SOUNDGARDEN

SOUNDGARDEN iniciam mistura do álbum póstumo com CHRIS CORNELL

Oito canções, uma batalha legal ultrapassada e uma promessa cumprida: os sobreviventes dos SOUNDGARDEN preparam-se para fechar o capítulo mais doloroso da sua história.

Quase uma década depois da morte de Chris Cornell, os restantes membros dos SOUNDGARDEN entraram finalmente na fase de mistura daquele que será o último álbum de originais da banda a contar com a voz do seu vocalista de sempre, encerrando um processo longo, emocionalmente exigente e judicialmente conturbado. A notícia foi confirmada por Matt Cameron, o baterista da banda de Seattle, numa conversa recente com Dean Delray. Segundo Cameron, o disco reunirá oito faixas com as linhas vocais de Cornell, resultado de um trabalho meticuloso de reconstrução a partir de maquetas, gravações de ensaios e material vocal deixado pelo cantor antes da sua morte, em 2017.

O processo de criação deste derradeiro disco dos SOUNDGARDEN remonta a vários anos antes da tragédia. Segundo Cameron, a troca de ideias entre ele e Chris Cornell começou ainda em 2013 ou 2014, através do envio de demos entre os dois músicos. “Eu enviava-lhe algumas coisas. Ele reorganizava, transformava aquilo em canções (…) Enviei-lhe um total de três faixas, e depois ele cantava sobre os instrumentais que eu tinha escrito, reorganizava tudo”, recordou o baterista.

A dada altura, o processo ganhou outra dimensão, com os quatro elementos a reunirem-se fisicamente em estúdio. “Começámos a juntar-nos, por volta de 2015, 2016, em alguns estúdios diferentes, e estávamos a preparar-nos para fazer outro LP antes daquela última digressão, em 2017”, explicou Matt Cameron, referindo-se ao período imediatamente anterior à morte de Chris Cornell.

Foi precisamente esse material de ensaio com os SOUNDGARDEN — incluindo partes de guitarra tocadas pelo próprio Cornell — que serviu como matéria-prima para o disco agora em fase de conclusão. “Estamos a usar algum desse material de ensaios ao vivo, como partes de guitarra que o Chris tocou, e depois estamos a usar as linhas vocais dessas demos que ele preparou, com a música que já tínhamos escrito juntos. E, basicamente, estamos a construir a partir daí”, detalhou o músico.

A existência deste material só se tornou pública durante o litígio judicial que opôs a banda a Vicky Cornell, a viúva do vocalista, um processo que se arrastou durante anos e que atrasou significativamente a conclusão do álbum. Foi nesse contexto que vieram a público os títulos de sete das canções previstas para figurarem no LP: «Road Less Traveled», «Orphans», «At Ophians Door», «Cancer», «Ahead Of The Dog», «Mermaids» e ainda «Stone Age Mind», assinadas por diferentes combinações de Cornell, Cameron, Kim Thayil e Ben Shepherd.

A responsabilidade de moldar este material coube inicialmente a Terry Date, produtor histórico dos SOUNDGARDEN, que já tinha assinado a produção de «Louder Than Love» e «Badmotorfinger», dois discos fundamentais na consolidação da banda como um dos pilares do grunge de Seattle. Depois de concluídas as gravações, o processo passou para as mãos de Joe Barresi, conhecido pelo trabalho com os TOOL e os AVENGED SEVENFOLD, agora encarregue da mistura das oito faixas.

Questionado sobre uma eventual data de lançamento, Matt Cameron foi muito cauteloso, evitando criar expectativas precipitadas. “Ainda não temos propriamente uma data. Vamos tentar que isto fique misturado, levá-lo até à linha de meta, e depois, com sorte, teremos uma ideia melhor do que vem a seguir. Estamos a ir passo a passo, porque tem sido um processo bastante longo só para chegarmos até aqui”, afirmou o músico.

Para além das questões técnicas e jurídicas, o processo carregou um peso emocional evidente, algo que Cameron não esconde. “Eu tenho ouvido essas demos desde que as gravámos juntos. E sempre achei que havia três ou quatro canções realmente muito fortes. Por isso, estou mesmo ansioso por terminar isto e lançá-lo… E espero que a reacção não seja demasiado intensa para as pessoas, mas sei que vai ser, porque tem sido para nós”, confessou ele.

Ainda assim, o baterista sublinhou que a familiaridade acumulada ao longo dos anos trouxe alguma serenidade ao processo. “Acho que, nesta fase, já ouvimos aquilo tantas vezes que criámos uma espécie de calo em relação ao lado emocional, e estamos só a tentar reunir todas as faixas. Soa a SOUNDGARDEN. Basicamente é como estarmos a trabalhar num álbum dos SOUNDGARDEN. E estamos”, concluiu.

Formados em Seattle, corria o ano de 1984, os SOUNDGARDEN foram uma das bandas fundadoras da sonoridade que definiria o grunge, junto de nomes como os Nirvana, Pearl Jam e Alice In Chains. A morte prematura de Chris Cornell, em Maio de 2017, interrompeu abruptamente uma carreira marcada por LPs incontornáveis como «Badmotorfinger» e «Superunknown», e deixou em aberto um capítulo que os restantes elementos da banda tentam agora encerrar com todo o cuidado e o respeito que a memória do cantor exige.