónoma e reconhecível. Esta nova gravação representa, por isso, uma excepção deliberada a esse princípio. Jake Superchi, vocalista e guitarrista da banda, explicou o contexto da decisão num comunicado que acompanha o lançamento do tema, sublinhando o carácter especial do momento.
“Quando os UADA se formaram, foi estabelecida uma regra: não fazer versões, na procura de esculpir uma voz totalmente independente”, confirma o guitarrista e vocalista dos UADA. “Com esta canção, permitimo-nos quebrar essa regra. Além disso, recrutar um violoncelista para este projecto criou um alinhamento raro — um momento perfeito para prestar homenagem a uma das influências mais formativas e regionais da minha juventude. Mantendo-nos próximos do original, deixámos que a nossa interpretação ganhasse o seu próprio peso sombrio e glacial — um peso que ecoa a tristeza intemporal da canção.”
A referência à dimensão “regional” não é, de resto, casual. Tal como os NIRVANA, os UADA emergem do Noroeste do Pacífico, uma zona dos Estados Unidos cujas paisagens naturais, clima e isolamento cultural marcaram profundamente o grunge dos 90s e a actual vaga de black metal atmosférico oriunda daquela região. Essa ligação geográfica funciona como ponto de contacto entre dois universos estéticos distintos, mas unidos por uma sensibilidade comum para a melancolia e a introspecção.
Musicalmente, a versão de «Something In The Way» preserva a estrutura essencial do tema original, recusando transformações radicais ou excessivamente ornamentais. Ainda assim, a interpretação dos UADA imprime uma densidade emocional diferente, reforçada pela inclusão de violoncelo, que trata de acrescentar camadas de tensão e gravidade extra ao arranjo. A participação de C.E. Brown, conhecido pelo seu trabalho nos OSI AND THE JUPITER e HELJARMADR, revela-se central para essa transformação subtil, ampliando o carácter fúnebre e contemplativo da canção sem desvirtuar o seu núcleo emocional.
Este lançamento surge como um momento singular na discografia dos UADA, não apenas por quebrar uma regra autoimposta, mas por demonstrar como uma banda pode dialogar com um clássico absoluto sem recorrer à nostalgia fácil. Ao optar por uma abordagem contida e respeitosa, o grupo constrói uma ponte entre gerações e géneros, reafirmando a ideia de que certas canções continuam a encontrar novos significados quando reinterpretadas com intenção e consciência histórica.











