TONS OF ROCK

TONS OF ROCK | DIA 4: Dos GAEREA aos ACCEPT, dos SEPULTURA a CHUCK SCHULDINER, o fim [reportagem]

Da despedida dos SEPULTURA à ressurreição de CHUCK SCHULDINER, passando pelos concertos dos GAEREA e dos BLACK LABEL SOCIETY de ZAKK WYLDE, o derradeiro dia do TONS OF ROCK foi o mais longo — e talvez o mais memorável.

O cansaço já se sentia nas pernas. É assim no último dia de qualquer festival que se preze: os quilómetros acumulados entre os palcos, as horas de pé, o sol que não abranda. Mas o Tons Of Rock não é festival de quem se senta — e havia ainda demasiada coisa para ver. Com tempo mais folgado nesta derradeira jornada, valeu a pena percorrer o recinto com um pouco mais atenção. Logo à entrada, uma sala dedicada ao gaming oferecia um refúgio fresco e descontraído para quem precisasse de descomprimir entre os concertos — um pormenor que diz muito sobre a forma como o festival pensa os seus públicos.

Ali muito perto, o Tons of Posten — resultado de uma parceria com os correios noruegueses — resolve um problema que qualquer comprador de merchandise conhece bem: em vez de andar o dia inteiro carregado de sacos, basta enviar as compras directamente para casa, ou oferecer a um amigo. A iniciativa tem feito crescer as vendas de merchandising desde que foi implementada, ainda que funcione apenas para residentes na Noruega.

O The Storm, espaço pensado para bandas em início de carreira, mereceu também uma visita. É aqui que os músicos mais novos sentem pela primeira vez o que é actuar num palco de festival com dimensão real — e já na quinta-feira tinha recebido o filho de Ihsahn a tocar, com o pai na plateia. Por ali passam também comediantes, e a tenda alberga ainda pequenas destilarias com cerveja e sidra artesanais, criando uma sombra bem-vinda no calor do final de Julho.

No palco principal, um espaço chamado blind zone — zona sem visibilidade — foi pensado para pessoas invisuais, garantindo que o som que sai do palco se ouve na perfeição independentemente da ausência de referências visuais. Um detalhe de acessibilidade que não passa despercebido. E depois há aquilo que não se usa: uma zona permanentemente vedada ao público, protegida por uma série de barreiras, porque o terreno que ocupa é um antigo cemitério viking. Oslo é assim — a história aparece onde menos se espera, e o Tons Of Rock respeita-a.

À uma da tarde, os PAIN, de Peter Tägtgren, tentaram aquecer um público que se ia juntando junto ao Vampire Stage, mas muitos estavam ainda a almoçar, e nem um pequeno problema técnico no terceiro tema conseguiu beliscar a solidez profissional de uma actuação que cumpriu o que prometia. No palco principal, a reunião dos DDR ficará na memória por razões que são difíceis de classificar com precisão. Uma banda de rock com secção de metais, uma vocalista já de idade que foi despindo roupa ao longo do concerto, outros vocalistas que se revezavam, um deles com um aspirador, poses que a linguagem jornalística convencional não sabe bem como descrever. Quem quiser perceber melhor, que procure vídeos — a descrição não lhes faz inteira justiça.

A primeira dose real de adrenalina do dia chegou com os BLACK LABEL SOCIETY. Zakk Wylde começou com o ritual já da praxe — o vídeo com a action figure do Ultimate Warrior e a máscara na cara — antes de entrar em palco. De seguida, «Funeral Bell» e «Name In Blood» abriram uma actuação excelente, e da cartola saiu ainda «No More Tears», que assentou como uma luva na tarde quente de Oslo. Wylde é um fenómeno de presença e de técnica, e a banda correspondeu à altura.

Ainda os BLACK LABEL SOCIETY tocavam quando os portugueses GAEREA subiram ao Moonlight Stage. E o que se seguiu foi mesmo uma das actuações mais marcantes do dia — e não apenas para quem já os conhecia.

A presença de palco dos GAEREA é de uma imponência que não pede licença. «LBRNTH» e «Nomad» abriram o concerto, e muitos curiosos que ali chegaram por acaso ficaram rendidos antes do segundo tema terminar. Do LP mais recente não faltaram «Phoenix», «Submerged» e «Luminary», deixando para o final dois temas de «Coma»: «Hope Shatters» e «Wilted Flower». Mais um capítulo numa trajectória internacional que continua a crescer com uma consistência que já não surpreende — e que ainda assim impressiona.

Com um sol ainda abrasador, os SEPULTURA despediram-se dos palcos noruegueses com um concerto que percorreu quatro décadas de carreira com a convicção de quem não tem nada a provar — e prova tudo na mesma. À semelança do que se passou também no Rock In Rio Lisboa, no Tons Of Rock foi «Inner Self» que serviu como um rastilho, e como um arranque demolidor: os primeiros corpos a voar por cima da barreira chegaram antes sequer do tema acabar.

A visita ao EP mais recente fez-se com «All Souls Rising», «The Place» e «Beyond The Dream», mas foi já na recta final que a tarde atingiu o pico. «Territory», «Refuse/Resist», «Arise», «Ratamahatta» e «Roots Bloody Roots» em sequência — cinco temas, cinco argumentos irrefutáveis a favor de uma carreira que merece todas as despedidas que lhe queiram fazer.

Pouco depois, os norte-americanos GATECREEPER centraram o alinhamento no seu álbum mais recente, «Dark Superstition». O vocalista Chase Mason é daqueles que dominam um recinto antes da música começar, e os circle pits que foi pedindo ao longo do concerto foram cumpridos pelos fãs com uma pontualidade quase matemática. Mesmo do outro lado do recinto, os LEPROUS viveram o que se vê nos seus rostos sempre que sobem a um palco desta dimensão: alegria.

A abertura com «Silently Walking Alone» terminou com uma dose generosa de fogo, e era visível a diferença que um palco maior faz na liberdade de movimentos da banda norueguesa. «Below», «Like A Sunken Ship» — um dos pontos altos do trabalho mais recente — e «Atonement» marcaram o alinhamento, que não dispensou a já habitual versão de «Take On Me», dos A-HA. Temos de assumir, a escolha faz sentido em qualquer palco do mundo. Mas, em Oslo, faz um sentido particular.

Ainda assim, o melhor do dia estava guardado para os germânicos ACCEPT, que chegaram ao Tons of Rock em substituição dos W.A.S.P. — que tinham, por sua vez, substituído os TWISTED SISTER. Uma cadeia de substituições que terminou da melhor maneira possível.

A banda de Wolf Hoffmann prepara-se para celebrar 50 anos de carreira, e está numa forma que envergonha bandas com metade da idade. Desde os primeiros acordes de «Metal Heart» que o público ficou rendido. «Teutonic Terror» e «Pandemic» foram os únicos temas da era mais recente, encaixando sem esforço no corpo de um alinhamento que se transformou depois um desfile de clássicos executados com mestria genuína: «Restless And Wild», «Breaker», «Princess Of The Dawn». A recta final, com as clássicas «Fast As A Shark», «Balls To The Wall» e «I’m A Rebel» — fez o recinto enlouquecer de vez. No final ficou uma ideia bem clara: estes ACCEPT respiram saúde, e muita.

Na última colisão de horários do festival, a decisão estava entre os A PERFECT CIRCLE e os DEATH TO ALL — o projecto que celebra o legado de Chuck Schuldiner e reúne em palco Steve Di Giorgio, Gene Hoglan, Bobby Koelble e Max Phelps, este último na guitarra e voz. A opção recaiu sobre os segundos, e não houve um segundo de arrependimento.

Após um ligeiro problema de som no arranque com «Living Monstrosity», o momento menos feliz ficou rapidamente esquecido. e «Lack Of Comprehension» arrancou à ´lateia o primeiro aplauso efusivo da noite; «The Philosopher» levou os fãs à loucura. «Symbolic» e «Crystal Mountain» foram mais dois momentos altos de um concerto que fechou com «Spirit Crusher» e «Pull The Plug» — dois pontos finais que soaram a despedida perfeita, não só do concerto, mas de quatro dias de festival.

O Tons of Rock 2026 terminou assim: com Chuck Schuldiner a pairar sobre o palco através dos músicos que melhor conhecem a sua obra, com as pernas cansadas e os ouvidos cheios, com um cemitério viking vedado por barreiras algures no recinto e com a certeza de que Oslo é, de facto, o lugar certo para um festival como este. Voltámos para casa com mais quilómetros nas solas dos sapatos do que quando chegámos — e com vontade de voltar no próximo ano.