Num Casino com história e cenário de gala, TYKETTO e RUSS BALLARD partilharam o palco numa noite de celebração, nostalgia e, por momentos, emoção genuína.
O Salão Preto e Prata, no Casino Estoril, foi palco de uma contradição fascinante: um dos ambientes mais elegantes e contidos do país a render-se, durante mais de duas horas, à energia crua e sentimental do rock melódico e do AOR. Na passada sexta-feira, a noite cruzou a genica contagiante dos TYKETTO com a sofisticação histórica de Russ Ballard, numa celebração de longevidade, técnica e da perseverança que há muito define o género.
A abertura da noite coube aos norte-americanos TYKETTO — banda que, pelos roteiros europeus que insiste em fazer, já pouco tem de norte-americana. Subiram a palco liderados pelo carismático Danny Vaughn, mas o início da actuação ficou, porém, marcado por um contratempo técnico que poucos dos presentes esperavam: durante quase todo o primeiro tema, problemas na mistura deixaram a voz de Vaughn num silêncio frustrante. O concerto começou, literalmente, aos soluços.
A forma como os TYKETTO geriram o percalço revelou, contudo, a sua experiência. Uma vez resolvido o problema, Danny Vaughn não só recuperou o fôlego como a actuação foi crescendo bastante em nível e intensidade. Ancorado pelo mais recente LP, «Closer To The Sun», de onde retiraram os singles «Higher Than High», «We Rise» e «Bad For Good», o colectivo — que além de Danny Vaughn, conta ainda com o lendário Johnny Dee na bateria, Chris Childs no baixo, Ged Ryland nos teclados e guitarra, e o jovem guitarrista Harry Scott Elliott — jogou pelo seguro ao apostar forte nos dois primeiros álbuns: «Don’t Come Easy» e «Strength In Numbers».

















Houve dois momentos semi-acústicos, com Vaughn na guitarra — «Reach» e «Seasons» —, o segundo deles com um inesperado excerto de «Everybody Wants To Rule The World», original dos TEARS FOR FEARS, que o público recebeu com reconhecimento imediato.
Antes do fim, Danny Vaughn fez questão de agradecer à organização a oportunidade de tocar num palco tão emblemático, sublinhou a enorme importância de existirem “espaços seguros para o rock” em 2026 e dos momentos mais tocantes da noite ocorreu antes de «Standing Alone», com o cantor a confessar que, sempre que a tocam, precisa de uma breve pausa para se centrar, dada a carga emocional do tema. Foi o prelúdio para uma recta final imparável que, após uns redondos 70 minutos, culminou no hino geracional «Forever Young» — deixando a plateia em estado de absoluta euforia.
Aos 80 anos, Russ Ballard subiu ao palco com a aura de quem moldou o som do rock décadas a fio. O músico britânico apresentou um alinhamento focado nos dois trabalhos de maior culto — «The Fire Still Burns» e «Russ Ballard» —, exibindo uma dicotomia fascinante: a força de quem ainda sente a chama da composição e a fragilidade natural que a idade impõe, sem disfarce nem desculpa.







A noite foi um desfile de clássicos que o público português conhece bem, muitas vezes através de outras vozes e outras versões, mas que ali recuperaram o seu ADN original. «Voices», «The Fire Still Burns» e «In The Night» mostraram a robustez das melodias — composições que o tempo, ao contrário do que faz ao corpo, parece engrandecer.
Já perto do fim, Russ Ballard atacou ainda «Since You’ve Been Gone» — imortalizada pelos RAINBOW —, provocando um coro uníssono no Salão Preto e Prata. A despedida não poderia ter sido outra: «God Gave Rock’n’Roll To You», fecho simbólico para um artista que, apesar do peso dos anos, continua a ser um dos arquitectos fundamentais do género.
No final, aquilo a que assistimos foi a uma noite de contrastes evidentes, onde a técnica nem sempre esteve à altura do cenário, mas onde a alma do rock prevaleceu sobre qualquer falha de som ou marca do tempo. O Casino Estoril provou, uma vez mais, que certos géneros não precisam de estar na moda para encher uma sala — precisam, apenas, de convicção.











